quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

79ª Catequese

1. «Mestre, onde moras?» (Jo 1, 38). Certo dia, esta pergunta foi feita a Jesus de Nazaré por dois jovens. Isto aconteceu nas margens do Jordão. Jesus tinha ido receber o baptismo de João; mas o Baptista, ao ver Jesus que vinha ao seu encontro, diz: «Eis o Cordeiro de Deus» (Jo 1, 36). Estas palavras proféticas indicavam o Redentor, Aquele que ia dar a Sua vida pela salvação do mundo. Assim, desde o baptismo no Jordão, João indicava o Crucificado. Foram precisamente estes dois discípulos de João Baptista que, ao ouvirem estas palavras, seguiram Jesus: não é isto rico de sentido? Quando Jesus lhes perguntou: «Que buscais?» (Jo 1, 38) eles, por sua vez, responderam com uma pergunta: «Rabbi – que quer dizer Mestre – onde moras? » (ibid.). Jesus respondeu-lhes: «“Vinde ver”. Foram, pois, e viram onde morava, e permaneceram junto d’Ele nesse dia» (Jo 1, 39). Tornaram-se os primeiros discípulos de Jesus. Um deles era André, que conduziu também a Jesus o seu irmão Simão Pedro.

Caros amigos, estou feliz por poder meditar este Evangelho convosco, juntamente com os Cardeais e os Bispos que estão ao redor de mim. É-me grato saudá-los. Quero agradecer a D. James Francis Stafford e ao Pontifício Conselho para os Leigos a sua activa preparação deste maravilhoso encontro, no seguimento do Cardeal Eduardo Pironio, que muito trabalhou para as Jornadas Mundiais. A minha gratidão dirige-se ao Cardeal Jean-Marie Lustiger pelo seu acolhimento, a D. Michel Dubost, aos Bispos de França e aos dos numerosos países do mundo que vos acompanham e enriqueceram as vossas reflexões. Saúdo também cordialmente os sacerdotes concelebrantes, os religiosos, as religiosas, todos os responsáveis dos vossos movimentos e dos grupos diocesanos.

Agradeço a presença dos nossos irmãos cristãos de outras comunidades, assim como as personalidades civis que quiseram associar-se a esta celebração litúrgica.

Ao saudar todos vós de novo, desejo em particular exprimir o meu encorajamento afectuoso àqueles de entre vós que são deficientes; estamos-lhes gratos por terem vindo connosco e nos trazerem o seu testemunho de fé e de esperança. Recordo igualmente na oração todos os doentes, assistidos no hospital ou na própria casa.

Em nome de todos vós, quereria também exprimir a nossa gratidão aos numerosos voluntários que asseguram, com devotamento e competência, a organização da vossa reunião. Quereria elogiar sentidamente os voluntários pela sua seriedade. Voltemos ao Evangelho.

2. O breve trecho do Evangelho de João, que acabámos de escutar, diz o essencial do programa da Jornada Mundial da Juventude: um intercâmbio de perguntas, depois uma resposta que é um apelo. Ao apresentar este encontro com Jesus, a liturgia quer mostrar hoje o que mais vale na vossa vida. E eu, Sucessor de Pedro, vim pedir-vos que façais, vós também, esta pergunta a Cristo: «Onde moras?». Se Lhe dirigirdes sinceramente esta pergunta, podereis ouvir a Sua resposta e receber d’Ele a coragem e a força para O seguir.

A pergunta é o fruto duma busca. O homem procura a Deus. O jovem compreende no fundo de si mesmo que esta busca é a lei interior da sua existência. O ser humano procura o seu caminho no mundo visível; e, através do mundo visível, procura o invisível ao longo da sua peregrinação espiritual. Cada um de nós pode repetir as palavras do salmista: «É a Vossa face, Senhor, que eu procuro; não escondais de mim o Vosso rosto » (Sl 27/26, 8-9). Cada um de nós tem a sua história pessoal e traz em si o desejo de ver a Deus, um desejo que se experimenta ao mesmo tempo que se descobre o mundo criado. Este mundo é maravilhoso e rico, desvela diante da humanidade as suas inumeráveis riquezas, seduz, atrai a razão tanto quanto a vontade. Mas, no final das contas, não colma o espírito. O homem dá-se conta de que este mundo, na diversidade das suas riquezas, é superficial e precário; num certo sentido, está destinado à morte. Hoje tomamos mais consciência da fragilidade da nossa terra, com muita frequência degradada pela própria mão do homem, a quem o Criador a confiou.

Quanto ao homem mesmo, ele vem ao mundo, nasce do seio materno, cresce e matura; descobre a sua vocação e desenvolve a sua personalidade ao longo dos seus anos de actividade; depois, aproxima-se o momento em que deve deixar este mundo. Quanto mais longa é a sua vida, tanto mais o homem sente a sua própria precariedade, tanto mais faz a pergunta sobre a imortalidade: o que existe para além das fronteiras da morte? Então, no profundo do ser, surge a pergunta feita Àquele que venceu a morte: «Rabbi, onde moras?». Mestre, Vós que amais e respeitais a pessoa humana, Vós que

3. Nas margens do Jordão, e ainda muito mais tarde, os discípulos não sabiam quem era verdadeiramente Jesus. Terão necessidade de muito tempo para compreender o mistério do Filho de Deus. Nós também trazemos em nós o desejo de conhecer Aquele que revela o rosto de Deus. Cristo responde à pergunta dos discípulos através de toda a Sua missão messiânica. Ele ensinava; para confirmar a verdade daquilo que proclamava, fazia grandes prodígios, curava os doentes.

4. «Rabbi, onde moras?». A Igreja responde todos os dias: Cristo está presente na Eucaristia, o sacramento da Sua morte e ressurreição. Nela e por ela, reconheceis a morada do Deus vivo na história do homem. Pois a Eucaristia é o sacramento do amor vencedor da morte, é o sacramento da Aliança, puro dom de amor para a reconciliação dos homens; é o dom da presença real de Jesus, o Redentor, no pão que é o seu Corpo imolado, no vinho que é o seu Sangue derramado por todos. Mediante a Eucaristia, incessantemente renovada em todos os povos do mundo, Cristo constitui a sua Igreja: Ele une-nos no louvor e na acção de graças pela salvação, na comunhão que só o amor infinito pode selar. O nosso encontro mundial toma todo o seu sentido agora, pela celebração da Missa. Jovens, meus amigos, que a vossa presença seja uma real adesão na fé! Pois eis que Cristo responde à vossa pergunta e, ao mesmo tempo, aos interrogativos de todos os homens que buscam o Deus vivo. Responde com o Seu convite: este é o Meu Corpo, comei-o todos. Confia ao Pai o Seu desejo supremo da unidade, na mesma comunhão de todos aqueles que por Ele são amados.

5. A resposta à pergunta: «Mestre, onde moras» comporta então numerosas dimensões. Tem uma dimensão histórica, pascal e sacramental. A primeira leitura de hoje sugere-nos ainda outra dimensão da resposta à pergunta-tema da Jornada Mundial da Juventude: Cristo habita no seu Povo. É o povo de que fala o Deuteronómio, em relação à história de Israel: «Foi porque o Senhor vos ama, porque é fiel ao juramento que fez aos vossos antepassados; por isso, a Sua mão poderosa vos arrancou e salvou da casa da escravidão [...]. Reconhece, então, que o Senhor, teu Deus, é o único Deus, um Deus verdadeiro e fiel ao pacto de misericórdia que estabeleceu com aqueles que O amavam e obedecem às Suas leis, até à milésima geração» (Dt 7, 8-9). Israel é o Povo que Deus escolheu para Si, com o qual estabeleceu uma Aliança.

Na Nova Aliança, a eleição de Deus estende-se a todos os povos da terra. Em Jesus Cristo, Deus escolheu toda a humanidade. Revelou a universalidade da eleição mediante a redenção. Em Cristo, já não há Judeu nem Grego, nem escravo nem homem livre, todos não fazem senão um só (cf. Gl 3, 28). Todos foram chamados a participar da vida de Deus, graças à morte e à ressurreição de Cristo. O nosso encontro, nesta Jornada Mundial da Juventude, não está a pôr em evidência esta verdade? Todos vós, aqui reunidos, provenientes de tantos países e continentes, sois as testemunhas da vocação universal do Povo de Deus remido por Cristo! A última resposta à pergunta «Mestre, onde moras?» deve, então, ser entendida assim: habito em todos os seres humanos salvos. Sim, Cristo habita no seu Povo, que aprofundou as suas raízes em todos os povos da terra, o povo que O segue, a Ele, o Senhor crucificado e ressuscitado, o Redentor do mundo, o Mestre que tem palavras de vida eterna, Ele «a Cabeça do povo novo e universal dos filhos de Deus» (Lumen gentium, 13). O Concílio Vaticano II disse de modo admirável: é Ele que «nos deu do Seu Espírito, o qual, sendo um e o mesmo na Cabeça e nos membros, unifica e move o corpo inteiro» (ibid., n. 7). Graças à Igreja que nos faz participar da vida mesma do Senhor, todos nós podemos agora retomar as palavras de Pedro a Jesus: Para quem havemos nós de ir? Para quem outro havemos nós de ir? (cf. Jo 6, 68).

6. Caros jovens, o vosso caminho não se detém aqui. O tempo não pára hoje. Ide pelas estradas do mundo, pelos caminhos da humanidade, permanecendo unidos na Igreja de Cristo!

Continuai a contemplar a glória de Deus, o amor de Deus; e sereis iluminados para construir a civilização do amor, para ajudar o homem a ver o mundo transfigurado pela sabedoria e o amor eternos.

Perdoados e reconciliados, sede fiéis ao vosso baptismo! Testemunhai o Evangelho! Como membros da Igreja, activos e responsáveis, sede discípulos e testemunhas de Cristo que revela o Pai, permanecei na unidade do Espírito que dá a vida!" (Beato João Paulo II, Homilia de Encerramento da JMJ, Paris)

78ª Catequese

Homilia do Beato João Paulo II na Conclusão da XV JMJ, Tor Vergata

"1. «Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna» (Jo 6, 68).
Queridos jovens e queridas jovens da décima quinta Jornada Mundial da Juventude, estas palavras de Pedro, no diálogo com Cristo no fim do discurso do «pão da vida», tocam-nos pessoalmente. Nestes dias, meditámos sobre a afirmação de João: «O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós» (Jo 1, 14). O evangelista conduziu-nos até ao grande mistério da encarnação do Filho de Deus, o Filho que nos foi dado por meio de Maria, «ao chegar a plenitude dos tempos» (Gal 4, 4).
Em nome de Cristo, vos saúdo uma vez mais a todos com grande afecto. Saúdo e agradeço ao Cardeal Camillo Ruini, meu Vigário Geral na diocese de Roma e Presidente da Conferência Episcopal Italiana, as palavras que houve por bem dirigir-me no início desta Santa Missa; saúdo também o Cardeal James Francis Stafford, Presidente do Pontifício Conselho para os Leigos, e os numerosos Cardeais, Bispos e sacerdotes aqui reunidos; saúdo, igualmente, com deferente gratidão o Senhor Presidente da República e o Chefe do Governo italiano, bem como as demais Autoridades civis e religiosas que nos honram com a sua presença.
2. Chegamos ao ponto culminante da Jornada Mundial da Juventude. Ontem à noite, queridos jovens, reafirmámos a nossa fé em Jesus Cristo, o Filho de Deus que o Pai enviou, como no-lo recordou a primeira leitura de hoje, «a levar a boa nova aos pobres, a curar os de coração despedaçado, a anunciar a amnistia aos cativos, e a liberdade aos prisioneiros, (...) a consolar os tristes» (Is 61, 1-3.4).
Com esta Celebração Eucarística, Jesus introduz-nos no conhecimento de um aspecto particular do seu mistério. No Evangelho, escutámos uma parte do discurso que Ele fez na sinagoga de Cafarnaum, depois do milagre da multiplicação dos pães. Cristo revela-Se como o verdadeiro pão da vida, o pão descido do céu para dar a vida ao mundo (cf. Jo 6, 51). É um discurso que os ouvintes não entendem. A perspectiva em que se movem é demasiado materialista para poderem captar o verdadeiro sentido das palavras de Cristo. Raciocinam segundo uma óptica da carne, que «não serve para nada» (Jo 6, 63). Jesus, ao contrário, abre o discurso para os horizontes ilimitados do espírito: «As palavras que Eu vos disse - sublinha Ele - são espírito e vida» (Jo 6, 63).
Mas o auditório está refractário: «Duras são estas palavras! Quem pode escutá-las?» (Jo 6, 60). Consideram-se pessoas de bom senso, com os pés na terra. Por isso abanam a cabeça e, resmungando, lá se vão embora um após outro. A multidão inicial vai-se reduzindo aos poucos. No fim, resta apenas o exíguo grupinho dos discípulos mais fiéis. Mas, sobre o «pão da vida», Jesus não está disposto a ceder. Antes, está pronto a enfrentar inclusive a separação dos mais íntimos: «Também vós quereis retirar-vos?» (Jo 6, 67).
3. «Também vós... ?» A pergunta de Cristo transpõe os séculos e chega até nós, interpela-nos pessoalmente e pede uma decisão. Qual é a nossa resposta? Queridos jovens, se hoje estamos aqui, é porque nos reconhecemos na afirmação do apóstolo Pedro: «Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna» (Jo 6, 68).

Palavras, ao nosso redor ressoam tantas, mas só Cristo tem palavras que resistem à erosão do tempo e duram por toda a eternidade. Esta fase da vida em que vos encontrais, impõe-vos algumas opções decisivas: a especialização nos estudos, a orientação no trabalho, o próprio compromisso que se tem de assumir na sociedade e na Igreja. É importante tomar consciência que, dentre as muitas questões que emergem no vosso espírito, as decisivas não dizem respeito a «que coisa». A pergunta fundamental é «quem»: ir para «quem», «quem» seguir, «a quem» entregar a própria vida.
Pensai na vossa escolha afectiva, e imagino que estais de acordo comigo: o que verdadeiramente conta na vida é a pessoa com quem se decide partilhá-la. Mas, cuidado! Toda a pessoa humana é inevitavelmente limitada: mesmo no matrimónio mais feliz, não deixa de registar-se uma certa medida de desilusão. Pois bem, meus caros amigos! Não serve isto para confirmar o que acabamos de ouvir o apóstolo Pedro dizer? Todo o ser humano, mais cedo ou mais tarde, termina exclamando como ele: «Para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna». Só Jesus de Nazaré, o Filho de Deus e de Maria, o Verbo eterno do Pai, nascido há dois mil anos em Belém da Judeia, só Ele é capaz de satisfazer as aspirações mais profundas do coração humano.

Na pergunta de Pedro «para quem havemos nós de ir?», está já a resposta relativa ao caminho a percorrer. É o caminho que leva a Cristo. E o Mestre divino é acessível pessoalmente: de facto, está realmente presente com o seu corpo e o seu sangue no altar. No Sacrifício Eucarístico, podemos entrar em contacto, de modo misterioso mas real, com a sua pessoa, saciando-nos na fonte inexaurível da sua vida de Ressuscitado... Sede vós mesmos testemunhas fervorosas da presença de Cristo nos nossos altares. Que a Eucaristia plasme a vossa vida, a vida das família que haveis de formar. Que ela oriente todas as vossas opções de vida. Que a Eucaristia, presença viva e real do amor trinitário de Deus, vos inspire ideais de solidariedade e vos faça viver em comunhão com os vossos irmãos dispersos pelos quatro cantos da terra.

De modo particular, brote da participação na Eucaristia um novo florescimento de vocações para a vida religiosa, que assegure a presença na Igreja de forças novas e generosas para a grande tarefa da nova evangelização. Se algum ou alguma de vós, jovens amigos, sente dentro de si o chamamento do Senhor para se entregar totalmente a Ele e amá-Lo «com coração indiviso» (cf. 1 Cor 7, 34), não se deixe retrair pela dúvida ou pelo medo. Mas, com coragem, diga o seu «sim» sem reservas, confiando n'Ele que é fiel em todas as suas promessas. Porventura não assegurou Jesus, a quem deixar tudo por amor d'Ele, o cêntuplo aqui na terra e depois a vida eterna (cf. Mc 10, 29-30)?

7. No termo desta Jornada Mundial, olhando para vós, para os vossos rostos jovens, para o vosso entusiasmo sincero, quero dizer, do fundo do coração, um obrigado a Deus pelo dom da juventude, que, graças a vós, perdura na Igreja e no mundo.

Quero dizer a Deus obrigado pelo caminho das Jornadas Mundiais da juventude. Obrigado pelas multidões de jovens que elas atingiram ao longo destes dezasseis anos! São jovens que agora, já adultos, continuam a viver a fé onde residem e trabalham. Tenho a certeza que vós, queridos amigos, estareis à altura de quantos vos precederam. Vós levareis o anúncio de Cristo ao novo milénio. Voltando a casa, não vos isoleis. Confirmai e aprofundai a vossa adesão à comunidade cristã a que pertenceis. Daqui de Roma, da Cidade de Pedro e Paulo, o Papa acompanha-vos com afecto e, parafraseando uma afirmação de Santa Catarina de Sena, diz-vos: «Se fordes aquilo que deveis ser, pegareis fogo ao mundo inteiro!» (cf. Carta 368).

Com confiança, olho esta nova humanidade que se está preparando devido também à vossa contribuição, vejo esta Igreja perenemente rejuvenescida pelo Espírito de Cristo e que hoje rejubila com os vossos propósitos e o vosso compromisso. Estendo o olhar para o futuro e faço minhas as palavras duma antiga oração, que canta simultaneamente o dom de Jesus, da Eucaristia e da Igreja:

«Graças Vos damos, Pai nosso,
pela vida e pela ciência
que nos revelastes por Jesus, vosso servo.
Glória a Vós pelos séculos!

Assim como este pão repartido
estava disperso pelos montes
e, depois de recolhido, se tornou um só,
assim se reúna a vossa Igreja
dos confins da terra no vosso reino (...).

Senhor omnipotente,
Vós criastes o universo,
para glória do vosso nome;
e destes aos homens comida
e bebida para seu alento,
para que Vos dessem graças;
mas a nós concedestes-nos um alimento
e uma bebida espirituais
e a vida eterna por meio do vosso Filho (...).
Glória a Vós pelos séculos» (Didaké 9, 3-4; 10, 3-4).

Amem.

77ª Catequese

"Amados irmãos e irmãs,

«Chegou o dia de Maria dar à luz, e teve o seu filho primogénito. Envolveu-O em panos e recostou-O numa manjedoura, por não terem lugar na hospedaria» (cf. Lc 2, 6-7). Estas frases não cessam de tocar os nossos corações. Chegou o momento que o Anjo tinha preanunciado em Nazaré: «Hás-de dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo» (cf. Lc 1, 31-32). Chegou o momento que Israel aguardava há muitos séculos, durante tantas horas sombrias – o momento de algum modo esperado por toda a humanidade, ainda que sob figuras confusas: que Deus viesse cuidar de nós, que saísse do seu esconderijo, que o mundo fosse salvo e tudo se renovasse. Podemos imaginar com quanto cuidado interior, com quanto amor Se preparou Maria para aquela hora. A breve anotação «envolveu-O em panos» deixa-nos intuir algo da santa alegria e do zelo silencioso de tal preparação. Estavam prontos os panos, para que o Menino pudesse ser bem acolhido. Na hospedaria, porém, não havia lugar. De algum modo a humanidade espera Deus, a sua proximidade. Mas quando chega o momento, não tem lugar para Ele. Está tão ocupada consigo mesma, sente necessidade tão imperiosa de todo o espaço e de todo o tempo para as próprias coisas, que não resta nada para o outro: para o próximo, para o pobre, para Deus. E quanto mais ricos se tornam os homens, tanto mais preenchem tudo de si mesmos. Tanto menos pode entrar o outro.

João, no seu Evangelho, fixando-se no essencial, aprofundou a breve notícia de São Lucas sobre a situação de Belém: «Veio para o que era Seu, e os Seus não O acolheram» (1, 11). Isto aplica-se antes de mais a Belém: o Filho de David vem à sua cidade, mas tem de nascer num curral, porque, na hospedaria, não há lugar para Ele. Aplica-se depois a Israel: o enviado chega junto dos Seus, mas não O querem. Na realidade aplica-se à humanidade inteira: Aquele por Quem o mundo foi feito, o Verbo criador primordial entra no mundo, mas não é ouvido, não é acolhido.

Em última análise, estas palavras aplicam-se a nós, a cada individuo e à sociedade no seu todo. Temos nós tempo para o próximo que necessita da nossa, da minha palavra, do meu afecto? Para o doente que precisa de ajuda? Para o prófugo ou o refugiado que procura asilo? Temos nós tempo e espaço para Deus? Pode Ele entrar na nossa vida? Encontra um espaço em nós, ou temos todos os espaços do nosso pensamento, da nossa acção, da nossa vida ocupados para nós mesmos?

Graças a Deus, a notícia negativa não é a única, nem a última que encontramos no Evangelho. Tal como encontramos em Lucas o amor de Maria, a mãe, e a fidelidade de São José, a vigilância dos pastores e a sua grande alegria, tal como encontramos em Mateus a visita dos doutos Magos, vindos de longe, assim também João nos diz: «Mas, a quantos O receberam, deu-lhes poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo 1, 12). Existem aqueles que O acolhem e deste modo, a começar do curral, do exterior, cresce silenciosamente a nova casa, a nova cidade, o novo mundo. A mensagem de Natal leva-nos a reconhecer a escuridão dum mundo fechado, e deste modo clarifica sem dúvida uma realidade que vemos diariamente. Mas isto diz-nos também que Deus não Se deixa fechar fora. Ele encontra um espaço, entrando nem que seja para o curral; existem homens que vêem a sua luz e a transmitem. Através da palavra do Evangelho, o Anjo fala-nos também a nós, e, na liturgia sagrada, a luz do Redentor entra na nossa vida. Quer sejamos pastores quer sejamos sábios, a luz e a sua mensagem convida-nos para nos pormos a caminho, sairmos da mesquinhez dos nossos desejos e interesses a fim de irmos ao encontro do Senhor e adorá-Lo. Adoramo-Lo abrindo o mundo à verdade, ao bem, a Cristo, ao serviço de quantos vivem marginalizados e nos quais Ele nos espera..." (Papa Bento)

76ª Catequese

"Deus rompeu a distância e entrou na história como um homem, “de tal modo que o pensamento e toda a sua capacidade de imaginar, a afetividade e todo o seu sonhar ficaram como que ‘imobilizados’, magnetizados” 9. Foi assim que o jogo recomeçou, graças à curiosidade que Ele havia despertado. Diante daquela pergunta (“Quem é este?”), à qual não eram capazes de responder, mas que não podiam evitar fazer a si mesmos, eles foram obrigados a reconhecer que naquele Homem havia algo maior, que nenhuma definição (profeta, rei, etc.) era capaz de abarcar: tiveram de aceitar o que Ele dizia de si, de tanto que correspondia ao que seus olhos viam.
A fé, que é o primeiro ponto do itinerário do livro, é justamente o reconhecimento do Mistério presente naquela realidade humana absolutamente única e fascinante, que os leva a dizer sem parar: “Nunca vimos algo assim!” Se “existe na nossa experiência algo que provém de fora dela: imprevisível, misterioso, mas dentro dela” (p. 225), e a pessoa censura esse algo presente dentro de sua experiência, é obrigada a negar a própria experiência que faz. Por isso, se eles não tivessem aceitado o que Ele dizia de si, teriam sido obrigados a negar o que seus olhos viam, que era a coisa mais evidente que podia existir. O que eles têm a sua frente não é o Mistério enquanto desconhecido, mas o Mistério presente, tão presente que transborda daquele humano. Quantas e quantas vezes o Evangelho narra esse maravilhamento, não diante de algo que não existia, de algo que faltava: não é um Mistério desconhecido e distante, é um Mistério presente!
A verificação de que todas essas coisas não são palavras, a verificação da fé de quem foi alcançado por essa Presença incomparável e que não pode trapacear diante dela, a verificação da fé é a liberdade. O que é a liberdade? Dom Giussani, para responder a isso, nos facilita o caminho: pensemos em quando cada um de nós se sente livre, partamos do adjetivo, da experiência de nos sentirmos livres. A pessoa se sente livre quando um desejo seu é satisfeito, quando o que ela deseja acontece. Tanto é que, quando encontramos alguém que contraria esse desejo, que nos impede de realizá-lo, dizemos que essa pessoa é como um “patrão” que não nos deixa sermos nós mesmos, que não permite a realização do nosso desejo. Mas o que é que nós desejamos? O que o homem deseja? O que eu desejo? O que cada um de nós deseja? Quando mais avançamos na vida, mais conseguimos obter o que desejamos e mais nos damos conta de que o nosso desejo é sempre maior. Pavese dizia: “O que o homem busca nos prazeres é um infinito, e ninguém jamais renunciaria à esperança de alcançar essa infinitude” 10. Portanto, a liberdade é relação com esse infinito que é capaz de satisfazer todo o desejo do eu.

Como esse desejo é despertado novamente? Como o Mistério se torna próximo e desperta novamente em nós esse desejo? Por meio das criaturas, por meio das coisas. Quanto mais a pessoa se aproxima da realização desse desejo, desse infinito, mais é livre: o fato cristão, a presença de Cristo, é aquilo que é capaz de realizá-lo cada vez mais; não o esgota, mas o desperta sempre de novo, sem parar. Então a pessoa compreende que, sem a fé, quando a fé não é real, o reconhecimento de algo real, não há possibilidade de liberdade. Não podemos brincar com as palavras, não podemos cair aos poucos num simples nominalismo. O cristianismo deixou de interessar as pessoas porque se transformou num nominalismo. Se a pessoa não faz a experiência de cada palavra que diz (como graças a Deus, graças a Deus pela nossa vida, como Dom Giussani nos ensinou, ensinou a nós, que o conhecemos), a fé vai-se tornando cada vez menos interessante: a vida se torna cada vez menos interessante. Ao contrário, quando a pessoa experimenta cada vez mais a realização do desejo, esse é o testemunho mais evidente da verdade da fé.
E, por isso – terceiro ponto da primeira parte, sobre a fé –, a pessoa O segue. É a obediência. Palavra maldita: de fato, inexoravelmente, a menos que obedeça à coisa mais interessante da vida, a pessoa sente essa palavra como algo que lhe arranca a vida, como alguém que lhe tira a vida. Mas Dom Giussani diz: diante do “fato excepcional d’Aquele homem que fala sempre [e age, e me olha, e me abraça, e tem essa ternura por mim] de modo correspondente ao coração como nenhum outro, a conseqüência mais imediata e lógica é segui-lo, como disse São Pedro: ‘Se formos embora, para onde iremos?’” (p. 118). Ninguém os obrigou a obedecer. Jesus os desafiou até o fim. Todos tinham ido embora. “Vós também quereis ir?” Não os poupou de nada. Que experiência de plenitude eles devem ter feito com aquele Homem, para que Pedro pudesse dizer: “Se te deixarmos, para onde iremos? Só tu tens palavras que explicam a vida” 11! Só assim a pessoa entende de verdade o que é a obediência." (Mons. Carrón)

75ª Catequese

"Eu gostaria de comentar, simplesmente, aquilo que o texto chama “o ícone mais perfeito da liberdade e da libertação da humanidade”1, ou seja, o fato de Nossa Senhora ser o ponto em que o mistério da libertação da humanidade se tornou mais sensível. Por mais que a palavra “libertação” continue a ser vaga e confusa em nosso coração, alguma coisa, por certo, ela nos diz: que a libertação é libertação – não é escravidão –, libertação da humanidade, dessa realidade que come, bebe, vela e dorme todos os dias. Em Nossa Senhora, o mistério da libertação do homem, que é Jesus, revela sua influência benéfica de uma maneira excepcional (“perfeita”, diz o texto que lemos).
Vou falar de algumas das coisas que mais me impressionaram ao longo de minha vida, antes de mais nada – “antes de mais nada” de verdade, em sentido absoluto, pois, ainda hoje, é aquilo que me deixa de queixo caído –, antes de mais nada o que diz o Salmo 8. Quando entrei no seminário, aos dez anos, uma das coisas que mais me impressionou, nos primeiros dias, quando eu lia o pequeno breviário da Santíssima Virgem, como era costume naquela época, foi ver no Salmo 8 que me diziam, como aos meus colegas, tão pequenos como eu: “Que é o homem, para dele assim vos lembrardes?” Desde aquela época, esta frase ficou gravada no meu coração: “E um filho de Adão, que venhais visitá-lo?”2 Realmente, já naquela época me pareceu evidente que o homem é como um graveto no interior de um redemoinho, uma enorme fragilidade, como um grão de poeira numa ventania, arrastado pelos ventos. E não é apenas uma fragilidade: existe também em nós uma incoerência, e, portanto, uma dissipação de forças e uma divisão de nós mesmos, a ponto de a pessoa não conseguir apanhar tudo o que ela é e fazer disso uma unidade.
O homem é realmente pobre! Quem é que, ao final de um dia, sente sua energia de homem como a de um protagonista bem-sucedido do esforço humano desse dia que passou? Ninguém. É por isso que nós nos deixamos levar tanto pela distração e pelo esquecimento: para evitar a decepção.
Mas “o Senhor olhou para a humildade [o nada] de sua serva”3. De fato, a própria Nossa Senhora, uma menina de quinze, no máximo dezessete anos: o que era ela dentro do universo, dentro da realidade? Um graveto, pura e simplesmente. Quem é que a notava, naquele lugarejo dos mais remotos do então Império Romano, do mundo conhecido de então, um lugarzinho que ainda por cima era mal-afamado? Enfim, ela era realmente um nada, como eu, em certos momentos, sou obrigado a dizer: “Eu sou mesmo um nada!”, mas sem exageros.
O Senhor se apoderou daquela coisa pequenina. Quando vocês tiverem a oportunidade de ir à Palestina, e se apoiarem à balaustrada que separa a pessoa do pequeno quarto em que Nossa Senhora viveu, e na qual há uma placa com a seguinte inscrição: “O Verbo, aqui, se fez carne”, então vocês também – é o que eu acho – vão ficar impressionados, pensando o mesmo que eu pensei: “Como assim? Daqui? Tudo aconteceu a partir daqui? Tudo, a partir daqui!” Nós ainda hoje damos todos os nossos passos com uma convicção lúcida, límpida, ou um coração ardoroso, graças a algo que aconteceu bem ali, dentro daquele “buraco”, há dois mil anos. E, se o mundo durasse duzentos milhões de anos, as pessoas ainda então teriam de dizer isso, que tudo partiu dali. É verdade, como São Paulo diria depois: “O Senhor usa as coisas frágeis e pobres deste mundo para mostrar, às poderosas, que não precisa delas”4.
Mas eu quero destacar o que esse “ícone” diz à minha vida, à nossa vida. No meu modo de ver, esta é a maior coisa que pode ser dita: o valor do instante, que é um momento de nossa vida, a qual não precisa de outras circunstâncias para se impor à atenção dos anjos e de Deus, do eterno, para ter valor, para importar de verdade. Este breve ponto de tempo e espaço, que é o momento que vivemos agora, é tomado por Deus para que seja funcional e útil ao todo, a todo o Seu desígnio. Este instante é importante para Cristo; é importante, só Deus sabe “como”, mas é importante: podemos afirmar que é tão importante quanto as maiores ações contadas nos livros, nos livros de história, quanto os fatos recordados pelos jornais. Eu não necessito de outra coisa, além daquilo que possuo agora, para ser grande diante do mistério de Deus, e, portanto, para ter valor eterno. Nossa Senhora, essa garota escolhida por Deus, me diz isso antes de mais nada.
Sendo assim, as circunstâncias – as circunstâncias da vida, justamente, por exemplo o caráter (não “por exemplo”, pois quase todas as circunstâncias estão ligadas ao caráter) ou as situações inevitáveis e as consequências daquilo que fazemos –, as circunstâncias não podem ser atravessadas ou ultrapassadas impunemente: é nelas, por meio delas, que a grandeza flui para dentro do nosso eu, da nossa pessoa, e que a nossa vida se torna útil, participa da grande utilidade da vida de Maria e, por isso – e por isso! –, da grande utilidade da vida de Cristo para a libertação do homem...." (Dom Giussani)

74ª Catequese

"Fomos escolhidos para crer. Sabemos muito bem que o gesto com o qual o Pai nos confiou a Cristo, o Batismo, o Sacramento, é um gesto misterioso que realiza a sua força de mudança num nível do qual nossa experiência não pode participar. “Quem nasce da carne é carne; quem nasce do Espírito é espírito”, dizia Jesus a Nicodemos. Por isso, é como o vento, “tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai” 6. Você pode julgá-lo pelo efeito, pelos resultados. O fato de termos sido chamados a crer nos obriga em primeiro lugar a ter uma ideia clara daquilo a que somos chamados. Se, no Batismo, a virtude da fé, a energia capaz de crer, nos é dada como potencialidade – não imediatamente visível, sensível, perceptível, mas algo que, na educação ou no desenvolvimento da vida, demonstra a sua presença (“tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai”) –; se a escolha, termos sido escolhidos para crer, no Batismo, significa que uma potencialidade nova se posiciona em nossa natureza, em nosso ser, então, à medida que a vida cresce, tornando-se consciente, essa virtude inicial se transforma em conteúdo de gesto experiencial, de gesto consciente, de experiência vivida.
A fé não é um sentimento. A fé não é um estado de espírito. A fé nem mesmo é uma atitude. A fé é uma inteligência. No Batismo, foi inserida em nosso ser uma potencialidade de inteligência nova. Eu me lembro de que quando era jovem, e estava no colegial, fazíamos sempre momentos de adoração no seminário. Uma das ideias, dos pensamentos, que mais me impressionavam era esta: “Eu venho até aqui e, para mim, na hóstia está o mistério da pessoa de Cristo, realmente, Cristo morto e ressuscitado realmente presente. Eu não sei bem o que significam, no fundo, os valores e os significados desta Presença, mas sei que está presente de verdade. Se aparecer aqui um protestante, para ele essa hóstia, na melhor das hipóteses, será um símbolo, um sinal que não contém nada, um pedacinho de pão ázimo”. Então eu ficava impressionado com o fato de ver alguma coisa que outros não podiam ver. Mas que significa esse “ver” (pois eu não via com os olhos a presença de Cristo)? Aí está a importância da palavra que usamos antes: reconhecer, reconhecer uma Presença.
Reconhecer uma Presença. Deveríamos reler, como cheguei a pensar em fazer, o início do Evangelho de São João 7, quando aqueles dois ficam tocados pela expressão profética de João Batista, que estica o braço na direção de Cristo, que estava ali, no meio dos outros. Ele o havia sentido como mais um no meio dos outros. Mas, quando Jesus estava indo embora, João Batista foi como que tomado por um raptus profético e, esticando os braços na direção d’Ele, gritou: “Eis o Cordeiro de Deus!”. E aqueles dois, atentíssimos, impressionados com o gesto de João Batista, puseram-se a seguir Jesus. E Jesus se voltou: “O que buscais?”, “Mestre, onde moras?”, “Vinde ver”. E foram e viram onde morava e ficaram lá o dia todo. “Era por volta das quatro da tarde.”
No dia seguinte, André, que era um dos dois, encontrando seu irmão, Simão, lhe disse: “Encontramos o Messias!”. Que havia acontecido? É que aqueles dois, tendo ido à casa de Jesus, ficaram impressionados com Ele – o Evangelho não especifica nada, como eu já disse tantas vezes aos mais jovens; são anotações que João evangelista escreve depois de velho, e cada frase supõe uma porção de notícias e comentários que ele não faz, como quando a gente escreve num caderninho de notas. Quem pode saber o que Jesus disse? É claro que devem ter perguntado a Ele: “Quem és tu?”, e Ele deve ter respondido: “Eu sou o Messias que está para vir”. E eis que nasceu neles, aconteceu neles, foi dado a eles, aceitaram reconhecer naquele homem que viam com seus olhos algo que não podiam ver com seus olhos: numa realidade, conteúdo da experiência humana, reconheceram a presença de algo maior, do divino – naquele homem que caminhava pelas ruas.
Leiamos um trecho do capítulo 4 do Evangelho de São Lucas: “Jesus foi à cidade de Nazaré, onde se tinha criado. Conforme seu costume, entrou na sinagoga no sábado, e levantou-se para fazer a leitura. Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, Jesus achou a passagem em que está escrito: ‘O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor’. Depois fechou o livro, entregou-o ao ajudante, e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Então começou a dizer-lhes: ‘Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir [Eu cumpro justamente essas coisas]’” 8.
Alguns reconheceram nisso o sinal do que Ele dizia ser, reconheceram n’Ele a expressão do mistério de Deus. Outros, por uma série de motivos, o principal deles um apego provinciano a sua cidadezinha, não aceitaram crer, ou seja, não aceitaram reconhecê-Lo..."(Dom Giussani)

73ª Catequese

"Ó doce amor, assassino do Amor,
peço que me mates de amor.
Amor, eis aí levado teu enamorado
a tão duro morrer;
por que o fizeste, por que não quiseste
que eu devesse perecer?
Não hás de me esquecer, não hás de querer
que eu não morra nos braços do Amor.
Se não perdoaste a quem tanto amaste,
como a mim vais perdoar?
É sinal que sou amado, se por ti eu sou fisgado
e como um peixe não posso escapar.
Não me deves perdoar, está em meu amar
que eu morra sufocado de amor.
O Amor, ei-lo que pende, a cruz o prende
e não o deixa partir.
À cruz vou correndo e a ela me prendo,
para a perda prevenir:
porque o fugir faria eu me consumir,
faria eu não ser inscrito no amor.
Ó cruz, eu estou aqui, firme junto a ti:
que eu prove morrendo dessa vida
que é teu adorno e troféu, ó morte de mel;
triste de mim a quem não foste concedida!
Ó Alma assim decidida, sequiosa da ferida,
que eu morra flagelado de amor.
À cruz vou correndo, no lenho vou lendo,
no livro que é, ensangüentado:
pois tal escritura me faz em natura
e‟m filosofia cultivado.
Ó livro sagrado, por dentro és dourado
e todo florido de amor!
Ó amor de cordeiro, maior que o mar inteiro,
quem te dizer poderia?
Quem tivesses afogado, onde embaixo, onde de lado,
como saberia?
Mas louco se fia que é reta via
seguir enlouquecido de amo." (Jacopone da Todi)

72ª Catequese

"Gentilíssima rainha, para vós eis-me voltado: meu coração lacerado,concedei remediar.
Para vós eis-me voltado, criatura desgraçada, e toda ajuda privado: a vossa me foi deixada; se me fosse recusada, fora assim me condenar.
Meu coração lacerado, Senhora, nem sei dizer, tal agora é seu estado, que começa a apodrecer: não tardeis a interceder desejando-me ajudar.
Senhora, tamanha dor é por demais perigosa; o mal cada vez maior, a natureza manhosa: que vos mostreis caridosa desejando-me curar.
Nada em troca vos darei, a tão pouco reduzido; um instrumento serei, vosso servo desvalido; senhora, o preço é cabido: tivestes de me aleitar.
Senhora, por todo o amor que me teve vosso filho, não havereis de vos opor a prestar-me vosso auxílio socorrei, perfume, lírio, vinde, e sem vos demorar”.
“Filho, pois que me buscaste, meu júbilo podes ver; minha ajuda suplicaste, hei por bem de te atender; é preciso padecer, a cura vou ministrar.
Vou conceder tua cura: primeiro faze a dieta: os sentidos enclausura, à carne ferida e infecta algum novo dano veta, a fim de não piorar.
Bebe então desse oximel: o medo que tens da morte;
menino ainda ou incréu, não se atrasa a tua sorte;
que a vaidade não te importe, junto a ti não vá reinar.
E bebe dessa poção: o medo que tens do inferno; pensa naquela prisão: para todo o sempiterno: a chaga no corpo enfermo farás então supurar.
Diante do confessor o veneno todo expurga, é seu ofício e valor, de teus pecados te purga; caso o Inimigo ressurja, não tenha o que te apontar”. (Jacopone da Todi)

71ª Catequese

Pensamentos do Cardeal Hans Urs Von Baltazar
"Por que você fez isso conosco — diz a Virgem? Eu e o seu pai te procurávamos aflitos!' Ele (o Cristo) não pode poupá-los desse sofrimento. Só nessa busca um cristão pode 'encontrar'; uma busca tão séria que é como se tudo dependesse dessa coisa que se quer encontrar. Não há outra recomendação para a vida cristã a não ser esta: só podemos encontrar Jesus no lugar onde ele se entregou a Deus. Todo cristão deve procurá-lo 'entre parentes e conhecidos', para cima e para baixo da estrada; mas no final, sempre ouviremos dele as palavras: 'Não sabíeis que eu devo tratar das coisas do meu Pai?' Muito provavelmente, como Maria e José, a princípio não entenderemos nada, e teremos de procurar ainda mais. Maria Madalena o procura no sepulcro, mas depois que Ele se deixa encontrar, ela tenta segurá-lo, e ele desaparece. Da mesma forma, ele some da vista dos discípulos de Emaús no momento em que, finalmente, eles conseguem identificá-lo. Nós só o encontramos definitivamente 'no lugar do Pai', no céu, — isto é, quando 'encontrar' já não significa delimitar Deus no nosso próprio espaço, mas significa que nós fomos 'encontrados' por Deus, que nós entramos no espaço Dele, que nós somos 'conhecidos por Deus', como diz são Paulo. 'Deus é infinito, de modo que continuaremos procurando por Ele mesmo depois de tê-lo encontrado' (Santo Agostinho)".

"Esse total dom de si, para o qual o Filho e o Espírito Santo respondem, repetirão, significa algo como uma "morte", uma primeira e radical "kenose", se se quiser: uma "super morte", que se encontra como aspecto de todo amor e que fundamentará no interior da criatura tudo aquilo que nela poderá ser uma boa morte: do esquecer-se de si mesma pela criatura amada até aquele supremo amor que "dá a vida por seus amigos" .

"A Teologia é uma ciência 'de joelhos'".

"A infância e a morte estão uma ao lado da outra: o seu mistério essencial chama-se simplesmente. entregar-se a si mesmo de forma completa. A criança manifesta-se no mundo nua no corpo e nua do espírito, enquanto inerme deve confiar-se ao mistério do Pai. Tudo aquilo que se encontra entre onascimento e a morte constitui um parêntese. A sua seriedade faz parte do jogo de Deus: todavia, no início e no final revela-se sem qualquer obstáculo o modo de jogar: o Filho do Pai, que procede eternamente dele, volta para Ele também de forma eterna, e em cada instante de tempo. E nós, crianças, somos convidados a participar precisamente neste jogo"

"Em todas as culturas não cristãs a criança tem uma importância somente marginal, porque é simplesmente um estado que precede o homem adulto. Necessita-se da encarnação de Cristo para que possamos ver não somente a importância antropológica, mas também aquela teológica e eterna do nascer, a bem-aventurança definitiva do ser a partir de um sinal que gera e dá à luz"

"Tudo o que é humano é argila nas mãos do Criador e Redentor".

"Para os cristãos não existe qualquer motivo que os leve a restringir o conceito de espiritualidade ao espaço cristão"

"Se agora passamos a ver as coisas através da espiritualidade da ação (Aristóteles), tem de dizer-se então que ela (espiritualidade da ação) é justamente importante para o Eros absoluto. Mais ainda: ela desempenha na espiritualidade humana um papel indispensável e decisivo, no sentido de que ajuda e facilita ao Eros a consecução da sua tarefa, qual é a de permanecer ativamente no espaço mundano, visto como lugar obrigatório do seu exercício, provação, educação e purificação. Este campo de atividade é para o homem necessariamente duplo: primeiro, porque é Eros entre o Eu e o Tu, não só à dimensão sexual, como também à supra-sexual, ao nível da amizade; depois, porque é também Eros como entrega à sociedade (povo, estado, humanidade) e à comum empresa de humanidade (cultura, técnica e progresso). Esta dualidade característica do Eros assenta porém na própria essência do homem: ele é efetivamente uma pessoa exclusiva, quando visto na sua relação ao corpo. Mas simultaneamente ele é também espírito e como tal aberto e obrigado a ser universal (…) Em todo o caso, é devido à estrutura do Eros, olhado como desejo de realização do Espírito, que o homem se sente obrigado a colaborar com os outros homens para a construção do mundo, sem com isto dizer que o Eros deve terminar a sua atividade no espaço humano ou mundano"

"A estrutura interior do Evangelho exige que, para imitar a Cristo, o homem tenha de arriscar tudo numa só jogada, sem se importar com mais nada. O deixar tudo é absoluto e exclui até o olhar para trás, pela última vez, exclui qualquer conciliação entre seguir Jesus e o adeus à casa paterna, entre Jesus e o dever de sepultar o próprio pai, entre Jesus e qualquer outra coisa que pudesse condicionar o caráter absoluto da entrega!"

70ª Catequese

Pensamentos de Pe. Antônio Vieira

AMOR E TEMPO
Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera !
São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas, que partem do centro para a circunferência, que quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino; porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não atira; embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda esta diferença é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor ?! O mesmo amar é causa de não amar e o ter amado muito, de amar menos."

Quereis só o que podeis, e sereis onipotentes.

Nós somos o que fazemos. O que não se faz nao existe. Portanto, só existimos quando fazemos. Nos dias que não fazemos, apenas duramos

Nem todos os anos que passam se vivem:
uma coisa é contar os anos, outra é vivê-los.

No juízo de Deus basta ser bom no último instante da vida para ser eternamente bom: No juízo dos homens basta ser mau em qualquer tempo da vida para ser eternamente mau. Se fostes bom, e sois mau, julgam-vos mal pelo que sois; se fostes mau, e sois bom, julgam-vos mau pelo que fostes; e se sois e fostes sempre bom, julgam-vos mal pelo que podeis vir a ser.

Ora vede: Definindo S. Bernardo o amor fino, diz assim: Amor non quaerit causam, nec fructum: "O amor fino não busca causa nem fruto". Se amo, porque me amam, tem o amor causa; se amo, para que me amem, tem fruto: o amor fino não há de ter por quê nem para quê. Se amo por que me amam, é obrigação, faço o que devo; se amo para que me amem, é negociação, busco o que desejo. Pois como há de amar o amor para ser fino? Amo, quia amo, como ut amem: amo, porque amo, e amo para amar. Quem ama porque o amam, é agradecido; quem ama, para que o amem, é interesseiro; quem ama, não porque o amam, nem para que o amem, esse só é fino.

A boa educação é moeda de ouro, em toda parte tem valor.

O caminho da verdade é único e simples; o da falsidade, vário e infinito.

A definição do pregador é a vida e o exemplo. Por isso Cristo no Evangelho não o comparou ao semeador, senão ao que semeia. Reparai. Não diz Cristo: Saiu a semear o semeador, senão, saiu a semear o que semeia… Entre o semeador e o que semeia há muita diferença: uma coisa é o soldado e outra cousa o que peleja, uma coisa é o governador e outra o que governa. Da mesma maneira, uma coisa é o semeador e outra o que semeia; uma coisa é o pregador e outra o que prega. O semeador e o pregador é nome; o que semeia e o que prega é ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador.

69ª Catequese

A CANÇÂO DE AMOR DE J. ALFRED PRUFROCK

"Sigamos então, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão . . .
Oh, não perguntes: "Qual?"
Sigamos a cumprir nossa visita.

No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.

A fulva neblina que roça na vidraça suas espáduas,
A fumaça amarela que na vidraça seu focinho esfrega
E cuja língua resvala nas esquinas do crepúsculo,
Pousou sobre as poças aninhadas na sarjeta,
Deixou cair sobre seu dorso a fuligem das chaminés,
Deslizou furtiva no terraço, um repentino salto alçou,
E ao perceber que era uma tenra noite de outubro,
Enrodilhou-se ao redor da casa e adormeceu.

E na verdade tempo haver á
Para que ao longo das ruas flua a parda fumaça,
Roçando suas espáduas na vidraça;
Tempo haverá, tempo haverá
Para moldar um rosto com que enfrentar
Os rostos que encontrares;
Tempo para matar e criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias em que mãos
Sobre teu prato erguem, mas depois deixam cair uma questão;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para uma centena de indecisões,
E uma centena de visões e revisões,
Antes do chá com torradas.

No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.
E na verdade tempo haverá
Para dar rédeas à imaginação. "Ousarei" E . . "Ousarei?"
Tempo para voltar e descer os degraus,
Com uma calva entreaberta em meus cabelos
(Dirão eles: "Como andam ralos seus cabelos!")
- Meu fraque, meu colarinho a empinar-me com firmeza o
queixo,
Minha soberba e modesta gravata, mas que um singelo alfinete
apruma
(Dirão eles: "Mas como estão finos seus braços e pernas! ")
- Ousarei
Perturbar o universo?
Em um minuto apenas há tempo
Para decisões e revisões que um minuto revoga.

Pois já conheci a todos, a todos conheci
- Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,
Medi minha vida em colherinhas de café;
Percebo vozes que fenecem com uma agonia de outono
Sob a música de um quarto longínquo.
Como então me atreveria?

E já conheci os olhos, a todos conheci
- Os olhos que te fixam na fórmula de uma frase;
Mas se a fórmulas me confino, gingando sobre um alfinete,
Ou se alfinetado me sinto a colear rente à parede,
Como então começaria eu a cuspir
Todo o bagaço de meus dias e caminhos?
E como iria atrever-me?

E já conheci também os braços, a todos conheci
- Alvos e desnudos braços ou de braceletes anelados
(Mas à luz de uma lâmpada, lânguidos se quedam
Com sua leve penugem castanha!)
Será o perfume de um vestido
Que me faz divagar tanto?
Braços que sobre a mesa repousam, ou num xale se enredam.
E ainda assim me atreveria?
E como o iniciaria?" ( T.S. Eliot )

68ª Catequese

“É bela a estrada para quem caminha.” Esta é a novidade introduzida na história pelo Mistério: fazer a estrada tornar-se bela. Para quem caminha. “É bela a estrada para quem ruma.” É impressionante como isso se confirma: a vida se transforma numa bela estrada, num caminho cada vez mais fascinante, numa aventura cada vez mais entusiasmante para quem caminha, e cada vez mais pesada para quem não caminha. “Ao levantar-se, pela manhã, tudo o aborrecia, a começar da luz; até o café com leite”, dizia a canção “O homem mau”, de Chieffo
(“L’uomo cattivo”. In: Il libro dei canti. Milão: Jaca Book, 1976, p. 291). Os mesmos ingredientes da vida, para um, são um aborrecimento e, para outro, uma beleza.
O que é que introduz essa beleza, o que é que leva a estrada a tornar-se bela? “Eu me admiro, vagando sob o céu, por Jesus, o Salvador, ter vindo morrer por uma pobre gente faminta como eu e você” (“I wonder as I wander out under the sky, that Jesus the Saviour should come for to die, for poor hungry people like you and like I”: “I Wonder”. In: Canti. Milão: Cooperativa Editoriale Nuovo Mondo, 2002, p. 283). Para quem está cheio dessa admiração, por tê-Lo encontrado, todas as coisas despertam a saudade d’Ele. “O campo está todo tingido de amarelo, e eu já sinto saudade de ti” (“È gialla tutta la campagna ed ho già nostalgia di te”: Chieffo, C. “La strada”. In: Canti, cit., p. 245). O que torna bela a estrada é que tudo, tudo, pelo fato de O termos encontrado, desperta em nós a saudade d’Ele - a saudade de Ti, ó Cristo -, e, quanto mais caminhamos (quando a vida nos aperta, quando o campo está mais amarelo), mais tudo é saudade.
Foi essa a novidade que Cristo, o Mistério que se fez carne, que se tornou presença para o homem, introduziu como possibilidade na situação histórica de sua época, na ruína de sua época, na situação conturbada de sua época, e é essa novidade que Ele introduz, para cada um de nós, na ruína de hoje. Como alguém observava na assembleia de ontem, quem leciona hoje nas escolas já não se encontra diante de jovens em quem é preciso ajeitar alguma coisa, corrigir alguma nuança; não, a humanidade com que nos deparamos está cada vez mais confusa, desfeita, destruída. Mas, quanto mais temos consciência dessa situação, mais nos surpreende que Alguém tenha tido piedade de pessoas como você e eu, tal como somos, com toda a nossa humanidade, antes de qualquer outra consideração. Perguntemo-nos, então: todos os sinais de humanidade que vemos ao nosso redor – o mal-estar, a insatisfação, a tristeza, o tédio, ou a ruína – são um obstáculo? O fato de já não nos depararmos com o legítimo jovem, ou com a legítima pessoa, ou de já não sermos legítimos como antes, é um obstáculo ou é, de novo, a oportunidade para nos surpreendermos com a vinda de Alguém que teve e tem piedade de nós, de mim e de você? E ainda: esses sinais de humanidade são os sintomas de uma doença ou, em vez disso, de uma desproporção estrutural, de uma espera do Único que pode pôr o eu em ordem outra vez (não no sentido de ajeitá-lo, mas de fazê-lo ressurgir dessa situação)? Chegamos a um ponto crucial, como vemos em muitos de nossos gestos, em muitas das pessoas que encontramos: não nos serve, e nem serve para a Igreja, uma redução do cristianismo a ética. Na situação em que estamos, em que nós e os outros temos de viver, como disse alguém, só pode acontecer Jesus. Em outras palavras, precisamos de algo diferente, de algo além daquilo que conseguimos fazer, diferente de todas as nossas tentativas.

O valor da situação em que nos encontramos está em tornar evidente para nós que já não nos podemos dar ao luxo de reduzir o cristianismo, a natureza do cristianismo: ou o cristianismo acontece, para nós e para os outros, ou nem ficamos de pé; e, se não ficamos de pé, a fé não é razoável, não temos razões para crer. O que surpreende é que nesta situação, como foi testemunhado na assembleia de ontem, estão aparecendo pessoas que nos últimos anos têm percorrido um caminho, pessoas que vêm trilhando uma estrada, porque Jesus acontece, aconteceu e acontece, está acontecendo... " (Mons. Carrón)

67ª Catequese

''Escreve Luigi Giussani: “A natureza de Deus aparece ao homem como dom absoluto: Deus se dá, dá a si mesmo ao homem. E Deus, o que é? A fonte do ser. Deus dá ao homem o ser: dá ao homem a existência; concede ao homem ser mais, o crescimento; concede ao homem ser completamente ele mesmo, crescer até a sua realização, isto é, doa ao homem a felicidade (feliz, ou seja, totalmente satisfeito ou perfeito; como sempre disse, em latim e em grego, perfeito e satisfeito são a mesma palavra: perfectus, isto é, perfeito ou realizado; um homem satisfeito é realizado). Deu-se a mim, dando-me o seu ser: ‘Façamos o homem a nossa imagem e semelhança’. E depois, quando o homem menos esperava, não podia sequer sonhar com isso, não esperava mais, não pensava mais n’Aquele do qual tinha recebido o ser, este reentra na vida do homem para salvá-la, dá-se novamente a si mesmo morrendo pelo homem. Dá-se totalmente, dom total de si, até: ‘Ninguém ama tanto os amigos como quem dá a vida pelos amigos’. Dom total” (É possível viver assim? Trad. Neófita Oliveira e Francesco Tremolada. São Paulo: Companhia Ilimitada: 2008, pp. 272-273).
Mas Dom Giussani não se limita ao grandioso aspecto objetivo do dom de si; acrescenta que esse dom de si é “comovido”: “O segundo fator - o primeiro é o essencial - é como um adjetivo ao lado do substantivo, é adjetivo; adjetivo quer dizer que se apoia, apoia-se no substantivo, por isso seria secundário em relação ao primeiro. E mesmo assim é o mais impressionante, e nós - eu aposto - nunca pensamos nisso e nunca pensaríamos, se Deus não nos tivesse colocado juntos. Por que Deus dedica ele mesmo a mim? Por que se doa a mim criando-me, dando-me o ser, isto é, ele mesmo (me dá ele mesmo, isto é, o ser)? Além do mais, por que se torna homem e se doa a mim para tornar-me de novo inocente [...] e morre por mim (não precisava absolutamente disso: bastava estalar os dedos e o Pai teria agido obrigatoriamente)? Por que morre por mim? Por que este dom de si mesmo até o extremo concebível, além do extremo concebível? Aqui vocês devem ir ver e decorar esta frase do profeta Jeremias, no capítulo 31, do versículo 3 em diante. Diz Deus, através da voz do profeta que em Cristo se realiza (pensem nas pessoas que estavam junto àquele homem, àquele jovem homem que fazia estas coisas): ‘Eu te amei com um amor eterno, por isso te atraí para mim (isto é, tornei-te partícipe da minha natureza), tendo piedade do teu nada’, eu sempre traduzi assim essa frase. ‘Tendo piedade do teu nada’, o que quer dizer? De que se trata? De um sentimento, de um sentimento! De um valor que é sentimento. Porque a afeição é um sentimento; estar ‘afeiçoado por’ é um sentimento, mas é um valor. Na medida em que existe razão, é valor; se não existe uma razão, nenhuma afeição é valor, pois falta metade do eu, é um eu cortado à altura do umbigo: fica o resto, a parte de baixo” (id., ibid., p. 274).
Alguém que é capaz de falar da caridade como “dom de si comovido” só pode fazê-lo porque ele mesmo se comove com a comoção de Jesus: “A caridade de Deus para com o homem é uma comoção, um dom de si que vibra, agita-se, move-se, realiza-se como emoção, na realidade de uma comoção: comove-se. Deus que se comove! ‘Que é o homem para que Tu te recordes dele?’, diz o Salmo” (id., ibid., p. 276).
Dom Giussani tem perfeita consciência da insidiosa possibilidade de que também esse aspecto seja reduzido, exatamente como – vimos antes – o Papa adverte no início da encíclica; assim, Giussani nos diz: “Mas é preciso estarmos atentos a um detalhe: esta comoção e esta emoção veiculam, carregam consigo um juízo e um palpitar do coração. É um juízo, portanto é um valor - digamos - racional, não enquanto possa ser reconduzido e reduzido a um horizonte do qual a nossa razão seja puramente capaz, mas racional no sentido de que dá a razão, carrega em si a sua razão. E se torna palpitar do coração por causa dessa razão. A emoção ou a comoção, se não tem dentro de si este juízo e este palpitar do coração, não é caridade. Qual é a razão? ‘Eu te amei com um amor eterno, por isso tornei-te parte de mim, tendo piedade do teu nada’: o palpitar do coração é a piedade do seu nada, mas a razão é que você participe do ser” (id., ibid., p. 279).
Todo o Novo Testamento afirma essa precedência absoluta do amor de Deus. João, em suas cartas, a exprime de maneira definitiva: “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de reparação pelos nossos pecados. Caríssimos, se Deus nos amou assim, nós também devemos amar-nos uns aos outros” (1Jo 4,10-11). E mais adiante: “Amamos a Deus, porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4,19).
Foi essa novidade que o Papa nos lembrou em sua primeira encíclica: “A verdadeira novidade do Novo Testamento não reside em novas ideias, mas na própria figura de Cristo, que dá carne e sangue aos conceitos – um incrível realismo” (Deus caritas est, 12)." (Mons. Carrón)

66ª Catequese

"'O poeta italiano Mario Luzi descreve de modo insuperável em que consiste esta nossa natureza: “De que é falta esta falta,/ coração,/ de que de repente te enches?/ De quê?/ Rompido o dique,/ inunda-te e te submerge/ a cheia da tua indigência.../ Vem,/ talvez venha,/ de além de ti/ um chamado/ que agora, por agonizares, não escutas./ Mas existe, a música perpétua/ preserva sua força e canto... Voltará./ Tende calma” (“Di che è mancanza...”. In: Sotto specie umana. Milão: Garzanti, 1999, p. 190).
A natureza dessa falta fica evidente quando procuramos dar-lhe uma resposta. Os prazeres, muitas vezes, constituem a primeira tentativa de preencher o vazio dessa falta. Mas uma surpresa nos espera, descrita por Cesare Pavese de modo irretocável: “O que o homem busca nos prazeres é um infinito, e ninguém jamais renunciaria à esperança de alcançar essa infinitude” (cf. O ofício de viver. Trad. Homero Freitas de Andrade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1988, p. 209).
É no amor, porém, que normalmente pensamos encontrar uma resposta à altura de nosso desejo. A razão pela qual depositamos a esperança no amor nos foi lembrada pelo Papa: “O amor entre o homem e a mulher, no qual concorrem indivisivelmente corpo e alma e se abre ao ser humano uma promessa de felicidade que parece irresistível, sobressai como arquétipo [...], de tal modo que, comparados com ele, à primeira vista todos os demais tipos de amor se ofuscam” (Deus caritas est, 2). Portanto, não há nada que nos faça compreender melhor o mistério da nossa natureza de homens que a relação entre um homem e uma mulher.
Trata-se exatamente da experiência que Giacomo Leopardi exprime de modo inesquecível num poema: “Mulher, ao meu pensar se deparou,/ Qual um raio divino a tua beleza” (“Aspásia”, vv. 33-34. In: Cantos. Trad. Mariajosé de Carvalho. São Paulo: Max Limonad, 1986). A beleza da mulher é percebida pelo poeta como um raio divino, como a presença do divino.
A beleza da mulher é um sinal que remete para além, para uma outra coisa, maior, divina, incomensurável em relação a sua natureza limitada, como descreve Romeu no drama de William Shakespeare: “Mostra-me uma mulher que é mais que bonita; sua beleza só me servirá de lembrete, um lembrete onde poderei ler a beleza daquela que é ainda mais linda que a mulher que me mostraste” (Romeu e Julieta, I, 1. Trad. Beatriz Viégas-Faria. Porto Alegre: L&PM, 1998, p. 20).
Essa é a grandeza do homem, esse “não se satisfazer de nenhuma coisa terrena, nem, por assim dizer, da Terra inteira; [...] considerar a amplitude inestimável do espaço, o número e a imponência maravilhosa dos mundos, e descobrir como tudo é mísero e pequeno diante de nossa alma; [...] imaginar infinita a quantidade de mundos, o universo infinito, e sentir que nossa alma e nosso desejo são ainda mais vastos que tal universo; [...] acusar continuamente as coisas de insuficiência e nulidade e padecer angústia e vazio e, portanto, tédio, parecem-me o maior sinal da magnitude e da nobreza da condição humana” (Leopardi, G. Pensamentos, LXVIII. Trad. Vera Horn. In: Lucchesi, M. [org.] Giacomo Leopardi. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996, p. 497).
Na experiência de que nada de sensível corresponde ao alcance infinito de nosso desejo, e de que ao mesmo tempo não podemos arrancar esse desejo de nós mesmos, é inevitável que cedo ou tarde tentemos preencher esse vazio com uma posse que só pode ser repleta de violência e pretensão. Este seria, então, o nosso destino: terminar no ceticismo, perdendo a esperança de que exista algo que possa estar à altura do nosso desejo.
Mas, quase das entranhas mais íntimas do homem, vem à tona uma hipótese desejável: “Um imprevisto/ é a única esperança. Mas me dizem/ que é uma bobagem dizê-lo” (Montale, E. “Antes de viajar”, vv. 25-28. In: Poesias. Trad. Geraldo Holanda Cavalcanti. Rio de Janeiro: Record, 1997, p. 167).
Pois bem: esse imprevisto aconteceu." (Mons. Carrón)

65ª Catequese

"Sem uma razão adequada, não há possibilidade de resistir e, portanto, de construir algo que tenha uma perspectiva de duração. Só uma coisa que é mais consistente que qualquer eventualidade pode ser fundamento adequado para construir. E que coisa é essa?
Para responder a essa pergunta, permitam-me uma confidência. Todos os anos, sou obrigado a conversar com pessoas que, depois de anos de noviciado, pedem sua admissão definitiva à associação Memores Domini. Nessa ocasião, eu sempre me pergunto: entre os tantos detalhes de que a vida é feita, o que é que eu devo levar em consideração para ajudá-las a entender se é razoável ou não dar este passo tão decisivo em sua vida? Já que eu não sei como o Mistério vai conduzi-las até o destino, por quais situações ou circunstâncias o Senhor as fará passar, a única garantia que permitirá que enfrentem qualquer eventualidade é que cada uma delas tenha feito uma experiência que, aconteça o que acontecer, não lhes possa ser tirada. Enfim, uma experiência que possa sustentar a vida inteira. E eu me lembro sempre de uma frase de Santo Tomás, que muitos de vocês já conhecem, que expressa sinteticamente o ponto central da questão: “A vida do homem consiste no afeto que principalmente o sustenta e no qual encontra a sua maior satisfação” (Summa Thologiae, II-II, q. 179, a. 1). Só um afeto no qual a pessoa tenha encontrado sua maior satisfação pode sustentar a vida inteira.
É possível que exista um afeto assim? Será que existe um afeto que corresponda de tal modo à nossa expectativa, a ponto de poder-se tornar um fundamento capaz de resistir em qualquer luta? Ou, expresso com outras palavras, mais específicas para a ocasião de hoje: existe um afeto mais satisfatório que qualquer individualismo?
Se o homem é exigência de totalidade, somente algo total pode corresponder a essa exigência. Um único homem em toda a história teve essa pretensão: Jesus de Nazaré, o Mistério que se fez carne. Só quem teve a graça de encontrar um dom como este pode entender o que é a satisfação que permite sustentar a vida inteira. Só é possível não ceder ao individualismo se recebemos um bem incomensurável como esse.
Este é o realismo cristão: “De fato, se Deus não se tivesse tornado homem, ninguém poderia orientar a própria vida segundo essa gratuidade, nenhum de nós teria ousado olhar para a própria vida segundo essa generosidade” (Giussani, L. O eu, o poder, as obras, p. 131; trad. Neófita Oliveira).
Com isso, conseguimos entender muito bem o início da recente encíclica do Papa: “A caridade na verdade, que Jesus Cristo testemunhou com sua vida terrena e sobretudo com sua morte e sua ressurreição, é a principal força propulsora para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira” (Bento XVI, Caritas in veritate, 1).
Por quê? Porque “da caridade de Deus tudo provém, por ela tudo toma forma, para ela tudo tende. A caridade é o dom maior que Deus concedeu aos homens; é sua promessa e nossa esperança” (id., ibid., 2).
Essa caridade ilimitada que Deus tem conosco, mais satisfatória que qualquer hipótese de individualismo, é o que nos torna, por nossa vez, sujeitos de caridade: “Destinatários do amor de Deus, os homens são constituídos sujeitos de caridade, chamados a fazer-se eles mesmos instrumentos da graça, para difundir a caridade de Deus e tecer redes de caridade” (id., ibid., 5).
Da superabundância da caridade, da plenitude do amor de que fomos objeto, pode nascer a gratuidade. Não de uma falta, mas de uma superabundância!
"É a verdade originária do amor de Deus — graça a nós concedida — que abre a nossa vida ao dom e torna possível esperar por um ‘desenvolvimento do homem todo e de todos os homens’, por uma passagem ‘de condições menos humanas a condições mais humanas’, que são obtidos quando vencemos as dificuldades inevitavelmente encontradas ao longo do caminho” (id., ibid., 8).
Sem isso, não podemos continuar a construir por muito tempo. Dom Giussani, há vinte e cinco anos, dizia a um grupo de universitários que “nós não podemos continuar a ser tão ativos e a produzir o que produzimos nestes anos ferozes sem a comunhão, mas a comunhão, sem Cristo, não se mantém de pé; a razão da comunhão é Cristo, e só o pensamento de Cristo, a relação com Cristo gera a condição pela qual posso permanecer na companhia sem me sentir alienado, ou seja, o amor a mim mesmo, o amor aos outros como reflexo do amor a mim mesmo. Assim, digo que não é possível que continuemos a amar a nós mesmos se Cristo não for uma presença, como uma mãe é uma presença para seu filho [...]; se Cristo não é presença, se não venceu a morte, ou seja, se não ressuscitou, e, por conseguinte, se não é o dominador da história – motivo pelo qual o tempo não o detém, o espaço e o tempo não o delimitam –, se não tem a história em suas mãos, se não é Senhor do tempo e do espaço, se não é Senhor da história, se não é meu como foi de João há dois mil anos, se Tu não és presença real para mim, ó Cristo, eu volto a ser nada." (Mons Carrón)

64ª Catequese

"Jesus está ali, falando à porta de uma casa, e todo mundo obstrui a passagem para ouvi-lo falar1. Ao meio-dia deveria almoçar, mas ele – como dizem os Evangelhos – se esquecia até de comer: era como se, diante das pessoas que sofriam, ele não conseguisse ir embora.
E chegam dois homens com um paralítico em uma pequena maca – portanto, ele era menor do que a sua idade, encolhido – e dizem: “Com licença! Com licença! Com licença!”, como as ambulâncias que buzinam quando o trânsito está engarrafado, por isso não conseguem passar e continuam a buzinar, mas não conseguem passar de jeito nenhum, até que chegam os guardas (quando aparecem!). Então, eles pediam: “Com licença! Com licença! Com licença!” (não tinham buzina!) e as pessoas não abrem espaço (como os automóveis em Via Dante: não se dão por vencidos!); todas as pessoas ficam ali paradas para escutá-lo. Então aqueles dois, espertos, dão a volta na casa. Como as casas eram de um andar só – o térreo – e normalmente o teto era de barro e palha, alçam-no ao teto, tiram uma parte do teto e o descem, atrás de Cristo. Cristo se volta, o fixa e diz: “Confia, os teus pecados estão perdoados”. Com muita agudez, com a sua agudez, Jesus intui a depressão e a fraqueza moral que normalmente acompanha uma longa enfermidade (paralítico há 20 anos), e esta é uma observação psicologicamente muito justa. Depois o cura, como desafio aos fariseus que estavam ali em frente, escandalizados por ele ter dito: “Confia, os teus pecados estão perdoados”. Mas imaginem aquele homem que se levanta da cama...
Imaginem aquele paralítico que se encontra livre, em pé, que está ali no meio das pessoas, como todos os outros; todos que o olhavam com uma curiosidade um pouco espantada pelo fato estranho, sobre-humano (estranho, pelo menos), que havia acontecido entre eles. Depois, aquele homem o seguirá, entenderá muitas coisas que ele dizia; seja como for, a principal podia ser compreendida por todos: disse que era o Messias. Esta verdade de Cristo chegou até ele ligada ao fato de que ele foi lá na maca e saiu daquela casa livre.
O seu relacionamento com Deus, o modo como ele rezou naquela noite, o modo como depois foi ao templo todos os dias, o sentimento da vida que tinha quando via o sol se pôr ou o sol nascer, e quando então ia trabalhar todas as manhãs, com a alma cheia de gratidão e com a alma plena de misterioso temor, de temor e tremor para com este mistério de Deus que tinha chegado a ele naquele homem que o havia curado; enfim, o sentimento por Jesus, o modo como dizia que Jesus era o Messias – e também o disse aos outros, porque depois foi atrás dele, tornou-se um discípulo seu –, o modo como ia com os outros às cidadezinhas para anunciar que o Reino de Deus já estava entre eles (pois Jesus estava lá), o modo como agia, o modo como pensava no seu passado (em todo o marasmo pelo qual se deixou levar: as baixezas, o desencorajar-se, as blasfêmias), o modo como havia tratado os parentes, o modo como os tratava agora, eram todas ações que partiam de uma consciência de si, de um senso da sua pessoa, cuja fisionomia era plasmada, nascia da lembrança de como Jesus o havia agarrado, de como Jesus o havia investido, de como Jesus o havia tratado, de como ele havia conhecido Jesus.
Madalena está lá na calçada, curiosa (como todas as mulheres, mas ela em particular), olhando a multidão atrás daquele Jesus que dizia ser o Messias (matariam-no alguns meses depois); e Jesus, passando por ali por um instante, sem nem mesmo parar, a olha: de agora em diante, ela não olhará mais a si mesma, não verá mais a si mesma e não verá mais os homens, as pessoas, a sua casa, Jerusalém, o mundo, a chuva e o sol, não poderá mais olhar todas essas coisas a não ser dentro do olhar daqueles olhos. Quando se olhava no espelho, a sua fisionomia era dominada, determinada por aqueles olhos. Aqueles olhos estavam ali dentro – entendem? O seu rosto era plasmado por aqueles olhos.
As modalidades com as quais o Acontecimento alcançou o paralítico e alcançou Madalena são diferentes. É o mesmo Jesus, é o mesmo objeto em que acreditar, mas é diferente a fisionomia com que ele se apresentou; e esta fisionomia permanece pela vida inteira.
Por toda a sua vida o paralítico se olhou determinado por aquele “Te perdôo”, que também o havia feito ressurgir fisicamente.
Sua vida inteira – nos detalhes e no conjunto –, Madalena a olhou dentro daquele olhar ao qual não se seguiu uma só palavra, a não ser alguns dias depois, quando ele, que dizia ser profeta, havia sido convidado para comer pelos chefes dos fariseus, que queriam apanhá-lo em falta; ela entrou na sala de jantar sem pedir permissão a ninguém, rapidinho, e se jogou aos seus pés, lavando-os com seu pranto e enxugando-lhes com seus cabelos, para o escândalo de todos (“Se ele fosse um profeta, saberia que tipo de mulher é essa que o trata assim!”). Mas a vida inteira – nos detalhes e no conjunto –, ela não podia não vê-la, não senti-la, não vivê-la, senão dentro daquele olhar. (Dom Giussani)

63ª Catequese

Esta catequese estava sendo feita e no momento em que eu escrevia: "Diante dEle nós começamos a enxergar as coisas e as pessoas de um modo diferente. Desde o pássaro que corta o céu no seu voo rasante, até o espetáculo do sol que nasce fugaz todos os dias." Depois disso apertei a tecla errada e apaguei sem querer toda a mensagem que estava no seu fim.
As vezes me pergunto, por que isso acontece? No momento em que as catequeses estão tomando o meu formato, alguma coisa de errado acontece. Parei para refletir e percebei que se não acontece do meu jeito, mesmo assim, Deus fala como quer. Quando pensei em escrever essas catequeses tinha o desejo genuíno de ajudar, mas a cada dia que passa sei que Deus puxa o cabresto e diz: " Não é como você quer, mas sim como eu quero!" Se dependesse de mim as catequeses teriam o meu molde, com as minhas palavras "inteligentes e acertadas", mas elas não são minhas: pertencem a um Outro.
Minha cara, esta é a 63ª Catequese escrita, não foi como eu pensei, mas mesmo assim decidi colocá-la aqui. Deus sabe o que faz! Caminhemos com Ele, Ele sabe do precisamos. Tenhamos a coragem de abrir mão de nós mesmos, deixando que Ele faça o que precisa ser feito. A dor de cabeça acontece quando queremos fazer do nosso jeito. Complicamos as coisas quando queremos fazer 'assim', mas Deus quer 'assado'. Ele é simples, nós é que complicamos as coisas. Descompliquemos então, a vida na sua simplicidade é bem mais sadia e melhor!

62ª Catequese

"João era a voz, mas o Senhor, no princípio, era a Palavra (Jo 1,1). João era a voz passageira, Cristo, a Palavra eterna desde o princípio.
Suprimi a palavra, o que se torna a voz? Esvaziada de sentido, é apenas um ruído. A voz sem palavras ressoa ao ouvido, mas não alimenta o coração.
Entretanto, mesmo quando se trata de alimentar nossos corações, vejamos a ordem das coisas. Se penso no que vou dizer, a palavra já está em meu coração. Se quero, porém, falar contigo, procuro o modo de fazer chegar ao teu coração o que já está no meu.
Procurando então como fazer chegar a ti e penetrar em teu coração o que já está no meu, recorro à voz e por ela falo contigo. O som da voz te faz entender a palavra; e quando te fez entendê-la, esse som desaparece, mas a palavra que ele te transmitiu permanece em teu coração, sem haver deixado o meu.
Não te parece que esse som, depois de haver transmitido minha palavra, está dizendo: É necessário que ele cresça e eu diminua? (Jo 3,30). A voz ressoou, cumprindo sua função, e desapareceu, como se dissesse: Esta é a minha alegria, e ela é completa (Jo 3,29). Guardemos a palavra; não percamos a palavra concebida em nosso íntimo.
Queres ver como a voz passa e a palavra divina permanece? Que foi feito do batismo de João? Cumpriu sua missão e desapareceu; agora é o batismo de Cristo que está em vigor. Todos cremos em Cristo e esperamos dele a salvação: foi o que a voz anunciou.
Justamente porque é difícil não confundir a voz com a palavra, julgaram que João era o Cristo. Confundiram a voz com a palavra. Mas a voz reconheceu o que era para não prejudicar a palavra. Eu não sou o Cristo (Jo 1,20), disse João, nem Elias nem o Profeta. Perguntaram-lhe então: Quem és tu? Eu sou, respondeu ele, a voz que grita no deserto: “Aplainai o caminho do SenhorÓ (Jo 1,19.23). É a voz do que grita no deserto, do que rompe o silêncio. Aplainai o caminho do Senhor, como se dissesse: “Sou a voz que se faz ouvir apenas para levar o Senhor aos vossos corações. Mas ele não se dignará vir aonde o quero levar, se não preparardes o caminho”.
O que significa: Aplainai o caminho, senão: Orai como se deve orar? O que significa ainda: Aplainai o caminho, senão: Tende pensamentos humildes? Imitai o exemplo de João. Julgam que é o Cristo e ele diz não ser aquele que julgam; não se aproveita do erro alheio para uma afirmação pessoal. Se tivesse dito: “Eu sou o Cristo”, facilmente teriam acreditado nele, pois já era considerado como tal antes que o dissesse. Mas não disse; pelo contrário, reconheceu o que era, disse o que não era, foi humilde. Viu de onde lhe vinha a salvação; compreendeu que era uma lâmpada e temeu que o vento do orgulho pudesse apagá-la." (Santo Agostinho)

61ª Catequese

Caríssimos irmãos, nosso Senhor Jesus Cristo que desde a eternidade é o Criador de todas as coisas nascendo hoje de sua mãe, tornou-se nosso Salvador. Por sua vontade, nasceu hoje para nós no tempo, a fim de nos conduzir à eternidade do Pai. Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus. Para que o homem comesse o pão dos anjos, o Senhor dos anjos se fez homem.
Hoje se realizou a profecia que diz: Céus, deixai cair orvalho das alturas, e que as nuvens façam chover o justo; abra-se a terra e germine o Salvador (cf. Is 45,8). O Criador tornou-se criatura para encontrar o que estava perdido. Por isso, o homem confessa nos salmos: Antes de ser humilhado, eu pequei (cf. Sl 118,67). O homem pecou e tornou-se culpado; Deus nasceu como homem para libertar o culpado. O homem caiu, mas Deus desceu. O homem caiu miseravelmente, Deus desceu misericordiosamente; o homem caiu por orgulho, Deus desceu com a sua graça.
Que maravilhas, que prodígios, meus irmãos! As leis da natureza são alteradas no homem. Deus nasce, uma virgem concebe e unicamente a palavra de Deus fecunda a que não se uniu a homem algum. É ao mesmo tempo mãe e virgem; mãe que conserva a integridade virginal, virgem que gera um filho; permanece intacta, porém não infecunda. Só nasceu sem pecado aquele que não foi gerado por homem nem pela concupiscência da carne, mas pela obediência do Espírito.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

60° Catequese

"Ó Divindade eterna, ó eterna Trindade, que pela união da natureza divina tanto fizeste valer o sangue de teu Filho unigênito! Tu, Trindade eterna, és como um mar profundo, onde quanto mais procuro mais encontro; e quanto mais encontro, mais cresce a sede de te procurar. Tu sacias a alma, mas de um modo insaciável; porque, saciando-se no teu abismo, a alma permanece sempre sedenta e faminta de ti, ó Trindade eterna, cobiçando e desejando ver-te à luz de tua luz.

Provei e vi em tua luz com a luz da inteligência, o teu insondável abismo, ó Trindade eterna, e a beleza de tua criatura. Por isso, vendo-me em ti, vi que sou imagem tua por aquela inteligência que me é dada como participação do teu poder, ó Pai eterno, e também da tua sabedoria, que é apropriada ao teu Filho unigênito. E o Espírito Santo, que procede de ti e de teu Filho, deu-me a vontade que me torna capaz de amar-te.

Pois tu, ó Trindade eterna, és criador e eu criatura; e conheci – porque me fizeste compreender quando de novo me criaste no sangue de teu Filho – conheci que estás enamorado pela beleza de tua criatura.

Ó abismo, ó Trindade eterna, ó Divindade, ó mar profundo! Que mais poderias dar-me do que a ti mesmo? Tu és um fogo que arde sempre e não se consome. Tu és que consomes por teu calor todo o amor profundo da alma. Tu és de novo o fogo que faz desaparecer toda frieza e iluminas as mentes com tua luz. Com esta luz me fizeste conhecer a verdade.

Espelhando-me nesta luz, conheço-te como Sumo Bem, o Bem que está acima de todo bem, o Bem feliz, o Bem incompreensível, o Bem inestimável, a Beleza que ultrapassa toda beleza, a Sabedoria superior a toda sabedoria. Porque tu és a própria Sabedoria, tu,o pão dos anjos, que no fogo da caridade te deste aos homens.

Tu és a veste que cobre minha nudez; alimentas nossa fome com a tua doçura, porque és doce sem amargura alguma. Ó Trindade eterna!" (Santa Catarina de Sena, virgem)

59° Catequese

"Instigado a voltar a mim mesmo, entrei em meu íntimo, sob tua guia e o consegui, porque tu te fizeste meu auxílio (cf. Sl 29,11). Entrei e com certo olhar da alma, acima do olhar comum da alma, acima de minha mente, vi a luz imutável. Não era como a luz terena e evidente para todo ser humano. Diria muito pouco se afirmasse que era apenas uma luz muito, muito mais brilhante do que a comum, ou tão intensa que penetrava todas as coisas. Não era assim, mas outra coisa, inteiramente diferente de tudo isto. Também não estava acima de minha mente como óleo sobre a água nem como o céu sobre a terra, mas mais alta, porque ela me fez, e eu, mais baixo, porque feito por ela. Quem conhece a verdade, conhece esta luz.


Ó eterna verdade e verdadeira caridade e cara eternidade! Tu és o meu Deus, por ti suspiro dia e noite. Desde que te conheci, tu me elevaste para ver que quem eu via, era, e eu, que via, ainda não era. E reverberaste sobre a mesquinhez de minha pessoa, irradiando sobre mim com toda a força. E eu tremia de amor e de horror. Vi-me longe de ti, no país da dessemelhança, como que ouvindo tua voz lá do alto: “Eu sou o alimento dos grandes. Cresce e me comerás. Não me mudarás em ti como o alimento de teu corpo, mas tu te mudarás em mim”.

E eu procurava o meio de obter forças, para tornar-me idôneo a te degustar e não o encontrava até que abracei o mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus (1Tm 2,5), que é Deus acima de tudo, bendito pelos séculos (Rm 9,5). Ele me chamava e dizia: Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,6). E o alimento que eu não era capaz de tomar se uniu à minha carne, pois o Verbo se fez carne (Jo 1,14), para dar à nossa infância o leite de tua sabedoria, pela qual tudo criaste.

Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro e eu, fora. E aí te procurava e lançava-me nada belo ante a beleza que tu criaste. Estavas comigo e eu não contigo. Seguravam-me longe de ti as coisas que não existiriam, se não existissem em ti.
Chamaste, clamaste e rompeste minha surdez, brilhaste, resplandeceste e afugentaste minha cegueira. Exalaste perfume e respirei. Agora anelo por ti. Provei-te, e tenho fome e sede. Tocaste-me e ardi por tua paz." (Santo Agostinho)

58° Catequese

"O Verbo de Deus nasceu segundo a carne uma vez por todas. Mas pela sua bondade e
condescendência para com os homens, quer nascer sempre espiritualmente naqueles que o
desejam. Quer tornar-se criança, que vai se formando neles com o crescimento das
virtudes; e manifesta-se na medida em que pode compreendê-lo quem o recebe. Se não se
comunica com o esplendor de sua grandeza, não é porque não deseje, mas porque conhece
as limitações das faculdades receptivas de cada um. Assim, o Verbo de Deus revela-se
sempre a nós do modo que nos convém, e contudo ninguém pode conhecê-lo perfeitamente,
por causa da imensidade de seu mistério.

Por isso, o Apóstolo de Deus, considerando com sabedoria a força deste mistério, diz:
Jesus Cristo é o mesmo, ontem e hoje e por toda a eternidade (Hb 13,8). Ele contemplava esse mistério sempre novo, que nunca envelhece para a compreensão da inteligência humana.
Nasce o Cristo, Deus que se faz homem, assumindo um corpo dotado de uma alma racional, ele por quem tudo que existe saiu do nada. No Oriente brilha uma estrela visível em pleno dia e conduz os magos ao lugar onde está deitado o Verbo feito homem, para demonstrar misticamente que o Verbo, contido na lei e nos profetas, supera o conhecimento sensível e conduz as nações à plena luz do conhecimento.
Com efeito, a palavra da lei e dos profetas, entendida à luz da fé, é semelhante a uma estrela que conduz ao conhecimento do Verbo encarnado todos os que foram chamados
pelo poder da graça, segundo o desígnio de Deus.
Deus se fez homem perfeito, sem que nada lhe faltasse do que é próprio da natureza
humana, à exceção do pecado (o qual, aliás, não era inerente à natureza humana). Ele
queria assim apresentar sua carne como alimento para provocar o dragão insaciável que
queria devorá-la.

Mas ao arrebatar esta carne que seria um veneno para ele, o dragão foi destruído pelo
poder da Divindade nela oculta. Para a natureza humana, porém, esta carne seria o
remédio que lhe restituiria a graça original, pelo mesmo poder da Divindade.

Assim como o inimigo, tendo inoculado o seu veneno na árvore da ciência, havia corrompido a natureza do homem que provara do seu fruto, também ele, ao pretender devorar a carne do Senhor, foi enganado e destruído pela força da Divindade que nele habitava.
O grande mistério da encarnação de Deus permanecerá sempre um mistério! Como pode o
Verbo que está em pessoa e essencialmente na carne existir ao mesmo tempo em pessoa e
essencialmente junto do Pai? Como pode o Verbo, totalmente Deus por natureza, fazer-se totalmente homem por natureza, sem detrimento algum das duas naturezas, nem da divina, na qual é Deus nem da humana, na qual se fez homem?
Só a fé pode alcançar estes mistérios, ela que é precisamente a substância e o fundamento das realidades que ultrapassam toda inteligência e compreensão." (São Máximo, o confessor, abade)

57° Catequese

"Veio o Senhor, mestre da caridade, cheio de caridade, cumprir prontamente a palavra sobre a terra (cf. Rm 9,28 Vulg.), como dele foi anunciado, e sintetizou a lei e os profetas nos dois preceitos da caridade.

Recordai comigo, irmãos, quais são esses dois preceitos. É preciso que os conheçais
profundamente, de tal modo que não vos venham à mente só quando vo-los lembramos, mas
os conserveis sempre bem gravados em vossos corações. Recordai-vps em todo momento de
que devemos amar a Deus e ao próximo: a Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa
alma, e de todo o nosso entendimento; e ao próximo como a nós mesmos (cf. Mt 22,37-39).

Esses dois preceitos devem ser sempre lembrados, meditados , conservados na memória,
praticados, cumpridos. O amor de Deus ocupa o primeiro lugar na ordem dos preceitos, mas o amor do próximo ocupa o primeiro lugar na ordem da execução. Pois, quem te deu esse duplo preceito do amor não podia ordenar-te amar primeiro ao próximo e depois a Deus, mas primeiramente a Deus e depois ao próximo.

Entretanto, tu que ainda não vês a Deus, merecerás vê-lo se amas o próximo; amando-o
purificas teu olhar para veres a Deus, como afirma expressamente São João: Quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê (1Jo 4,20).

Ouviste o mandamento: Ama a Deus. Se me disseres: "Mostra-me a quem devo amar", que
responderei senão o que disse o mesmo São João: A Deus, ninguém jamais viu? (Jo 1,18). E para pensares que está absolutamente fora de teu alcance ver a Deus, o mencionado apóstolo afirma: Deus é amor: quem permanece no amor, permanece com Deus (1Jo 4,16). Ama, pois, o teu próximo e procura no teu íntimo a origem deste amor; lá verás a Deus o quanto agora te é possível.

Começa, portanto, a amar o próximo. Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa o pobre sem abrigo; quando encontrares um nu, cobre-o, e não dês as costas ao teu semelhante (cf. Is 58,7).

Procedendo assim, o que alcançarás? Então brilhará a tua luz como a aurora (Is 58,8). Tua luz é o teu Deus; ele é a aurora que despontará sobre ti depois da noite desta vida. Essa luz não conhece princípio nem ocaso, porque existe eternamente.

Amando o próximo e cuidando dele, vais percorrendo o teu caminho. E para onde caminhas senão para o Senhor Deus, para Aquele que devemos amar com todo o nosso coração, com toda a nossa alma, de toda a nossa mente? É certo que ainda não chegamos até junto do Senhor; mas já temos conosco o próximo. Ajuda, portanto, aquele que tens ao lado, enquanto caminhas neste mundo, e chegarás até junto daquele com quem desejas permanecer para sempre." (Santo Agostinho)

56° Catequese

"Apareceu a bondade e a humanidade de Deus, nosso Salvador (cf. Tt 3,4). Demos graças a Deus que nos dá tão abundante consolação neste exílio, nesta peregrinação, nesta vida tão miserável.
Antes de aparecer a sua humanidade, a sua bondade também se encontrava oculta; e, no entanto, esta já existia, porque a misericórdia do Senhor é eterna. Mas como poderíamos conhecer tão grande misericórdia? Estava prometida, mas não era experimentada e por isso muitos não acreditavam nela. Muitas vezes e de muitos modos, Deus falou por meio dos profetas (cf. Hb 1,1). E dizia: Eu tenho pensamentos de paz e não de aflição (cf. Jr 29,11). E o que respondia o homem, que experimentava a aflição e desconhecia a paz? Até quando direis paz, paz e não há paz? Por esse motivo, os mensageiros da paz choravam amargamente (cf. Is 33,7), dizendo: Senhor, quem acreditou no que ouvimos? (cf. Is 53,1). Agora, porém, os homens podem acreditar ao menos no que vêem com seus olhos, pois os testemunhos de Deus são verdadeiros (cf. Sl 92,5); e para se tornar visível, mesmo àqueles que têm a vista enfraquecida, armou uma tenda para o sol (Sl 18,6).
Agora, portanto, não se trata de uma paz prometida, mas enviada; não adiada, mas concedida; não profetizada, mas presente. Deus Pai a enviou à terra, por assim dizer, como um saco pleno de sua misericórdia. Um saco que devia romper-se na paixão para derramar o preço de nosso resgate nele escondido; um saco, sim, que embora pequeno estava repleto. Pois, um menino nos foi dado (cf. Is 9,5), mas nele habita toda a plenitude da divindade (Cl 2,9). Quando chegou a plenitude dos tempos, veio também a plenitude da divindade.
Veio na carne para se revelar aos que eram de carne, de modo que, ao aparecer sua humanidade, sua bondade fosse reconhecida. Com efeito, depois que Deus manifestou sua humanidade, sua bondade já não podia ficar oculta. Como poderia expressar melhor sua bondade senão assumindo minha carne? Foi precisamente a minha carne que ele assumiu, e não a de Adão, tal como era antes do pecado.
Poderá haver prova mais eloqüente de sua misericórdia do que assumir nossa miséria? Poderá haver maior prova de amor do que o Verbo de Deus se tornar como a erva do campo por nossa causa? Senhor, que é o homem, para dele assim vos lembrardes e o tratardes com tanto carinho? (Sl 8,5). Por isso, compreenda o homem até que ponto Deus cuida dele; reconheça bem o que Deus pensa e sente a seu respeito. Não perguntes, ó homem, por que sofres, mas por que ele sofreu por ti. Vendo tudo o que fez em teu favor, considera o quanto ele te estima, e assim compreenderás a sua bondade através da sua humanidade. Quanto menor se tornou em sua humanidade, tanto maior se revelou em sua bondade; quanto mais se humilhou por mim, tanto mais digno é agora do meu amor. Diz o Apóstolo: Apareceu a bondade e a humanidade de Deus, nosso Salvador. Na verdade, como é grande e manifesta a bondade de Deus! E dá-nos uma grande prova de bondade Aquele que quis associar à humanidade o nome de Deus." (São Bernardo de Claraval)

55° Catequese

"Para onde iremos? Só tu tens palavras que explicam a vida!" (Jo 6, 60) O que Pedro queria dizer com isso, meus amigos? Pedro solta o grito potente que estava preso em sua garganta, e potencializa o pensamento transformado em constatação: " Para onde iremos? Só tu explicas como de fato é a vida! Para onde iremos se toda a nossa simpatia, comoção e coração estão em ti? Como fugir desta Compania? Só Tu tens palavras que nos tira da imanência e nos transporta para o transcendente de Deus! Não há outro alguém que nos faz sentir mais humanos como Tu, ó Nazareno!"
Meus caros, longe dEle tudo é vazio! Como seguir em frente se não temos quem aponte o caminho? Ele sabe o caminho! Sigamos, Ele é o Caminho e a Palavra que explica o por que da vida! Sem Ele o estranho, o desconhecido e a falta de atenção tomam conta de nós. Os afeicionados, aquele grupinho dos 12 não entendiam nada do que Ele falava, mas não conseguiam fugir dEle. Mesmo sem entender eles percebiam que existia verdade nas palavras que saiam da boca daquele homem. A vida era vivida com intensidade, a mesma intensidade e vibração da criança que aprende a andar, em vez de andar se poe a correr, porque se lança num modo totalmente novo, experimenta a grandeza de ser livre por inteira. Diante de um Homem daquele como não se indagar: Ele existe mesmo? Nunca vi ninguém assim. Por isso os discípulos não o deixavam, se eles fossem embora perderiam o encanto e a beleza de participar daquela compania. Não se atreviam em se separar dEle, seus olhos, seu ser inteiro estava ali, todos eles mendicantes da atenção dEle.
E nós, minha cara, já experimentamos alguma vez essa intensidade de vida? Alguma vez descobrimos o segredo de viver bem? Alguma vez já encontramos alguém que nos ensine palavras de verdade como aquEle Homem? Os santos, depois dEle, nos ajudam a compreender que isto é possível. É impossível não olhar de um modo diferente a vida de santos como São Francisco, São João Maria Vianney, Santa Tereza, Santa Catarina, São Pio.... Nesses homens e mulheres a vida pulsa bombeada pelo canaleta do amor de Deus. Todos eles experimentaram essa intensidade. Não entendiam nada, as vezes até se preguntavam o por que das coisas, mas não se atreviam a deixar a Compania do senhor, não conseguiam, Cristo já havia penetrado até a médula dos ossos deles.
Quem encontra-se com ele não é o mesmo, e sem querer ser repetitivo mas já sendo, a vida diante do Senhor é mesmo diferente. Pelo seu olhar a vida fica mais clara, tudo é visto pelo ângulo do amor, tudo é esperenciado pela ótica fecunda da liberdade que Ele nos deu. Somos felizes por termos um Deus que nos explica o que fazer e como fazer, diante dEle é só responder, sim ou não. Quem responde "não" perde tudo. Quem diz "sim", mesmo sem saber o que implicará essa resposta, ganha a vida de verdade.
Peçamos a Ele essa vida, gritemos, imploremos, sacudamos o pó de nossos pés, que a poeira levante-se e suba até Ele a nossa voz e a nossa disposição de querer ser dEle de corpo e alma!

54° Catequese

"Virgem Mãe, filha do teu Filho
a mais humilde e sublime dentre todas as criaturas,
termo pré-fixado de eterno desígnio

O Hino à Virgem, de Dante, coincide com a exaltação do ser, com a derradeira tensão por parte da consciência do homem que está na presença da “realidade” - que não nasce por si mesma, mas que é feita por um focus inefável: na verdade, a realidade é criada.
É o drama supremo - que o Ser peça para ser reconhecido pelo homem. Este é o drama da liberdade que o eu deve viver: a adesão ao fato de que o eu deve ser continuamente exaltado por um renascimento do real, por uma re-criação que comoveu-se ante o Infinito, na figura de Nossa Senhora. A figura de Nossa Senhora é o constituir-se da personalidade cristã.
O princípio fundamental do cristianismo é a liberdade, que é a única tradução da dimensão infinita do homem. Tal dimensão infinita descobre-se numa finitude que o homem experimenta.
A liberdade do homem é a salvação do homem. Ora, a salvação é o Mistério de Deus que se comunica ao homem. Nossa Senhora respeitou totalmente a liberdade de Deus, salvou essa liberdade; obedeceu a Deus porque respeitou a divina liberdade, não lhe opôs um método seu. Aqui está a primeira revelação de Deus.

O Ser é co-estensivo ao comunicar-se total de si mesmo, o Ser chega a tocar tudo o que o circunda e para o qual foi feito, e é precisamente no seu comunicar-se total que isto (a co-extensão) acontece e se realiza, alcança-te. Por isso, a virgindade - “Virgem Mãe” - coincide com a natureza do ser real na fórmula da totalidade da sua revelação. A virgindade é o ser real. “Virgem Mãe”: virgem porque eterna. “Em teu ventre reacendeu-se o amor,/ por cujo calor na eterna paz...”. Por cujo calor... mas quem é o poeta que usa um termo tão concreto? É da virgindade eterna que surge a virgindade da maternidade. Assim, “Virgem Mãe” indica a modalidade eterna com que Deus comunica a Sua natureza. Virgem vem antes de mãe: virgem é segundo a natureza do Ser, o esplendor do Ser; mãe é o instrumento usado pelo Ser para se comunicar.
Virgem: não há nada de mais peremptória e definitivamente suscitado por Deus como criador de tudo do que a virgindade - sobre isso seria belo voltar a ler as passagens do Êxodo, do Deuteronômio, do Eclesiástico, de Isaías. A primeira quota do valor de um eu, da criação, de toda a coisa criada, o absoluto é a virgindade. A primeira característica em que o Ser se comunica é a virgindade. É o conceito de pureza absoluta, cuja conseqüência absolutamente vertiginosa é a maternidade. A virgindade é materna, é mãe da criação. A virgindade é maternidade. Está aqui a consistência expressa e realizada do Ser: a perfeição que tem como seu ponto luminoso a virgindade, o calor da virgindade, a riqueza da maternidade.
Nossa Senhora é o método que nos é necessário para uma familiaridade com Cristo. Ela é o instrumento que Deus usou para entrar no coração do homem. E Dante é o maior poeta da nossa estirpe, faz uma teologia de Maria como nenhum outro fez. Ou se sente o primeiro terceto de Dante crescer no coração ou ele torna-se uma pedra que esmaga. O Mistério do qual procede, no qual se mantém e no qual acabará a criação é Nossa Senhora. “Virgem Mãe, filha do teu Filho”. Esse verso indica o significado total da criação enquanto aceitável pelo homem, isto é, oferecido ao homem. Assim, no seio de Maria veio à tona o Espírito criador, a evidência do Espírito. (Dom Giussani)

53° Catequese

"O Senhor falou a Moisés, dizendo: “Fala a Aarão e a seus filhos: Ao abençoar os filhos de Israel, dizei-lhes: ‘O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face, e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!’
Assim invocarão o meu nome sobre os filhos de Israel, e eu os abençoarei”. (Nu 6, 22-27)
Maria, Mãe de Deus, no qual celebramos hoje seu dia, pode ouvir essas palavras e elevar um cântico de louvor a Deus. Ele olhou para ela e a abençoe de Sião. Aquela que foi toda revestida pela graça de Deus, é chamada de Mãe de Deus. Senhora da Paz, Rainha do céu.
Ao olharmos para ela no novo ano que se inicia, peçamos por intercessão dela, que o Senhor nos abençoe de Sião todos os dias de nossa vida. Que este ano seja marcado pela Presença de Cristo em nossas vidas. Que Ele tome as rédias de nossa história e nos ajude a caminhar. Com Ele caminhamos sempre para a felicidade. Maria, Mãe de Deus, Mãe da Igreja, olhai por nós e velai por nós, ajudai-nos a sermos fiéis a teu Filho. Ajudai-nos, ó Mãe Santíssima, a sermos protagonistas de uma nova sociedade, uma sociedade que tem como diferencial o amor.