sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Parabéns Eminência!




Dom Eugênio de Araújo Sales (Fazenda Catuana, Acari, 8 de novembro de 1920) é um cardeal brasileiro e arcebispo emérito do Rio de Janeiro.

Dom Eugênio é filho de Celso Dantas Sales e Josefa de Araújo Sales (Téca) e irmão de Dom Heitor de Araújo Sales, Arcebispo Emérito de Natal, Rio Grande do Norte. Foi batizado na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Guia, em Acari, no dia 28 de novembro de 1920. De família muito católica, era bisneto de Cândida Mercês da Conceição, uma das fundadoras do Apostolado da Oração na cidade de Acari.


Realizou seus primeiros estudos em Natal, inicialmente em uma escolar particular, depois no Colégio Marista e finalmente ingressou, em 1931, no Seminário Menor. Realizou seus estudos de Filosofia e Teologia no Seminário da Prainha, em Fortaleza, Ceará, no período de 1931 a 1943.


Sucessão
Na Arquidiocese de São Salvador da Bahia, Dom Eugênio de Araújo Sales foi o 23º Arcebispo, sucedendo a Dom Augusto Álvaro da Silva e teve como sucessor Dom Avelar Brandão Vilela.

Na Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, Dom Eugênio foi o 5º arcebispo, tendo sucedido a Dom Jaime de Barros Câmara e como sucessor Dom Eusébio Oscar Scheid.


Ordenações episcopais

Foi o principal sagrante dos seguintes bispos
Dom Nivaldo Monte
Dom Valfredo Bernardo Tepe, O.F.M.
Dom Miguel Fenelon Câmara Filho
Dom Silvério Jarbas Paulo de Albuquerque, O.F.M.
Dom Alair Vilar Fernandes de Melo
Dom Eduardo Koaik
Dom Karl Josef Romer
Dom Carlos Alberto Etchandy Gimeno Navarro
Dom Celso José Pinto da Silva
Dom Heitor de Araújo Sales
Dom Romeu Brigenti
Dom Affonso Felippe Gregory
Dom João d’Avila Moreira Lima
Dom José Palmeira Lessa
Dom José Carlos de Lima Vaz, S.J.
Dom Narbal da Costa Stencel
Dom João Maria Messi, O.S.M.
Dom Elias James Manning, O.F.M. Conv.
Dom Rafael Llano Cifuentes
Dom Augusto José Zini Filho
Dom Filippo Santoro
Dom José Ubiratan Lopes, O.F.M. Cap.

Foi co-celebrante da sagração episcopal de
Dom Manuel Tavares de Araújo
Dom Epaminondas José de Araújo
Dom Giovanni Battista Morandini
Dom Edson de Castro Homem
Dom Antônio Augusto Dias Duarte
Dom Edney Gouvêa Mattoso

Ordenações presbiterais
Pelos registros oficiais, Dom Eugênio ordenou 216 sacerdotes, dentre os quais:

Dom Edson de Castro Homem
Dom Edney Gouvêa Mattoso

Citação
"O egoísmo dominante nos indivíduos e países impede uma justa distribuição dos recursos naturais. Cada um pensa em si e em sua nação, sem atender ao bem comum. Aqui se coloca o empobrecimento do Terceiro Mundo, em benefício dos mais ricos. E, no Brasil, a concentração de riquezas é crescente. Busca-se, em vez de justiça social, a diminuição dos que deveriam igualmente participar desses dons que Deus criou para todos os seus filhos". (Jornal do Brasil, 13/08/1994).

Colunas permanentes nos jornais
Jornal do Brasil
O Globo
O Dia
Jornal do Commercio

Livros

A Voz do Pastor
Viver a Fé em um Mundo a Construir


Foi ordenado sacerdote pelas mãos de Dom Marcolino Esmeraldo de Sousa Dantas, bispo de Natal, no dia 21 de novembro de 1943, na mesma igreja onde recebera o batismo.


Episcopado

No dia 1 de junho de 1954, aos 33 anos, foi nomeado bispo auxiliar de Natal pelo Papa Pio XII, recebendo a sé titular de Thibica.

Foi ordenado bispo no dia 15 de agosto de 1954, pelas mãos de Dom José de Medeiros Delgado, Dom Eliseu Simões Mendes e de José Adelino Dantas.

Em 1962 foi designado administrador apostólico da Arquidiocese de Natal, função que exerceu até 1965, quando da nomeação de Dom Nivaldo Monte.

Em 1964 foi nomeado administrador apostólico da Arquidiocese de São Salvador da Bahia, função na qual permaneceu até 29 de outubro de 1968, quando da sua nomeação a Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, pelo Papa Paulo VI.


Cardinalato
No consistório do dia 28 de abril de 1969, presidido pelo Papa Paulo VI, Dom Eugênio de Araújo Sales foi nomeado cardeal, do título de São Gregório VII, do qual tomou posse solenemente no dia 30 de abril do mesmo ano. Neste consistório foi também nomeado cardeal o brasileiro Dom Vicente Scherer.

No dia 13 de março de 1971, o Papa Paulo VI o nomeou Arcebispo do Rio de Janeiro, função que exerceu até 25 de julho de 2001, quando da sua renúncia, e que foi aceita pelo Papa João Paulo II.


Lema
Impendam et Superimpendar

Alusão à frase de São Paulo (2 Cor. 12, 15):

Ego autem libentissime impendam et superimpendar ipse pro animabus vestris. Si plus vos diligo, minus diligar?
Quanto a mim, de bom grado despenderei, e me despenderei todo inteiro, em vosso favor. Será que, dedicando-vos mais amor, serei, por isto, menos amado?

Atividade e contribuições
Quando era arcebispo de Salvador, foi um dos criadores das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) e da Campanha da Fraternidade. Enquanto esteve à frente do Arcebispado do Rio, ordenou 169 sacerdotes, um número recorde, frente às outras Arquidioceses e dioceses brasileiras.

Foi um dos primeiros bispos brasileiros a implantar o Diaconato Permanente, ministério clerical que pode ser concedido a homens casados, segundo a restauração do Concílio Vaticano II. Foi membro de onze congregações no Vaticano.

Sua vida apostólica foi marcada pela defesa da ortodoxia católica. Combateu com firmeza a esquerda católica, a Teologia da Libertação e o engajamento político das Comunidades Eclesiais de Base.

Por outro lado, assumiu a defesa de refugiados políticos dos regimes militares latino-americanos entre 1976 e 1982. Montou uma rede de apoio a estes refugiados juntamente com a Cáritas brasileira e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, que consistia em abrigá-los, inicialmente na Sede Episcopal (Palácio São Joaquim) e posteriormente em apartamentos alugados para tal finalidade. Além disto, financiou a estadia destes refugiados até conseguir-lhes asilo político em países europeus. Foram asiladas mais de quatro mil pessoas. Usou sua autoridade para este fim, inclusive enfrentando os militares por diversas vezes. Ao assumir tal tarefa, telefonou para o General Sílvio Frota e disse-lhe: "Frota, se você receber comunicação de que comunistas estão abrigados no Palácio São Joaquim, de que eu estou protegendo comunistas, saiba que é verdade, eu sou o responsável. Ponto final, ponto final". Também atuou junto aos militares na libertação de diversos acusados de subversão.[1]

Também recusou-se a celebrar missa pelo aniversário do Ato Institucional Número Cinco, pedida pelo General Abdon Sena, de Salvador.

Foi um dos brasileiros que mais ocupou cargos no Vaticano: foram 11 cargos nas congregações, conselhos e comissões.

Sua ação social abrangeu a criação de centros de atendimento a portadores de AIDS, a pastoral carcerária, um núcleo de formação de líderes na residência do Sumaré.

Sua renúncia foi solicitada em 1997, quando já completara 75 anos. Mas por indulto especial do Papa João Paulo II, seu amigo pessoal, foi autorizado a permanecer à frente da arquidiocese até completar 80 anos. Sua aposentadoria foi finalmente aceita no dia 25 de julho de 2001, quando Dom Eusébio Oscar Scheid, então Arcebispo de Florianópolis, foi nomeado o seu sucessor. Dom Eugênio permaneceu de 25 de julho até 22 de setembro de 2001 como administrador apostólico do Rio, nomeado por João Paulo II.

Em 22 de setembro, na presença de grande número de bispos e sacerdotes, entregou o governo da arquidiocese, através da passagem do báculo (cajado simbólico do pastoreio do povo de Deus, utilizado pelos bispos) a Dom Eusébio, até então não revestido da dignidade cardinalícia, que só viria a obter em 2003. Ainda permanece residindo no Rio de Janeiro, no Palácio Apostólico do Sumaré, e permanece em funções no Vaticano. Possui os títulos de Cardeal Protopresbítero (o mais antigo em idade e/ou nomeação entre os Cardeais Presbíteros) e Arcebispo Emérito (aposentado) da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro.

No dia 8 de Novembro de 2010, Dom Eugênio completará 90 anos de vida. Rezamos para que Deus na sua infinita bondade recompense todo o trabalho realizado por este grande bispo da Igreja de Cristo.

Parabéns Eminência!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

INFIRMA NOSTRI CORPORIS, VIRTUTE FIRMANS PERPETI!




Accénde lumen sénsibus; (Acendei a luz nos sentidos;)

Infunde amórem córdibus,(insuflai o amor nos corações,)

Infírma nostri córporis (amparai na constante virtude)

Virtúte firmans pérpeti. (a nossa carne enfraquecida.)


Este antiquissimo hino da Igreja, no qual envocamos o Divino Espirito Santo, é um cântico de louvor que traz consigo uma gama de realidades profundas sobre a ação e o modo como o Espirito de Deus, agiu, age e sempre agirá na sua Igreja. Queremos refletir sobre a quarta parte do hino, que em particular, atriu minha atenção e fez com que desta parte, surgisse o nome do blog que podemos acessar todos os dias.
Inciemos portanto.
Accénde lumen sénsibus; (Acendei a luz nos sentidos;)
Iniciamos esta parte com um pedido profundo. Pedimos que Deus acenda em nós a sua luz nos nossos sentidos. É um pedido, sem dúvidas nenhuma, existencial. Nossos sentidos afetados pela pecado original, passou a ser desordenado. Queremos tudo, e no fim nunca estamos satisfeitos com o que temos. Procuramos a felicidade em realidades que não contém e nem são a felicidade. Nossos sentidos embaçados pelas trevas do nosso pecado procura a luz. Que luz? A luz que vem do alto. Cristo é essa luz que tanto prcuramos no decorrer de nossa vida. A simbologia do Rito da luz no Sabado Santo, sempre foi algo que fala por si só. O Círio Pascal, figura do Cristo luz do mundo, vencedor das trevas do pecado e da morte, entra na igreja e na Vigilia das vigilias revela o sentido dessa luz: Ele é a luz verdadeira, luz que dissipa nossos erros e como diz o cãntico, acende em nós a sua luz. Lux que redime o homem. Luz que vence as paixões. Luz que coloca no lugar aquilo que estava perdido.
Pedimos a luz, mas não somente a luz, pedimos outra coisa mais forte, pedimos que Ele insufle em nossos corações o seu amor. " Á nós descei divina luz, a nós descei divina luz, em nossas almas acendei o amor o amor de Jesus." Esse pedido ecoa na igreja em todos os cantos, em todas as orações e no coração do homem sedento de Deus. Derrama sobre nós o teu amor! Mas qual será esse amor? Ora, o amor que é capaz de se entregar até a morte. Então pedimos a morte. Pedimos ao Senhor que nos ensine a morrer a cada dia, pois o que é amar a não ser isso? Ter essa capacidade de se entregar e morrer a cada dia pelo amor dispensado. Amar é morrer. Morrer para si e viver para os outros. São Bernardo certa vez disse: " Amo porque amo. Amo para amar." O obejto do seu amor é o proprio ato de amar, pois nele esta contido a verdade, e se este amor é verdadeiro muda tudo, muda a vida e muda todas as coisas ao meu redor. O ato de amar faz-me melhor e faz com que os outros também sejam melhores. Porque amo? Porque antes eu fui amado por Alguém, que é a fonte do amor. Sem Ele não teria condições para fazer tal coisa extraordinária. Pedimos o amor e Ele nos concede a graça desejada. Apresenta-nos a cruz, fonte e origem do amor Trinitário, que é canal de graça infinita e que nos mostra o caminho do amor: serei crucificado mas amarei até o fim.
Chegamos então ao final das frases contidas nesta quarta parte do Veni Creator:
"Infírma nostri córporis (amparai na constante virtude)
Virtúte firmans pérpeti." (a nossa carne enfraquecida.)
Amparai, socorrei e sustentai em vossa graça a nossa carne enfraquecida. O que somos nós diante da grandeza de Deus? O que somos nós pobres e mendicantes do amor de Deus? O que somos nós? O salmista assim se expressa: " O que é o homem, para que dele te lembres E o filho do homem, que o visites? (Sl 8, 4)Esta é a pergunta pontual que fazemos. O que somos nós? Somos fracos, débeis, miseráveis, pecadores... Somos sim tudo isso, mas existe um acontecimento assustador nisso tudo: Deus nos fez dignos do seu amor. Aquilo que não poderíamos fazer por nós mesmos, Ele fez por nós. Percorreu o caminho que nos separava dEle; a distãncia parecia infinita, mas Ele quebrou a barreira do tempo e do espaço por nós. Aniquilou-se e nos fez dignos do seu amor. Verdade suprema de amor que preenche o nosso coração de uma gratidão imensa. Ele nos amou, Ele nos sustenta com a sua graça e nos dá a capacidade de sermos melhores. O pecado ainda existe, mas o desejo de ser melhor engole o desejo de auto-destruição. O cuidado de Deus por nós é a prova, o fato, o acontecimento
que modifica o nosso modo de julgar as coisas, e é a resposta para a nossas mais profundas inquietações. Perguntamos nós: Isto corresponde ao desejo do meu coração? Um pai de família no alvorecer do dia deve se fazer esta pergunta, e a reposta honesta sempre será: "Sim, sair de casa nesta hora para trabalhar corresponde ao desejo do meu coração, pois este ato revela o meu amor pela minha família que depende do meu trabalho para se sustentar." Assim como um jovem que estuda e procura ser um profissional futuramente, deve se fazer esta mesma pergunta: Corresponde, sair de casa cedo, enfrentar a condução, o trânsito das grandes cidades, ou a escacez das pequenas cidades, a fadiga do dia e o stresse do dia? Corresponde ao desejo da minha felicidade que passa por essas coisas? Se corresponde, ele acorda cedo e suporta tudo com amor, pois sabe que é deste modo que ele se preparará para um dia ser aquilo que deseja. A correspondência ao amor de Deus se mostra nas pequenas coisas que fazemos. Se somos fiéis no pouco, seremos um dia fiéis no muito. Se soubermos sofrer as augurias da vida, no final de tudo, seremos recompensados por nosso esforço. Corresponde aquilo que é verdadeiro? Porque então não aderir? Se aderimos a isto somos felizes.
Na sua graça infinita, Deus olha para nós e nos dá a oportunidade de sermos felizes. Ele nos sustenta, nos fortaleçe e nos conduz com sua mão poderosa; nossos pecados não maculam o seu amor, pelo contário, Ele com sua misericordia que não tem fim, nos oferece o seu amor e atende o nosso pedido de amparar-nos na constante virtude enquanto vivermos.
Que o Senhor nos ampare e nos permita sermos fiéis ao seu plano de amor. Seja a Virgem Santa, modelo e ícone do discípulo que é fiel ao seu Mestre em todos os momentos da vida.

Sem. Rafael Viana Lima
II ano de Filosofia do Seminário Arquidiocesano de São José - Rio de Janeiro

Apontamentos da Escola de Comunidade com Julián Carrón, Milão, 6 de outubro de 2010. " Viver é a memória de Mim"




Carrón: Retomemos nosso caminho depois do verão. Quero apenas dizer uma palavra para
começar. A proposta de fazer esta Escola de Comunidade conectados através de vídeo é apenas para
oferecer uma oportunidade para tentarmos aprender um método de trabalho sobre o texto e sobre a
vida que nos ajude a julgar a experiência que fazemos, porque – como dissemos tantas vezes – não
há experiência sem juízo, e sem experiência nós não aprendemos com as coisas que acontecem, elas
permanecem vãs para a vida, são inúteis, não deixam vestígio. Muitas coisas nos acontecem, mas
não deixam vestígio porque – como Dom Giussani sempre nos ensinou – o eu cresce apenas
vivendo uma experiência, a experiência não é apenas experimentar uma reação, um sentimento,
uma descoberta, mas é um juízo. E isto é decisivo para entender o texto, porque não é possível
entender o texto, como muitas vezes pensamos, apenas associando as palavras; entendemos o texto
comparando-o com uma experiência, porque o texto que Dom Gius propõe é a comunicação de uma
experiência, e só pode entendê-la quem a faz. E é isso que deve vir à tona no trabalho que fazemos
juntos na Escola de Comunidade: não reflexões abstratas, porque todos nós podemos fazer muitas
delas e não servem para nada, mas testemunhos reais daquilo que aprendemos com a experiência
que nos ajudam a entender o texto e daquilo que aprendemos com o texto que nos ajudam a
entender a experiência. Por isso, repito, para que ajudemos a todos, para não perdermos tempo
(porque o tempo é curto), precisamos ser objetivos. Peço a todos que vão se colocar que façam
colocações breves, peço que sejam objetivos – como eu disse – não se alonguem muito, digam o
essencial de modo tal que possam ser compreendidos por todos. Se alguém tiver vontade de se
colocar, prepare-se bem, porque isso faz parte do trabalho: entender a experiência que fazemos e
saber exprimi-la de maneira adequada faz parte deste trabalho. Não venhamos para cá para divagar
sem começo nem fim, porque isso quer dizer que não fizemos o trabalho, que estamos
improvisando. E isso não nos ajuda. Então, vamos começar.

Colocação: Neste verão, fiquei provocada por duas palavras que você disse, que estão no início e
no fim do livreto que estamos trabalhando, e pela proximidade que elas têm: conversão e
contemporaneidade. Parece-me que uma indica a natureza da outra, porque a conversão é um
esforço moralista se não for ceder a uma presença que é contemporânea a mim, a uma presença
agora; e, por outro lado, falamos da contemporaneidade de Cristo apenas de maneira emocional
se não determina em nós um desejo de mudança. Por isso, percebi que eu não posso mais falar de
conversão sem falar de contemporaneidade e vice-versa, tanto que me provocou muito o título do
livreto “Viver é a memória de Mim”, porque muitas vezes falamos de viver a memória como se
fosse uma premissa e não como se fosse tudo. Essa é a primeira coisa. A segunda é que hoje eu me
dou conta de que Cristo é contemporâneo a mim porque eu me torno contemporânea à realidade
que vivo, estou finalmente presente no presente, senão eu me defendo da realidade usando tudo que
sei e que faço, de modo que o Movimento, em vez de se tornar uma introdução à realidade, torna-se
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a minha defesa mais sutil. A última coisa, é que quando você nos falou, no Dia de Início de Ano,
sobre a contemporaneidade de Cristo e do Papa, eu fiquei bastante perplexa, porque quando digo
contemporaneidade de Cristo não consigo separar esta frase de você. Na verdade, talvez essa
tenha sido, para mim, uma das descobertas mais impressionantes dos últimos tempos, quer dizer,
que não é possível a minha conversão sem que eu ceda a Cristo contemporâneo. Cristo
contemporâneo tem a ver com você, senão, eu não me importaria nem mesmo com o Papa, não
teria ido a Roma em maio e muito menos teria entendido aquilo que o Papa disse na Inglaterra. E,
sob este aspecto, preciso entender bem como você percebe esse seguir a você.

Carrón: Deixo a questão em aberto, porque me parece que isso que você disse é fundamental para
todos. Faço uma pergunta: de que maneira mudou em vocês o modo de perceber e ouvir a palavra
conversão? Porque aí está tudo. Se vocês continuarem a ouvir a palavra conversão como algo que
no fundo lhes tira alguma coisa, então estão se defendendo, estamos nos defendendo da palavra
conversão. Significa que ela está desligada da contemporaneidade de Cristo, e este é o sinal. Dou
alguns exemplos. Zaqueu se converteu? Sim, e como! Mas defendeu-se de Jesus? Não, o recebeu
muito contente. João e André, quando estavam ali ouvindo-O falar, se defenderam de Jesus? Não,
seguiram-no. Converteram-se? Sim. Quer dizer que quando nós separamos essas duas palavras –
conversão e contemporaneidade – é inexorável que a conversão seja reduzida a moralismo e a
contemporaneidade a emotividade, sem que provoquem em nós um desejo de mudança. Então, a
questão é partir dessa realidade, dessa experiência que acontece conosco quando nos surpreendemos
com o desejo de mudar, porque a conversão é exatamente isto: nasce em mim o desejo de mudar
para que eu não perca aquilo que está na minha frente. Por que João e André o seguiram? Para
ganhar uma vida eterna alternativa à real ou para não perder, durante a vida, aquela Presença tão
fascinante que tinham diante deles? Isso é decisivo para entender o que é a contemporaneidade de
Cristo: Cristo torna verdadeiramente atraente aquela realidade à qual Ele me introduz, porque me
revela o significado da vida. Seguir-me, se não é isso, se não é para seguir aquilo que eu tento
seguir, aquilo que tento verificar na realidade, que significado teria? O que quer dizer me seguir? Eu
aprendi a seguir com Dom Giussani, porque para ele o cristianismo é algo que está acontecendo
agora, e isso torna o cristianismo apaixonante. Mas para que o cristianismo possa ser concebido
assim e para sair do moralismo não basta dizer que eu desejo não ser moralista e quero seguir a
contemporaneidade de Cristo: é preciso reconhecê-Lo, é preciso não reduzir a realidade, é preciso
ver que em muitos gestos que fazemos – é para isso que serve o Dia de Início de Ano –
frequentemente nós não vemos isso. Então, para nós, muitas vezes a contemporaneidade de Cristo é
abstrata e a conversão é moralista, porque nós não O vemos na realidade (não é que não falemos
sobre os fatos, mas paramos ali, no contragolpe emocional). Por isso perguntamo-nos quantas vezes
falar sobre esses fatos desperta em nós um desejo de mudança, porque este é o teste: que eu não
quero perder aquilo ali. Sobre isso, eu gostaria de dizer algo a vocês, por exemplo, em relação ao
Papa, porque o que me interessou da visita do Papa à Inglaterra foi vê-lo em ação: era impossível
que aquela figura emergisse apenas da energia humana, era o testemunho manifesto da presença de
Cristo. Não é preciso ter visões. Jesus – eu sempre digo isso – não curou todos os doentes da
Palestina de seu tempo, mas mostrou, por meio de alguns milagres, que Ele existe, que não estamos
sozinhos com a nossa impotência e com o nosso nada, que a potência de Deus torna-se presente em
fatos e acontecimentos. A viagem do Papa é um desses fatos, e isso ficou evidente inclusive para os
adversários.

Colocação: Gostaria de fazer uma pergunta sobre o poder dos sem-poder. Normalmente, eu não
seria considerada uma pessoa muito boa, na verdade, até má, porque sou impaciente, pouco
misericordiosa, muito egocêntrica, estou sempre me lamentando, portanto, não seria uma grande
pessoa, mas neste lugar e através dos meus amigos conheci o método e as razões para não ser mais
assim, para mudar. De repente, me vi portadora de uma humanidade inesperada que não nasce das
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minhas capacidades. E quero fazer alguns exemplos rápidos que aconteceram no meu trabalho. O
lema do meu chefe é “divide et impera”. Eu tento testemunhar que, para mim, trabalhar em equipe
é outra coisa; meus colegas têm dificuldade em me cumprimentar de manhã quando chegam e são
sempre muito precisos e corretivos na revelação de alguns erros que eu cometo. Tento estar o mais
aberta possível ao diálogo e realmente me agradaria muito colaborar com eles. Há dois anos, uma
cigana de uns dezesseis anos, grávida, começou a aparecer no corredor em frente ao ambulatório
que trabalho. Meus colegas e meu chefe olhavam para ela com muita hostilidade e a expulsavam
quando se aproximava da sala de espera para pegar um café na máquina. Muitas vezes eu parava
ao seu lado no corredor e perguntava sobre seu bebê, levei-lhe algumas roupas de meus filhos e,
alguns dias antes de voltar para sua cidade, ela me disse: “Você é muito boa comigo, gostaria de
ter uma mãe como você”. Também me aconteceu, uma vez, começar a rezar o Angelus enquanto
retirava do envelope o resultado da tomografia de um paciente para saber como tinha respondido à
quimioterapia e, enquanto eu fazia isso, ele me disse: “Sabe, doutora, mesmo que o resultado não
seja bom, estou tranquilo porque sei que a senhora encontrará uma maneira de me curar”. Poderia
dar muitos outros exemplos. Isso não é “farinha do meu saco”, mas acontece, e eu reconheço a
presença e a obra de Jesus neste “a mais” de humanidade e suplico a Sua presença em cada
momento do meu dia. Isso eu acho que entendi. A questão, então, é esta: a minha fé tem ainda uma
possibilidade de sucesso com um chefe que não usa a sua autoridade, com colegas que me atacam,
com todas essas coisas? Na página 21, está escrito: “Neste clima, podemos nos contentar com o
testemunho ou ainda podemos nos lançar em batalhas?”. Eu gostaria de ser ajudada sobre essa
questão.

Carrón: Segundo a sua experiência, qual é a resposta a essa questão?

Colocação: Parece que eu entendi que...

Carrón: Você entendeu porque nos disse! De onde você tirou essa humanidade inesperada?
Aconteceu em você?

Colocação: Sim.

Carrón: Então a fé é capaz de acontecer? Sim. Porque senão, você não teria nos dito aquilo que
disse. Mas aconteceu segundo um desígnio que não era o seu. O mesmo vai acontecer com seus
colegas, pacientes, etc., porque acontece segundo um desígnio que não é nosso. Qual é o método de
Deus? Ele dá a graça a alguns para chegar a todos, quer dizer, não a dá a todos ao mesmo tempo. Há
a contemporaneidade de Cristo – como dizíamos antes –, mas como Cristo não se impõe, mas se
propõe, depende da liberdade do outro. Como eu disse na homilia do Dia de Início de Ano, não
basta o testemunho, é preciso a abertura do coração do outro porque se Cristo aceitou submeter-se a
ele, curvando-se sobre o nosso nada, imaginem se nós podemos pretender fazer diferente! E Ele faz
assim porque essa é a grandeza do homem, essa é a grandeza dos seus colegas e, paradoxalmente, a
sua. Que essa é a grandeza, quer dizer que o homem não é um mecanismo que você pode dominar, é
algo mais, tem um mistério dentro: o mistério da liberdade. O que nos cabe? O que isso tem a ver
com você e com a sua conversão? Jesus chama você, chama cada um de nós neste salão a dizer:
“Como eu posso contribuir? Que tipo de relacionamento, que tipo de atenção, que tipo de
testemunho devo realizar para poder facilitar, para não obscurecer o rosto de Cristo, como disse o
Papa na Inglaterra, para tornar transparente Cristo através da minha humanidade?”. Essa é a nossa
conversão. Para ajudá-la a entender como muitas vezes nós reduzimos a contemporaneidade, leio a
carta que uma pessoa me escreveu: “Estava no casamento de um grande amigo como padrinho,
sentado ao lado de outros padrinhos perto dos noivos. Durante a cerimônia, observei um fotógrafo
que passava perto dos noivos, dos padrinhos e do altar. Não sei como é aí no norte a vida de um
fotógrafo, mas na Sicília os casamentos são sua principal fonte de renda. Eu o observava e pensava
comigo mesmo que, para ele, quanto mais casamentos fossem realizados em uma semana, em um
mês, em um ano, tanto melhor. Mais casamentos significa mais dinheiro. É estranha a vida! Para
aquele ali, ir à missa, mesmo que todos os dias, seguramente não é um desprazer, passa toda a vida
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andando perto de Jesus que lhe dá o sustento. Mas não O ganha. Ganha tudo, menos Ele. Não falo
especificamente do fotógrafo, mas o uso como metáfora da minha experiência, e de muitos outros,
acho: uma vida inteira com Jesus sem ganhá-Lo. Sempre é para ganhar alguma coisa do mundo e a
noite da Escola de Comunidade também poderia ser uma boa maneira de não ficar sozinho.
Podemos viver toda a vida com Jesus como um fotógrafo que o usa para ganhar um pedaço do
mundo ou do próprio mundo, mas sem ganhá-Lo. Ganhar o intelecto, o poder, a estima de si, o
dinheiro, o sentido de pertencer e de unidade, e a companhia para não estar só, mas não Ele. Sou
médico e tenho Jesus diante de mim todos os dias, mas eu frequentemente também corro o risco de
ter a síndrome do fotógrafo: Jesus como fonte de renda. Todos os dias estou com os doentes, que
me rendem um salário, poder, possibilidade de carreira, visibilidade social, satisfação intelectual e
amigos de classe, todos os dias estou com Jesus. Mas corro o risco de não ganhá-Lo”.

Colocação: Começo com algo que me tocou muito no Dia de Início de Ano: “A Sua presença é
tornada visível, tangível e experimentável pelo fato de que muda a vida das pessoas que estão na
comunidade, na companhia. Por isso, a agudeza com que é percebido o testemunho de um, de
outro, mesmo daqueles que não são chefes –, a perspicácia com que é percebido o testemunho,
mesmo furtivo, mesmo extremamente discreto, presente nas pessoas da comunidade é o mais
grandioso sinal da honestidade de que falávamos antes. Esta é a tentativa extrema de evitar a
conversão: negar a existência dos fatos e dos acontecimentos”. Quinze anos atrás, morreu o
marido de uma amiga minha. Ela tinha trinta e três anos, estava grávida do terceiro filho e tinha
dois filhos pequenos. Eu estava ali por acaso, porque morava na casa vizinha e a conhecia desde
que éramos crianças. Eles estavam diante dos meus olhos e eu fiquei ali, observando, durante os
dias, as semanas, os meses, os anos, ela e seus filhos ficarem em pé nas circunstâncias que
aconteciam em suas vidas, vendo a humanidade deles tornar-se grande, não perfeita, porque são
pobres cristos, mas grande: abraçados à cruz de Cristo. E o que aconteceu, e que me dei conta, é
que a certo ponto aquele mesmo Cristo se virou para mim e disse: “E você, me ama?”, quer dizer,
inacreditavelmente, o acontecimento que revolucionou a vida deles, que a marcou, a transformou e
a tornou dolorosamente grande investiu a minha humanidade, mudou a minha vida, a minha vida e
de meu marido, tranformando-a (no sentido de uma fonte de experiência de bem inexaurível e
inesperada). Sou casada há dezoito anos e não tenho filhos. Casei-me porque queria ter filhos e
pedi por eles. Eu pedi, rezei, pedi para rezarem por isso, fui às peregrinações e fiz um monte de
gente ir às peregrinações, todas as mães do mundo rezaram o terço por mim. Sou médica e quando
me perguntavam “Quanto lhe devo?”, eu respondia “Uma Ave Maria”. Mas os filhos não vieram e
isso nunca gerou em mim nenhum rancor, nenhuma dor, nenhuma raiva, nunca colocou em dúvida
o fato de que minha oração tivesse sido e continuasse sendo ouvida. Disso eu tenho certeza, porque
há uma ternura de Deus pela minha humanidade, e eu a vi em ato exatamente no relacionamento
com os três filhos de minha amiga viúva: a ternura que eles sentiam por mim e por meu marido,
maior ainda do que o afeto profundíssimo que nós tínhamos pela vida deles, fez com que eu e meu
marido experimentássemos uma maternidade e uma paternidade não pedida dessa maneira, porém
verdadeira.

Carrón: Obrigado.

Colocação: Quando saiu o seu artigo sobre a pedofilia, pela primeira vez não fiquei com raiva por
não ter conseguido chegar sozinho a um juízo justo (porque eu sempre dizia: “Fiz Escola de
Comunidade, fiz tudo, mas...”). Pelo contrário, senti-me infinitamente grato pelo fato de ter-me
sido dado alguém que me tomava pela mão e me levava a reconhecê-Lo, fazia-me reconhecer Jesus
presente, também nessa circunstância. Depois, ficou mais claro no verão, quando você começou a
falar sobre conversão, que a conversão coincide com a liberdade, porque quando alguém é
corrigido e é levado pela mão a reconhecer Jesus faz exatamente a experiência da liberdade. Eu
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nunca poderia pensar que a conversão coincidisse com a liberdade, quer dizer, com o estar dentro
das circunstâncias com Ele.

Carrón: Essa é uma maneira de dizer que aquilo que prevalece é a gratidão porque Jesus existe,
porque existe um Outro. O problema não é mais se estive à altura ou não, o que assume o controle é
exatamente o fato de que Ele existe, que Ele está presente entre nós por meio de cada um. A
conversão coincide com essa liberdade, com essa libertação. Sempre dava este exemplo aos jovens:
quando uma pessoa está gravemente doente, ficamos contentes quando existe um médico que
entende da doença. A pessoa fica contente, não fica com raiva porque existe alguém mais
competente. Fica contente, é um bem, é uma graça, um tesouro ter alguém que possa entender a
doença e procurar a cura. Por isso, a conversão é a prevalência deste bem, é não perdermos este
bem último em que a vida consiste.

Colocação: Anteontem estava na escola, onde dou aulas no ensino superior, depois de três anos
afastada fazendo uma reciclagem. Entrei na sala do primeiro ano e já sabia o que devia fazer,
tinha preparado a aula, engatei a quarta marcha e comecei. Eles me olhavam com os olhos
arregalados, nunca tinham ouvido alguém falar assim, me acompanhavam, faziam perguntas,
fiquei toda orgulhosa. Saí da sala e vi que um deles me seguia. Saiu da sala e disse: “Professora,
olha, preciso lhe dizer uma coisa”. “O que é?”. “Professora, olha, a senhora não deve ser tão
maternal na maneira de explicar, a senhora deve nos provocar mais, porque nós já ouvimos essas
coisas que a senhora está explicando, porque no ano passado tivemos um professor de filosofia que
já nos explicou essas coisas”. Então, eu olhei para ele e disse: “Agradeço por ter-me dito isso
porque assim eu posso ir até o fundo e o que você me diz é uma provocação para mim”. Reconheci
verdadeiramente o amor de Jesus por mim, porque não quis que eu parasse na metade, mas
confiou-se a mim dizendo-me: “Eu existo, e é isso que é importante para você e é o que eles
desejam, nada mais”.

Carrón: O que ficou para você, disso?

Colocação: O fato de eu ter um grande desejo...

Carrón: Não parar na metade: o que quer dizer?

Colocação: Quer dizer que eu queria ir até o fundo daquilo que estava me acontecendo, porque o
Senhor tinha me chamado ali.

Carrón: O que quer dizer ir até o fundo?

Colocação: Deixar que Ele...

Carrón: Mas o que isso quer dizer?

Colocação: Levar em conta a minha humanidade, aquilo de que sou feita e também as
circunstâncias porque, neste caso, queria dizer levar em conta um fator imprevisto que era aquele
menino.

Carrón: Exato. E o que este menino lhe fez entender?

Colocação: Que o Senhor usa um método seu.

Carrón: Qual?

Colocação: De vir ao meu encontro e me fazer entender o que é mais verdadeiro.

Carrón: Mas, o que este menino lhe disse? Que faltava você! Porque a educação é a comunicação
de si. Quer dizer, da própria maneira de enfrentar a realidade. Não basta uma boa aula, é preciso que
o eu esteja presente. Porque isso é o que Ele testemunha: depois de Cristo não existe outra
modalidade de comunicar a verdade a não ser o testemunho, onde os conceitos tornam-se carne e
sangue. E esta é a provocação que o menino oferece a você.

Colocação: E isso mudou muita coisa, de fato.

Carrón: Estou lhe dizendo isso porque é realmente um desafio para nós. Recebi muitos e-mails que
falam que alguém pode fazer as coisas e não estar presente. Leio apenas um deles, de uma pessoa
que trabalhou no Meeting de Rímini: “Foi uma semana maravilhosa... Porém há um grande ‘mas’.
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Enquanto aconteciam essas coisas maravilhosas, na minha casa fazia uma semana que não falava
com meu marido depois de uma briga por causa dos filhos. Em suma, uma confusão. No final do
Meeting eu estava esquizofrênica, literalmente dividida em duas, cansada, amargurada, desiludida e,
sobretudo, cínica. Voltar ao cotidiano com toda a sua dramaticidade me dava vontade de fugir, não
queria aquela realidade. Com o Meeting entendi que podemos nos enganar e aos outros. Podemos
fazer tudo muito bem e não estarmos presentes. Podemos fazer belos discursos e não estarmos
presentes. Podemos ter o coração endurecido e falar do desejo do coração (porque todos nós
sabemos fazer discursos). Podemos deixar de acreditar que Jesus responde e dizer aos voluntários
que só Jesus responde. Não contei a ninguém sobre esse sofrimento porque não queria discursos,
queria ficar só, não queria ser ajudada, como se o rancor do ceticismo tivesse escavado uma cratera.
Mas, no desespero escrevi a uma pessoa, vomitando tudo aquilo que estava dentro de mim. Ela não
me abandonou e, uma das vezes, me disse: “Leia o capítulo sobre o sacrifício”, e enquanto o lia
(comecei apenas para agradá-la) dava-me conta, chorando, que eu não poderia fugir para lugar
algum, que só em Jesus tudo ganha sentido. E era ali que Ele me esperava. Fui me confessar, pedi
que Ele me tomasse novamente, mas Ele já estava batendo e eu mantinha a porta fechada enquanto
Ele esperava meu ‘sim’. Quando experimentamos nossa imensa pequenez podemos entrar no
mistério de Sua grandeza e eu não quero viver por nada menos que isso, eu quero um
relacionamento pessoal, vivo, carnal, com Jesus, nada mais me basta. O cinismo, o ceticismo, o
relativismo escavaram um sulco grande também em nós que, sentindo-nos imunes, nos deixamos
enganar”. Podemos não estar presentes, por isso o sinal da contemporaneidade é encontrar um eu
que esteja presente com toda sua pessoa: “A glória de Deus é o homem vivente”, diz Santo Irineu.
O que dá glória, que faz Cristo transparecer, não são as nossas palavras, mas a questão é que
estejamos presentes. Uma outra pessoa me disse a mesma coisa: “Escrevo depois de pouco tempo
de minha última carta por causa da comoção que me invade pelo êxito do trabalho que você nos
propôs [porque o trabalho que estamos fazendo é exatamente para vencer isto, para que possamos
estar cada vez mais no real, assim como vimos que o Papa pode estar diante de pessoas que têm
uma maneira diferente de pensar, mas ele é capaz de ir até lá e testemunhar com todas as razões o
que é Cristo], que para mim coincide com a procura de estar diante daquilo que você nos diz,
portanto diante de Cristo, com o ímpeto de um pedido incansável para que eu viva, porque sozinho,
não consigo. E isso está produzindo frutos realmente evidentes para mim, que partem sempre de um
juízo. Tocou-me muito, por exemplo, a insistência sobre a iniciativa pessoal. Se penso na minha
vida, a partir deste chamado de atenção, de repente me vejo de maneira tão pálida que me percebo
perguntando-me: onde eu estava até agora? Quando Dom Giussani diz que falta o humano [agora
começamos realmente a nos dar conta e começa a aparecer com simplicidade]... Onde estava o meu
eu? A resposta chegou imediatamente: estava na esteira. Uma esteira, me parece, não é apenas
quando, por exemplo, participamos sem consciência de um gesto proposto, mas se joga em cada
instante. A iniciativa pessoal deve estar presente em cada momento”. O sinal d’Ele é exatamente
isto: nos torna presentes no presente.

Colocação: Olha, eu desejaria não existir, simplesmente não existir. A situação de minha avó é um
desastre: hospitais, casas de repouso, assistentes sociais. Você diz: “Cristo ressuscitado”. Onde
está este Cristo ressuscitado? Eu vim aqui e estou com muita raiva, porque ver minha avó assim,
que não ouve mais... Onde está esse Cristo ressuscitado, onde está?

Carrón: Como você pode olhar para sua avó se não existe este Cristo ressuscitado? Você deve
inverter a pergunta para que você, que vê sua avó assim, porque este é um fato...
Colocação: Estes são os fatos.

Carrón: Estes são os fatos, e você deve se perguntar: este é o fim?

Colocação: Para mim, sim, para mim, sim.

Carrón: E você pode colocar a sua mão no fogo na afirmação de que existe apenas o que você tem
na sua cabecinha ou pode existir mais realidade no céu e na terra do que na sua filosofia? Você
pode colocar a sua mão no fogo de que não há nada além daquilo que você vê? Pode colocá-la de
verdade? Ainda não encontrei ninguém que pudesse me dizer que sim. Comece a abrir sua razão,
porque na verdade é a falta dessa abertura que não permite que você veja aquilo que existe.

Colocação: Eu vejo apenas dor em volta de mim, apenas dor.

Carrón: Este é o ponto: que vejamos apenas isso. Para que você veja todo o resto, é preciso que
aconteça outra coisa e que você esteja disponível.

Colocação: Ou seja?

Carrón: Ou seja: vemos acontecer tantos fatos, e você pode estar ali com uma raiva imensa por
causa da sua avó e não se dar conta do que está acontecendo diante dos seus olhos. Se você não vai
a fundo da mudança das pessoas, daquilo que vivem, do testemunho delas de que há algo além
daquilo que você vê, porque você está preso pensando apenas naquela dor, se você não olha em
volta...

Colocação: Para onde devo olhar? Além de alguém querido que está para morrer, o que devo
olhar?

Carrón: Exatamente porque está para morrer é bom que você olhe, alargue a razão, para ver se isto
que você está vendo é tudo. Porque, se é tudo, não há esperança para sua avó, nem para você, nem
para nenhum de nós. Mas, se isso não é tudo e Cristo ressuscitou, então existe esperança para você,
para sua avó e para nós, entende?

Colocação: Se Cristo ressuscitou?

Carrón: Claro! E podemos ver isso nos fatos e nos acontecimentos que documentam a Sua
presença e a Sua obra, aqui e agora. A questão é que não vemos todos esses fatos, conforme eu
disse no Dia de Início de Ano, e ficamos ali, presos, olhando a realidade apenas através do buraco
da fechadura. E isso não é tudo, entende? Não é tudo. É como se você visse a realidade reduzida. E,
por isso, não coloca a mão no fogo que aquilo que você vê seja tudo. Pelo menos essa lealdade
consigo mesmo você deve ter, não pode não se calar. Então, eu digo: comece por aí, porque pode
existir algo além do que aquilo que você vê e que pode lhe dar esperança inclusive para olhar para
sua avó.

Colocação: Desculpe, para o quê devo olhar?

Carrón: Você ouviu, aqui, testemunhos de pessoas cuja vida mudou. Essa mudança é apenas
porque são mais capazes? Se você está presente na vida da comunidade vê os fatos que não são
reduzíveis a uma explicação qualquer, mas testemunham algo de outro, me explico? Você os viu, os
ouviu? Mas, para você, isso é igual a nada, isso não documenta que Cristo tenha ressuscitado.
Assim como não vê, não quer reconhecer, e quando está diante de sua avó que está morrendo não há
nada além daquilo que você vê. Mas há mais realidade no céu e na terra do que na sua cabecinha.
Você está disponível a esta conversão ou não?

Colocação: Não.
Carrón: Este é o ponto. Então, nem a ressurreição de um morto vai convencer você. Esta é uma
documentação daquilo que acontece. Dramática, porque digamos sinceramente – não é que nosso
amigo não seja sincero –. O problema é se é verdade aquilo que dizemos sinceramente! E como
vocês veem, quando chegamos ao ponto nós achamos que há sempre algo mais interessante para
fazer do que aquilo que Dom Giussani nos sugere. E, depois, nos afogamos nas reduções das quais
eu falei no Dia de Início de Ano e, diante da dor, não aguentamos. Podemos começar a entender que
nós nos encontraremos na mesma situação se não fizermos este percurso que Dom Giussani nos
propõe. Cada um deve decidir. Depois, não se lamentem quando tudo se tornar escuro. Mas quando
alguém os desafia sobre o fato de existir apenas isso, permitam-se pelo menos um instante de
lealdade consigo mesmos e parem para pensar. Quer dizer que ainda há alguma fresta, alguma
fenda.

De repente, Cristo ( Mons. Carrón)




Completam-se 25 anos de um fato fundamental para o crescimento de Comunhão e
Libertação na Espanha: a adesão ao Movimento, em Madri, de bom número dos que
seguiam a experiência da associação Nueva Tierra, ao lado de um grupo de jovens
sacerdotes. Entre estes se encontrava aquele que Dom Giussani indicaria como seu
sucessor: padre Julián Carrón. Ele acaba de dar início ao ano de CL na Espanha

J. Começar a participar de Comunhão e Libertação costuma vir acompanhado de
sinais exteriores muito característicos: mudanças no vocabulário – passam a ser
muito usados termos como acontecimento, desejo, encontro... -, a paixão por
Soljenítsin e outros autores russos, pela música coral... Mas o que acontece no
interior da pessoa?
M

Mons. Carrón: Por dentro, a pessoa vive uma experiência para a qual não encontra palavras mais
adequadas que essas, quando tenta explicá-la. O que foi decisivo para mim foi começar a
participar da vida do Movimento e entrar em contato com a sua proposta educativa.
Mesmo com o meu doutorado, obtido no exterior, eu não conseguia mover meus alunos
nem um milímetro sequer de suas posições, porque não era incisivo nas aulas que lhes
dava. Mas, quando comecei a me confrontar com a realidade – neste caso, as minhas
aulas – como o Movimento me propunha, passei a ter uma liberdade e uma capacidade
de desafiar aqueles garotos que antes não tinha. A questão não foi aprender sei lá que
coisas novas, mas uma maneira nova de estar na realidade, que antes eu não tinha. E
que nome você daria a isso? É evidente que aconteceu alguma coisa que mudou a sua
vida. Você mesmo é o primeiro a se surpreender. É por isso que eu digo que o
cristianismo, quando acontece, pega você no cotidiano, na forma como enfrenta cada dia,
na maneira de dar as aulas... Eu já tinha lido alguns textos de Dom Giussani, e
concordava plenamente com ele, mas não via nenhuma novidade especial. Foi participar
da vida do Movimento e ler aquilo a partir de dentro que me fez ter uma experiência da
vida como a que eu estou descrevendo... É o mesmo que acontece com qualquer texto
literário. Como eu explicava a meus alunos, não basta ter os instrumentos de análise
literária (um dicionário, a métrica dos versos...); você precisa de uma experiência que lhe
permita entender um poema de amor... Pelo mesmo motivo, é preciso ler a Escritura a
partir da Tradição, a partir de uma experiência que permita captar toda a sua densidade.


J. De que modo a sua experiência do seminário e daqueles anos foi uma preparação?

Mons. Carrón: Eu só guardo gratidão de todas essas coisas. É verdade que vivemos momentos difíceis
depois do Concílio. Mas tivemos a sorte de ser acompanhados por pessoas como padre
Francisco Golfín [depois bispo de Getafe] e padre Mariano Herranz [professor de Sagrada
Escritura], que nos deram pontos de referência que permitiram que não nos perdêssemos
naquela situação, em que muitos companheiros nossos se perderam. Eles nos
aproximaram de autores como Guardini ou Von Balthasar, De Lubac ou Ratzinger, que
nos deram as coordenadas para que nos situássemos na realidade. Eram os mesmos
autores que o Movimento e Dom Giussani recomendavam.

J. Qual era a novidade de CL?

Mons. Carrón: O Movimento nos fez tomar consciência de um método que nós não tínhamos.
Entendemos então que o cristianismo, mais que uma doutrina, é um acontecimento. A
novidade cristã é que os conceitos se fizeram carne. E, como diz o Papa, no início do
caminho cristão está o acontecimento de um encontro. Pode ser um encontro como o de
João e André, ou o da Samaritana... Mas é sempre um encontro imprevisto e imprevisível
com uma Pessoa que tem um jeito de olhar para a vida, uma capacidade de abraçar o
humano absolutamente únicos.
J

J. O senhor já tinha fé. No entanto, no seu relato e no de outras pessoas que aderiram
a CL naqueles anos, o que vocês descrevem é uma conversão?


Mons. Carrón: Isso foi uma surpresa para nós mesmos! Nasceu de imediato uma capacidade de
abertura e de compreensão da realidade infinitamente maior, que não poderíamos nem
sonhar. Nosso horizonte começou a se abrir, a começou a se dilatar também o nosso
interesse pela realidade, pela fé, pela literatura e pela arte, por Dostoievski e Soljenítsin,
pelo canto, pela beleza... Não consigo imaginar como era a Igreja em Milão na década de
1950, com toda a sua capacidade de adesão. Mas Dom Giussani percebia os sintomas de
uma divisão na vida das pessoas e na maneira de viver a fé. E começou a propor o
cristianismo a partir de suas características fundamentais. Se o cristianismo não volta a
ser como no início, se não voltamos à categoria do acontecimento, a pessoa pode até
participar de uma espécie de tradição, mas isso não basta. Quantas pessoas já não
passaram por colégios católicos?
Não basta repetir as coisas; é preciso mostrar que, vivendo essas coisas, a vida é mais
plena, mais digna de ser vivida, e este é o único desafio que pode convencer: o
testemunho de uma vida realizada, que sabe dar as razões pelas quais vive assim. Foi
esse o testemunho que o Papa nos deu no Reino Unido: ele testemunhou diante de todos
uma capacidade de viver a realidade, de enfrentar as questões mais importantes com
uma profundidade que suscita perguntas até nos mais reticentes... O desafio é mostrar
que o cristianismo não está reservado apenas a seus seguidores, mas leva a
compreender a totalidade da realidade, a totalidade da beleza... É claro que às vezes o
problema também é saber transmitir o interesse pela beleza. Os monges da Idade Média
cantavam e o povo participava da liturgia em gregoriano. Hoje, isso nos parece algo
destinado apenas às minorias cultas...
A. Simón e R. Benjumea

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Entrevista de Mel Gibson sobre a "Paixão de Cristo"




Mel Gibson narra a maior história jamais narrada
ROMA, 6 de março de 2003 (ZENIT.org)

Por que você quis fazer um filme sobre Jesus?

Estive amadurecendo a idéia faz uns dez ou doze anos, você perceberá que tinha então 35 anos. Foi então, quando comecei a aprofundar nas raízes da minha fé. Eu sempre acreditei em Deus, em sua existência. Na minha família me ensinaram a crer de certa forma. Mas na metade da minha vida, deixei minha fé um pouco de lado, e outras coisas ocuparam o primeiro lugar. Neste momento, compreendi que necessitava de algo mais se queria sobreviver. Eu me sentia impulsionado a uma leitura mais íntima dos Evangelhos, da história em seu conjunto. Aí foi quando a idéia começou a solidificar na minha cabeça. Comecei a ver o Evangelho com grande realismo, recriando-o em minha própria mente para que tivesse sentido para mim, para que fosse relevante para mim, para que fosse realmente relevante. Isto é o que eu quero levar à tela.

Já existe um grande número de filmes sobre Cristo. Por que mais uma?

Não creio que outros filmes tenham conseguido penetrar na verdadeira força desta história. Ou são inexatas na narração histórica, ou têm uma música ruim, ou são de mal gosto. Este filme mostrará a paixão de Cristo tal como aconteceu. É como regressar no tempo e contemplar aqueles fatos, apresentados exatamente como ocorreram.

Como pode estar tão seguro de que sua versão é tão fiel aos fatos?

Porque fizemos uma investigação. Eu estou contando a história como aparece na Bíblia, sem glosa. Fala por si mesma. O evangelho é um roteiro completo e isso é o que nós estamos filmando.

Este filme parece uma mudança de rumo em relação às famosas produções de Mel Gibson. Sua especialidade é a ação, a aventura e o romance. O que o motivou a fazer um filme religioso?

Estou fazendo o que sempre fiz: conto histórias. –que em minha opinião são importantes- como o idioma que melhor falo: o do cine. Penso que a maioria das histórias são histórias de heróis. As pessoas querem contagiar-se com algo superior, e ao tocá-lo com a imaginação praticamente participam dele, e assim elevam seu espírito. Não há nenhuma história com um herói maior que este. É a história do maior amor que se pode ter: dar a vida por alguém. <> é a maior aventura da história. Creio que é a maior história de amor de todos os tempos. Deus que se faz homem e é morto pelos homens. Se isto não é ação, então, o que é ação??

As pessoas estarão dispostas a ver um filme como este?

Penso que todos estaremos. Esta história inspirou arte, cultura, governos, reinos e países; teve uma influência.
Muitas pessoas buscam o sentido da vida propondo-se um grande número de interrogações. Virão ver o filme buscando respostas. Alguns as encontrarão, outros não.

Então, não é um filme só para cristãos?

O filme <> foi um grande sucesso, pois não era só para hindus. Este filme é para todos. Para crentes e não crentes. Jesus Cristo é, sem lugar a dúvidas, uma das figuras históricas mais importantes de todos os tempos. Tente mencionar alguma pessoa que tenha tido um impacto maior no curso da história.

Mas, se este filme quer levar o Evangelho à vida, não crês que será ofensivo para os não cristãos? Por exemplo, o papel dos líderes judeus na morte de Jesus, isso não será ofensivo?

Não é uma história de judeus contra cristãos. O próprio Jesus era judeu; sua mãe era judia e também seus doze apóstolos. É verdade que a Bíblia diz: <>. Eu não posso ocultá-lo. Mas não significa que os pecados do passado fossem piores que os pecados do presente. Cristo pagou o preço por todos os nossos pecados. A luta entre o bem e o mal, e o poder arrasador do amor estão muito acima da raça e da cultura. Este filme fala da fé, da esperança, do amor, do perdão. São realidades que serviriam ao mundo, especialmente nestes tempos tão turbulentos. Este filme quer inspirar, não ofender.

Mesmo assim, muitos pensarão que você pretende forçá-los às próprias crenças.

Eu não inventei esta história, mas é verdade que eu creio nela. É algo que a pessoa leva dentro de si mesmo e tem que sair. Simplesmente busco narrá-la bem, melhor do que foi feito anteriormente. Quando não se faz ficção científica, a responsabilidade de um diretor é a de ser o mais fiel possível aos fatos. As pessoas de mente aberta vão apreciá-lo.

A paixão de Cristo, tal como narram os Evangelhos, foi muito violenta. Se você é sumamente fiel a esta narração, não acha que as pessoas poderiam presenciar cenas muito violentas?

Para algumas pessoas podería resultar assim, mas… ei! Foi assim. Não há nada de violência gratuita neste filme. Creio que um menor de doze anos não deva vê-la, a não ser que seja muito maduro. É bastante forte. Nós nos acostumamos a ver crucifixos bonitos pendurados na parede. Dizemos: <>, porém quem se detém a pensar o que estas palavras realmente significam? Na minha infância, não percebia o que isto implicava. Não compreendia como foi duro. O profundo horror do que Ele sofreu por nossa redenção realmente não me impactava. Entender o que ele sofreu, inclusive humanamente, me faz sentir não só compaixão, mas também me faz sentir em dívida: eu quero compensá-lo pela imensidade do seu sacrifício.

E o que você nos diz sobre o idioma? Está gravado em línguas mortas: latim e aramaico, o idioma que Jesus falava. Além do mais, você não planeja por legendas. Isto não causará rechaço no público?

- As pinturas de Caravaggio não têm legendas, mas as pessoas captam a mensagem. O balé do Quebra-Nozes não tem legendas, mas as pessoas entendem a mensagem. Eu acho que a imagem superará a barreira do idioma. Esta é a minha esperança. Simplesmente estou tentando ser o mais real possível. Vê-lo nos idiomas originais é como uma sacudida. A realidade sai ao encontro e golpeia. Contato pleno. Eu sei que nós só estamos recriando, mas o fazemos o melhor possível, para transmitir a experiência de estar realmente lá. E penso que é quase contraproduzente dizer algumas destas frases em um idioma moderno. Isso obriga a colocar-se de pé e completar a frase. É como quando um escuta: <>, instintivamente uma pessoa se diz a si mesma: <>. Porém se você escuta as palavras ditas como as pronunciaram naquele momento, você pode se comover. Eu o comprovei quando rodamos o filme. Alcança claridade por atuação, através dos matizes dos caracteres, do movimento da câmera: é o movimento, a cronometragem, é tudo… E de repente tudo, tudo me resulta muito claro. Neste momento, corto e sigo.

Ao terminar este filme, não se desilusionará ao voltar a matérias menos sublimes?

Não, me encatará fazer algo mais ligeiro. Existe uma tremenda carga de responsabilidade neste filme, não se pode deixar nada pela metade. Espero fazer justiça à história. Também não é possível agradar a todos, mas, repito este não é meu objetivo.


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Entrevista en “O’Reilly Factor”
Fox News, 14 de janeiro de 2003

O’REILLY: … O ator Mel Gibson esteve durante alguns meses na Itália, rodando um controvertido filme que graficamente representa a execução de Jesus. O filme foi financiado pela Produtora de Gibson. Foi rodado em aramaico e latim, as línguas usadas na época.

Gibson é um homem religioso e crê que existe alguém nos meios de comunicação que quer desacreditar-lhe porque está fazendo um filme pró-cristão.

E, efetivamente, este programa realizou investigações e soube que há um repórter, de um meio escrito, que está tentando sujar o nome de Gibson. O rapaz inclusive se aproximou sob circunstâncias questionáveis do pai de Gibson, de 85 anos de idade.

Com interesse de que tudo se esclareça, e devido ao fato de que a produtora de Mel Gibson, ICON, ter comprado os direitos do meu romance, pelo qual tenho uma relação profissional, escolhi meu programa para falar disto.

Falei ontem com Mel Gibson desde Roma.

(Começa a gravação em vídeo)

O’REILLY: Sim, é. Nunca vi uma interpretação que se iguale a esta em realismo. É normal que, as versões que já vi, sofrem de penteados mal feitos, inadequações históricas, ou simplesmente não parecem reais. E de algum modo, devido a isto, creio que nos distanciamos dos fatos. São mais como contos de fadas. E isto realmente aconteceu. Ocorreu. Estou explorando neste sentido, em mostrar a essência do sacrifício.

O’REILLY: Você vai fazê-lo em Aramaico e Latim, de acordo, assim que ninguém vai entender o que se diz. As imagens vão ser explícitas e poderosas. Como é isto?

GIBSON: Bem, a coisa está em que se pode transcender a linguagem com a mensagem da imagem. E estou muito contente com o que estamos obtendo.

O’REILLY: Isto vai incomodar algumas pessoas que crêem que esta pessoa tratada com tanta brutalidade é Deus?

GIBSON: Bom, creio que qualquer um que conheça Jesus como Deus e creia nisto percebe que o trataram com brutalidade e nisto estou trabalhando. Porém não creio que as pessoas se incomodem por isto.

O’REILLY: Isto vai incomodar a população judia?

GIBSON: Pode. Mas não pretende isto.
Creio que só pretende contar a verdade. Quero ser tão fiel à verdade quanto passo. Porém quando se buscam as razões pelas quais Cristo veio, porque foi crucificado, morreu por toda a humanidade e sofreu por toda a humanidade. É hora de voltar à mensagem básica, a mensagem que foi dada. Na atualidade o mundo se tornou louco. E este filme fala, bem, Cristo falou de fé, esperança, amor, perdão. E creio que estas são coisas que necessitamos que nos sejam lembradas. Ele perdoou enquanto era torturado e assassinado. E podemos aprender muito deste comportamento.

O’REILLY: Soubemos que existe um repórter buscando tirar alguma coisa suja de você, e que esteve incomodando seu pai, buscando obter algum comentário provocativo da parte dele, e buscando mostrá-lo como um fanático e provavelmente intolerante, este tipo está atuando agora. Está buscando sujar a imagem de Mel Gibson.
E você acha que é por causa da realização deste filme sobre Jesus?

GIBSON: É o que eu penso, sim. Creio que o enviaram. Assim são estas coisas. Eu posso me defender, pode falar o que quiser de mim. Sou uma pessoa pública, suponho, por mais que não me lembro de ter assinado nada que dissesse que não tenho direito a minha intimidade. Mas podem se meter comigo. Mas quando começam a se meter com a minha família quando eu estou fora da cidade, preparem-se.

O’REILLY: Estou surpreso de que alguém esteja perseguindo uma pessoa de tão alta consideração como você. Realmente pensa que é devido ao fato de estar fazendo este filme sobre Jesus?

GIBSON: Sim, é o que eu penso. Creio que existem muitas coisas que não querem que aconteçam. Mas, como já disse, é um filme que fala de fé, esperança, amor e perdão. Esta é a mensagem básica. E creio que é ao que devemos voltar. E se todos praticássemos um pouco mais disto, haveriam muito menos conflitos no mundo.

O’REILLY: Assim, se este rapaz escreve algo terrível sobre você, e sobre seu pai ou sua família, você o perdoará?

GIBSON: Sim. Você tem que fazê-lo. Antes já o fiz. Mas me deixa perplexo quando acontece.

(Fim da gravação)


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Mel Gibson nega que filme sobre Jesus seja anti-semita
REUTERS, 13 de junho de 2003

LOS ANGELES (Reuters) – O ator Mel Gibson, quebrando seu silêncio sobre seu polêmico filme que descreve as 12 últimas horas na vida de Jesus Cristo, negou na sexta-feira que seu filme fosse anti-semita, e insistiu em que a produção tem a intenção de “inspirar e não ofender”.

Os comentários de Gibson foram incluídos em um comunicado que anunciou que a Igreja Católica concordou em ajudar a sua companhia de produção, ICON, a recuperar uma cópia do roteiro inicial do filme.

De acordo com ICON, várias pessoas, que trabalham temporariamente para acadêmicos judeus e católicos obtiveram sem permissão este roteiro inicial e o fizeram circular clandestinamente.

Líderes judeus em particular mostraram preocupação de que o filme, chamado “A paixão”, poderia retratar os judeus como culpáveis coletivos da crucificação de Cristo.

Os católicos, por sua parte, mostraram inquietude de que Gibson poderia usar o filme para desafiar os ensinamentos da Igreja.

Suas preocupações foram alimentadas por um artigo da revista do New York Times que mostrava Gibson como um católico tradicionalista, oposto às reformas do Concílio Vaticano II da década de 1960, que, entre outras coisas, rejeita a crença de que os judeus foram os responsáveis coletivamente da morte de Jesus.

Gibson teria falado pouco sobre seu filme, que foi filmado na Itália e contém diálogos só em latim e aramaico, sem legendas em inglês. Gibson dirigiu e co-escreveu o filme que ainda não tem distribuidor.

Em seus primeiros comentários públicos sobre o filme desde que começou a polêmica, Gibson disse “nem o filme nem eu somos anti-semitas (…) não odeio a ninguém, certamente não aos judeus. Eles são amigos e sócios, tanto no meu trabalho como na vida social”.

“O Anti-semitismo não só está em contra das minhas crenças pessoais, também contrário à mensagem do meu filme”.

Acrescentou que o filme “tem a intenção de inspirar, não ofender (…) Par aqueles que estejam preocupados sobre o conteúdo do filme, saibam que se adapta às narrações da paixão e morte de Cristo, que se encontram nos quatro evangelhos do Novo Testamento”.

O produtor do filme, Steve McEveety, disse que por mais que a crítica tem sua opinião, “ninguém tem o direito a criticar publicamente um filme que nem sequer está completo”.

Fonte: Zenit

" A Beleza salvará o mundo" (Fio Dostoiévski)




No dia 2 de Fevereiro lembramos a fifgura de Fio Dostoiévski. Morreu há 129 anos. Uma das suas frases mais célebres é “A beleza salvará o mundo”. Ainda que tenha sentido mesmo isolada, porque desejamos que a beleza conquiste mais espaço, tempo e importância (quem livremente opta pelo feio?), convém lê-la no contexto.
O conterrâneo Alexandre Soljenitsyne diz que durante muito tempo não compreendeu a frase, para a seguir interpretá-la neste sentido: o mundo há-de ficar convencido pela beleza (belos discursos, bela literatura, enfim, arte) de que a Beleza, a Verdade e do Bem estão unidos como se fossem uma árvores de três ramos. Cortar um deles é matar a árvore. A frase é “uma profecia”, diz o Nobel da Literatura de 1970. O texto, em inglês, pode ser lido aqui.

João Paulo II também citou a frase. Na “Carta aos Artistas”, de 1999, diz que beleza, assombro e entusiasmo andam juntos. “Já no limiar do terceiro milénio, desejo a todos vós, artistas caríssimos, que sejais abençoados, com particular intensidade, por essas inspirações criativas. A beleza, que transmitireis às gerações futuras, seja tal que avive nelas o assombro. Diante da sacralidade da vida e do ser humano, diante das maravilhas do universo, o assombro é a única atitude condigna. De tal assombro poderá brotar aquele entusiasmo (…) a que me referi ao início. Os homens de hoje e de amanhã têm necessidade deste entusiasmo, para enfrentar e vencer os desafios cruciais que se prefiguram no horizonte. Com tal entusiasmo, a humanidade poderá, depois de cada extravio, levantar-se de novo e retomar o seu caminho. Precisamente neste sentido foi dito, com profunda intuição, que «a beleza salvará o mundo» (n.º 25 da “Carta aos artistas”, aqui em português).

A palavra “entusiasmo” é etimologicamente interessante neste contexto, porque significa “levar Deus dentro de si mesmo”. Mas era isso que Dostoiévski queria dizer?

A afirmação surge no cap. 5 de terceira parte de “O Idiota”. Diz Ippolit, entre um grupo de amigos, numa noitada, depois de ter passado uns minutos pelo sono:

“É verdade que o príncipe disse, uma vez, que a «beleza» salvaria o mundo? Meus senhores – gritou bem alto –, o príncipe afirma que a beleza salvará o mundo! E eu afirmo que quem tem ideias tão jocosas está apaixonado. Meus senhores, o príncipe está apaixonado; mal ele entrou tive a certeza disso. Não core, príncipe, senão ainda tenho pena de si. Que beleza salvará o mundo? Foi o Kólia quem mo contou… É um cristão zeloso? O Kólia diz que o príncipe se qualifica a si mesmo de cristão…” (pág. 396 de “O Idiota”, Editorial Presença, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra).

O príncipe a que se refere Ippolit é Lev Nikoláevitch Míchkin, protagonista de “O Idiota”, o próprio idiota, o próprio Dostoiévski.

Umas páginas à frente, na 421, Míchkin conta:

“Quando me levantei para fechar a porta à chave depois de ele [Kólia] sair, lembrei-me subitamente de um quadro que vira nesse dia em casa de Rogójin, numa das mais sombrias salas da sua sombria casa, por cima da porta. Ele próprio no mostrou à passagem. Acho que fiquei parado diante do quadro uns cinco minutos, não menos. A pintura não era grande coisa em termos artísticos, mas mergulhou-me numa estranha inquietação.

Nesse quadro está pintado um Cristo que acabaram de tirar da cruz. Parece que os pintores têm o hábito de representar Cristo, tanto crucificado como tirado da cruz, sempre com um toque de beleza no rosto; mesmo nos momentos de sofrimento mais terrível, acham que devem conservar-lhe a beleza. Ora, no quadro de Rogójin não há o mínimo de beleza; aquilo é, no sentido mais pleno, o cadáver de uma pessoa que sofreu infinitamente, ainda antes da crucificação, feridas, torturas, espancamentos por parte dos guardas e do povo, quando carregava com a cruz e caiu debaixo dela, e, finalmente, o sofrimento atroz quando esteve pregado na cruz durante seis horas (de acordo com os meus cálculos, pelo menos). Também é verdade que há ainda muita vida, muito calor, no rosto de um homem que acabaram de tirar da cruz: o cadáver ainda não teve tempo de tornar-se rígido, no rosto do morto ainda transparece o sofrimento, como que sentido no próprio instante (este pormenor foi muito bem apanhado pelo artista); mesmo assim, aquele rosto não foi poupado; nele só há a natureza, e ponto, é mesmo assim o cadáver de uma pessoa, seja ela quem for, depois de semelhantes tormentos. Sei que a Igreja cristã estabeleceu, ainda nos primeiros séculos, que o Cristo não sofreu metaforicamente mas na lei da natureza, completa e absolutamente. No quadro, esse rosto está terrivelmente desfigurado por golpes, tumefacções, nódoas negras assustadoras, inchadas e sangrentas, tem os olhos abertos, as pupilas entortadas; o branco dos olhos, grande e aberto, tem um brilho lívido, vítreo. É estranho que, quando olhamos para este cadáver de homem torturado, surge uma pergunta especial e curiosa: se um cadáver assim (e ele devia sem dúvida ser tal e qual como este) foi visto por todos os seus discípulos, pelos principais futuros apóstolos dele, pelas mulheres que tinham fé nele e o adoravam, como foi possível que acreditassem, á vista deste cadáver, que este mártir ia ressuscitar? (…) Com este quadro parece estar expressa precisamente a noção de uma força obscura, descarada e eternamente sem sentido a que tudo fica submisso, e esta noção transmite-se-nos involuntariamente. As pessoas que rodeavam o morto, nenhuma das quais está presente no quadro, deviam sentir uma terrível amargura e perturbação naquela noite que esmagou de vez todas as suas esperanças e, talvez, todas as suas crenças” (fim de citação).

É esta não-beleza que salvará o mundo. Melhor, os cristãos sabem que foi esta beleza que salvou o mundo.

Fonte: Blog Tribo de Jacó

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Carta do Santo Padre, Bento XVI, aos Seminaristas por ocasião da conclusão do Ano Sacerdotal




Queridos Seminaristas,

Em Dezembro de 1944, quando fui chamado para o serviço militar, o comandante de companhia perguntou a cada um de nós a profissão que sonhava ter no futuro. Respondi que queria tornar-me sacerdote católico. O subtenente replicou: Nesse caso, convém-lhe procurar outra coisa qualquer; na nova Alemanha, já não há necessidade de padres. Eu sabia que esta "nova Alemanha" estava já no fim e que, depois das enormes devastações causadas por aquela loucura no país, mais do que nunca haveria necessidade de sacerdotes. Hoje, a situação é completamente diversa; porém de vários modos, mesmo em nossos dias, muitos pensam que o sacerdócio católico não seja uma "profissão" do futuro, antes pertenceria já ao passado. Contrariando tais objeções e opiniões, vós, queridos amigos, decidistes-vos a entrar no Seminário, encaminhando-vos assim para o ministério sacerdotal na Igreja Católica. E fizestes bem, porque os homens sempre terão necessidade de Deus – mesmo na época do predomínio da técnica no mundo e da globalização –, do Deus que Se mostrou a nós em Jesus Cristo e nos reúne na Igreja universal, para aprender, com Ele e por meio d’Ele, a verdadeira vida e manter presentes e tornar eficazes os critérios da verdadeira humanidade. Sempre que o homem deixa de ter a noção de Deus, a vida torna-se vazia; tudo é insuficiente. Depois o homem busca refúgio na alienação ou na violência, ameaça esta que recai cada vez mais sobre a própria juventude. Deus vive; criou cada um de nós e, por conseguinte, conhece a todos. É tão grande que tem tempo para as nossas coisas mais insignificantes: "Até os cabelos da vossa cabeça estão contados". Deus vive, e precisa de homens que vivam para Ele e O levem aos outros. Sim, tem sentido tornar-se sacerdote: o mundo tem necessidade de sacerdotes, de pastores hoje, amanhã e sempre enquanto existir.

O Seminário é uma comunidade que caminha para o serviço sacerdotal. Nestas palavras, disse já algo de muito importante: uma pessoa não se torna sacerdote sozinha. É necessária a "comunidade dos discípulos", o conjunto daqueles que querem servir a Igreja de todos. Com esta carta, quero evidenciar – olhando retrospectivamente também para o meu tempo de Seminário – alguns elementos importantes para o vosso caminho a fazer nestes anos.

1. Quem quer tornar-se sacerdote, deve ser sobretudo um "homem de Deus", como o apresenta São Paulo (1 Tm 6, 11). Para nós, Deus não é uma hipótese remota, não é um desconhecido que se retirou depois do "big-bang". Deus mostrou-Se em Jesus Cristo. No rosto de Jesus Cristo, vemos o rosto de Deus. Nas suas palavras, ouvimos o próprio Deus a falar conosco. Por isso, o elemento mais importante no caminho para o sacerdócio e ao longo de toda a vida sacerdotal é a relação pessoal com Deus em Jesus Cristo. O sacerdote não é o administrador de uma associação qualquer, cujo número de membros se procura manter e aumentar. É o mensageiro de Deus no meio dos homens; quer conduzir a Deus, e assim fazer crescer também a verdadeira comunhão dos homens entre si. Por isso, queridos amigos, é muito importante aprenderdes a viver em permanente contato com Deus. Quando o Senhor fala de "orar sempre", naturalmente não pede para estarmos continuamente a rezar por palavras, mas para conservarmos sempre o contato interior com Deus. Exercitar-se neste contato é o sentido da nossa oração. Por isso, é importante que o dia comece e acabe com a oração; que escutemos Deus na leitura da Sagrada Escritura; que Lhe digamos os nossos desejos e as nossas esperanças, as nossas alegrias e sofrimentos, os nossos erros e o nosso agradecimento por cada coisa bela e boa, e que deste modo sempre O tenhamos diante dos nossos olhos como ponto de referência da nossa vida. Assim tornamo-nos sensíveis aos nossos erros e aprendemos a trabalhar para nos melhorarmos; mas tornamo-nos sensíveis também a tudo o que de belo e bom recebemos habitualmente cada dia, e assim cresce a gratidão. E, com a gratidão, cresce a alegria pelo fato de que Deus está perto de nós e podemos servi-Lo.

2. Para nós, Deus não é só uma palavra. Nos sacramentos, dá-Se pessoalmente a nós, através de elementos corporais. O centro da nossa relação com Deus e da configuração da nossa vida é a Eucaristia; celebrá-la com íntima participação e assim encontrar Cristo em pessoa deve ser o centro de todas as nossas jornadas. Para além do mais, São Cipriano interpretou a súplica do Evangelho "o pão nosso de cada dia nos dai hoje" dizendo que o pão "nosso", que, como cristãos, podemos receber na Igreja, é precisamente Jesus eucarístico. Por conseguinte, na referida súplica do Pai Nosso, pedimos que Ele nos conceda cada dia este pão "nosso"; que o mesmo seja sempre o alimento da nossa vida, que Cristo ressuscitado, que Se nos dá na Eucaristia, plasme verdadeiramente toda a nossa vida com o esplendor do seu amor divino. Para uma reta celebração eucarística, é necessário aprendermos também a conhecer, compreender e amar a liturgia da Igreja na sua forma concreta. Na liturgia, rezamos com os fiéis de todos os séculos; passado, presente e futuro encontram-se num único grande coro de oração. A partir do meu próprio caminho, posso afirmar que é entusiasmante aprender a compreender pouco a pouco como tudo isto foi crescendo, quanta experiência de fé há na estrutura da liturgia da Missa, quantas gerações a formaram rezando.

3. Importante é também o sacramento da Penitência. Ensina a olhar-me do ponto de vista de Deus e obriga-me a ser honesto comigo mesmo; leva-me à humildade. Uma vez o Cura d’Ars disse: Pensais que não tem sentido obter a absolvição hoje, sabendo entretanto que amanhã fareis de novo os mesmos pecados. Mas – assim disse ele – o próprio Deus neste momento esquece os vossos pecados de amanhã, para vos dar a sua graça hoje. Embora tenhamos de lutar continuamente contra os mesmos erros, é importante opor-se ao embrutecimento da alma, à indiferença que se resigna com o fato de sermos feitos assim. Na grata certeza de que Deus me perdoa sempre de novo, é importante continuar a caminhar, sem cair em escrúpulos, mas também sem cair na indiferença, que já não me faria lutar pela santidade e o aperfeiçoamento. E, deixando-me perdoar, aprendo também a perdoar aos outros; reconhecendo a minha miséria, também me torno mais tolerante e compreensivo com as fraquezas do próximo.

4. Mantende em vós também a sensibilidade pela piedade popular, que, apesar de diversa em todas as culturas, é sempre também muito semelhante, porque, no fim de contas, o coração do homem é o mesmo. É certo que a piedade popular tende para a irracionalidade e, às vezes, talvez mesmo para a exterioridade. No entanto, excluí-la, é completamente errado. Através dela, a fé entrou no coração dos homens, tornou-se parte dos seus sentimentos, dos seus costumes, do seu sentir e viver comum. Por isso a piedade popular é um grande patrimônio da Igreja. A fé fez-se carne e sangue. Seguramente a piedade popular deve ser sempre purificada, referida ao centro, mas merece a nossa estima; de modo plenamente real, ela faz de nós mesmos "Povo de Deus".

5. O tempo no Seminário é também e sobretudo tempo de estudo. A fé cristã possui uma dimensão racional e intelectual, que lhe é essencial. Sem tal dimensão, a fé deixaria de ser ela mesma. Paulo fala de uma "norma da doutrina", à qual fomos entregues no Batismo (Rm 6, 17). Todos vós conheceis a frase de São Pedro, considerada pelos teólogos medievais como a justificação para uma teologia elaborada racional e cientificamente: "Sempre prontos a responder […] a todo aquele que vos perguntar 'a razão' (logos) da vossa esperança" (1 Ped 3, 15). Adquirir a capacidade para dar tais respostas é uma das principais funções dos anos de Seminário. Tudo o que vos peço insistentemente é isto: Estudai com empenho! Fazei render os anos do estudo! Não vos arrependereis. É certo que muitas vezes as matérias de estudo parecem muito distantes da prática da vida cristã e do serviço pastoral. Mas é completamente errado pôr-se imediatamente e sempre a pergunta pragmática: Poderá isto servir-me no futuro? Terá utilidade prática, pastoral? É que não se trata apenas de aprender as coisas evidentemente úteis, mas de conhecer e compreender a estrutura interna da fé na sua totalidade, de modo que a mesma se torne resposta às questões dos homens, os quais, do ponto de vista exterior, mudam de geração em geração e todavia, no fundo, permanecem os mesmos. Por isso, é importante ultrapassar as questões volúveis do momento para se compreender as questões verdadeiras e próprias e, deste modo, perceber também as respostas como verdadeiras respostas. É importante conhecer a fundo e integralmente a Sagrada Escritura, na sua unidade de Antigo e Novo Testamento: a formação dos textos, a sua peculiaridade literária, a gradual composição dos mesmos até se formar o cânon dos livros sagrados, a unidade dinâmica interior que não se nota à superfície, mas é a única que dá a todos e cada um dos textos o seu pleno significado. É importante conhecer os Padres e os grandes Concílios, onde a Igreja assimilou, refletindo e acreditando, as afirmações essenciais da Escritura. E poderia continuar assim: aquilo que designamos por dogmática é a compreensão dos diversos conteúdos da fé na sua unidade, mais ainda, na sua derradeira simplicidade, pois cada um dos detalhes, no fim de contas, é apenas explanação da fé no único Deus, que Se manifestou e continua a manifestar-Se a nós. Que é importante conhecer as questões essenciais da teologia moral e da doutrina social católica, não será preciso que vo-lo diga expressamente. Quão importante seja hoje a teologia ecumênica, conhecer as várias comunidade cristãs, é evidente; e o mesmo se diga da necessidade duma orientação fundamental sobre as grandes religiões e, não menos importante, sobre a filosofia: a compreensão daquele indagar e questionar humano ao qual a fé quer dar resposta. Mas aprendei também a compreender e – ouso dizer – a amar o direito canônico na sua necessidade intrínseca e nas formas da sua aplicação prática: uma sociedade sem direito seria uma sociedade desprovida de direitos. O direito é condição do amor. Agora não quero continuar o elenco, mas dizer-vos apenas e uma vez mais: Amai o estudo da teologia e segui-o com diligente sensibilidade para ancorardes a teologia à comunidade viva da Igreja, a qual, com a sua autoridade, não é um pólo oposto à ciência teológica, mas o seu pressuposto. Sem a Igreja que crê, a teologia deixa de ser ela própria e torna-se um conjunto de disciplinas diversas sem unidade interior.

6. Os anos no Seminário devem ser também um tempo de maturação humana. Para o sacerdote, que terá de acompanhar os outros ao longo do caminho da vida e até às portas da morte, é importante que ele mesmo tenha posto em justo equilíbrio coração e intelecto, razão e sentimento, corpo e alma, e que seja humanamente "íntegro". Por isso, a tradição cristã sempre associou às "virtudes teologais" as "virtudes cardeais", derivadas da experiência humana e da filosofia, e também em geral a sã tradição ética da humanidade. Di-lo, de maneira muito clara, Paulo aos Filipenses: "Quanto ao resto, irmãos, tudo o que é verdadeiro, nobre e justo, tudo o que é puro, amável e de boa reputação, tudo o que é virtude e digno de louvor, isto deveis ter no pensamento" (4, 8). Faz parte deste contexto também a integração da sexualidade no conjunto da personalidade. A sexualidade é um dom do Criador, mas também uma função que tem a ver com o desenvolvimento do próprio ser humano. Quando não é integrada na pessoa, a sexualidade torna-se banal e ao mesmo tempo destrutiva. Vemos isto, hoje, em muitos exemplos da nossa sociedade. Recentemente, tivemos de constatar com grande mágoa que sacerdotes desfiguraram o seu ministério, abusando sexualmente de crianças e adolescentes. Em vez de levar as pessoas a uma humanidade madura e servir-lhes de exemplo, com os seus abusos provocaram devastações, pelas quais sentimos profunda pena e desgosto. Por causa de tudo isto, pode ter-se levantado em muitos, e talvez mesmo em vós próprios, esta questão: se é bom fazer-se sacerdote, se o caminho do celibato é sensato como vida humana. Mas o abuso, que há que reprovar profundamente, não pode desacreditar a missão sacerdotal, que permanece grande e pura. Graças a Deus, todos conhecemos sacerdotes convincentes, plasmados pela sua fé, que testemunham que, neste estado e precisamente na vida celibatária, é possível chegar a uma humanidade autêntica, pura e madura. Entretanto o sucedido deve tornar-nos mais vigilantes e solícitos, levando precisamente a interrogarmo-nos cuidadosamente a nós mesmos diante de Deus ao longo do caminho rumo ao sacerdócio, para compreender se este constitui a sua vontade para mim. É função dos padres confessores e dos vossos superiores acompanhar-vos e ajudar-vos neste percurso de discernimento. É um elemento essencial do vosso caminho praticar as virtudes humanas fundamentais, mantendo o olhar fixo em Deus que Se manifestou em Cristo, e deixar-se incessantemente purificar por Ele.

7. Hoje os princípios da vocação sacerdotal são mais variados e distintos do que nos anos passados. Muitas vezes a decisão para o sacerdócio desponta nas experiências de uma profissão secular já assumida. Frequentemente cresce nas comunidades, especialmente nos movimentos, que favorecem um encontro comunitário com Cristo e a sua Igreja, uma experiência espiritual e a alegria no serviço da fé. A decisão amadurece também em encontros muito pessoais com a grandeza e a miséria do ser humano. Deste modo os candidatos ao sacerdócio vivem muitas vezes em continentes espirituais completamente diversos; poderá ser difícil reconhecer os elementos comuns do futuro mandato e do seu itinerário espiritual. Por isso mesmo, o Seminário é importante como comunidade em caminho que está acima das várias formas de espiritualidade. Os movimentos são uma realidade magnífica; sabeis quanto os aprecio e amo como dom do Espírito Santo à Igreja. Mas devem ser avaliados segundo o modo como todos se abrem à realidade católica comum, à vida da única e comum Igreja de Cristo que permanece uma só em toda a sua variedade. O Seminário é o período em que aprendeis um com o outro e um do outro. Na convivência, por vezes talvez difícil, deveis aprender a generosidade e a tolerância não só suportando-vos mutuamente, mas também enriquecendo-vos um ao outro, de modo que cada um possa contribuir com os seus dotes peculiares para o conjunto, enquanto todos servem a mesma Igreja, o mesmo Senhor. Esta escola da tolerância, antes do aceitar-se e compreender-se na unidade do Corpo de Cristo, faz parte dos elementos importantes dos anos de Seminário.

Queridos seminaristas! Com estas linhas, quis mostrar-vos quanto penso em vós precisamente nestes tempos difíceis e quanto estou unido convosco na oração. Rezai também por mim, para que possa desempenhar bem o meu serviço, enquanto o Senhor quiser. Confio o vosso caminho de preparação para o sacerdócio à proteção materna de Maria Santíssima, cuja casa foi escola de bem e de graça. A todos vos abençoe Deus onipotente Pai, Filho e Espírito Santo.

Dado no Vaticano, aos 18 de Outubro - Festa de São Lucas, Evangelista - do ano de 2010.

Vosso no Senhor.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Palavras do Papa na 1ª Congregação do Sínodo para Oriente Médio


Queridos irmãos e irmãs,

em 11 de outubro de 1962, trinta e oito anos atrás, Papa João XXIII inaugurava o Concílio Vaticano II. Celebrava-se ainda em 11 de outubro a festa da Maternidade divina de Maria, e, com esse gesto, com essa data, Papa João desejava confiar todo o Concílio às mãos maternas, ao coração materno de Nossa Senhora. Também nós começamos em 11 de outubro, também nós desejamos confiar este Sínodo, com todos os problemas, com todos os desafios, com todas as esperanças, ao coração materno de Nossa Senhora, da Mãe de Deus.

Pio XI, em 1930, havia introduzido essa festa, 1600 anos após o Concílio de Éfeso, o qual havia legitimado, para Maria, o título Theotókos, Dei Genitrix. Nesta grande palavra Theotókos, Dei Genitrix, Theotókos, o Concílio de Éfeso havia resumido toda a doutrina de Cristo, de Maria, toda a doutrina da redenção. E, portanto, vale a pena refletir um pouco, um momento, sobre isso de que fala o Concílio de Éfeso, isto de que fala este dia.

Na realidade, Theotókos é um título audaz. Uma mulher é Mãe de Deus. Poder-se-ia dizer: como é possível? Deus é eterno, é o Criador. Nós somos criaturas, estamos no tempo: como poderia uma pessoa humana ser Mãe de Deus, do Eterno, dado que nós estamos no tempo, somos todos criaturas? Por isso compreende-se que era forte a oposição, em parte, contra essa palavra. Os nestorianos diziam: pode-se falar de Christotókos, sim, mas de Theotókos não: Theós, Deus, é outro, acima dos acontecimentos da história. Mas o Concílio decidiu isso, e exatamente assim lançou luzes sobre a aventura de Deus, a grandiosidade do quanto fez por nós. Deus não permaneceu em si: saiu de si, uniu-se de tal modo, tão radicalmente com este homem, Jesus, que este homem Jesus é Deus, e se falamos d'Ele, podemos sempre também falar de Deus. Não nasceu somente um homem que tinha a ver com Deus, mas n'Ele nasceu Deus sobre a terra. Deus saiu de si. Mas podemos também dizer o contrário: Deus nos atraiu para si mesmo, de tal forma que não estivéssemos mais fora de Deus, mas no seu íntimo, na intimidade de Deus mesmo.
A filosofia aristotélica, bem o sabemos, diz-nos que entre Deus e o homem existe somente uma relação não recíproca. O homem refere-se a Deus, mas Deus, o Eterno, está em si, não muda: não pode ter hoje uma e amanhã outra relação. Está em si, não tem relação ad extra. É uma palavra muito lógica, mas é uma palavra que nos traz desespero: então Deus mesmo não tem relação comigo. Com a encarnação, com o surgimento da Theotókos, isso é mudado radicalmente, porque Deus nos atraiu para si mesmo e Deus em si mesmo é relação e nos faz participar na sua relação interior. Assim estamos no seu ser Pai, Filho e Espírito Santo, estamos no interior do seu ser em relação, estamos em relação com Ele e Ele realmente criou relação conosco. Naquele momento, Deus desejou nascer de uma mulher e ser sempre ele próprio: esse é o grande evento. E assim podemos compreender a profundidade do ato do Papa João, que confiou a Assembleia conciliar, sinodal, ao mistério central, à Mãe de Deus que foi atraída pelo Senhor n'Ele mesmo, e assim nós todos com Ela.
O Concílio Vaticano II começou com o ícone da Theotókos. Ao final, Papa Paulo VI reconhece à mesma Nossa Senhora o título de Mater Ecclesiae. E esses dois ícones, que iniciam e concluem o Concílio, estão intrinsecamente vinculados, são, enfim, um só ícone. Porque Cristo não nasceu como um indivíduo entre os outros. Nasceu para criar um corpo: nasceu – como diz João no capítulo 12 de seu Evangelho – para atrair todos a si e em si. Nasceu – como dizem as Cartas aos Colossenses e aos Efésios – para recapitular todo o mundo, nasceu como primogênito de muitos irmãos, nasceu para reunir o cosmo em si, de tal forma que Ele é a Cabeça de um grande Corpo. Onde nasce Cristo, inicia o movimento da recapitulação, inicia o movimento do chamado, da construção do seu corpo, da santa Igreja. A Mãe de Theós, a Mãe de Deus, é Mãe da Igreja, porque é Mãe d'Aquele que veio para reunir-nos todos no seu Corpo ressuscitado.

São Lucas faz-nos compreender esse paralelismo entre o primeiro capítulo do seu Evangelho e o primeiro capítulo dos Atos dos Apóstolos, que repetem sobre dois níveis o mesmo mistério. No primeiro capítulo do Evangelho, o Espírito Santo vem sobre Maria e assim dá à luz e nos dá o Filho de Deus. No primeiro capítulo dos Atos dos Apóstolos, Maria está ao centro dos discípulos de Jesus, que rezam todos juntos, implorando a efusão do Espírito Santo. E assim da Igreja fiel, com Maria no centro, nasce a Igreja, o Corpo de Cristo. Esse dúplice nascimento é o único nascimento do Christus totus, do Cristo que abraça o mundo e nós todos.

Nascimento em Belém, nascimento no Cenáculo. Nascimento de Jesus Menino, nascimento do Corpo de Cristo, da Igreja. São dois acontecimentos ou um único acontecimento. Mas entre os dois estão realmente a Cruz e a Ressurreição. E somente através da Cruz acontece o caminho rumo à totalidade do Cristo, rumo ao seu Corpo ressuscitado, na direção da universalização do seu ser na unidade da Igreja. E assim, tendo presente que somente do grão caído na terra surge, em seguida, a grande colheita, do Senhor perfurado sobre a Cruz surge a universalidade dos seus discípulos reunidos nesse seu Corpo, morto e ressuscitado.
Tendo em conta este nexo entre Theotókos e Mater Ecclesiae, o nosso olhar dirige-se ao último livro da Sagrada Escritura, o Apocalipse, onde, no capítulo 12, aparece exatamente essa síntese. A mulher vestida de sol, com doze estrelas sobre a cabeça e lua sob os pés, dá à luz. E dá à luz com um grito de dor, dá à luz com grande dor. Aqui o mistério mariano é o mistério de Belém alargado ao mistério cósmico. Cristo nasce sempre de novo em todas as gerações e, assim, assume, recolhe a humanidade em si mesmo. E esse nascimento cósmico realiza-se no grito da Cruz, na dor da Paixão. E a esse grito da Cruz pertence o sangue dos mártires.

Assim, neste momento, podemos lançar o olhar no segundo Salmo desta Hora Média, o Salmo 81, onde se vê uma parte desse processo. Deus está entre os deuses – ainda então considerados em Israel como deuses. Nesse Salmo, em uma grande concentração, em uma visão profética, vê-se o enfraquecimento dos deuses. Aqueles que pareciam deuses não são deuses e perdem o caráter divino, caem por terra. Dii estis et moriemini sicut nomine (cf. Sal 81, 6-7): o enfraquecimento, a queda da divindade.

Esse processo que se realiza no longo caminho da fé de Israel, e que é sintetizado em uma única visão, é um processo verdadeiro da história da religião: a queda dos deuses. E assim a transformação do mundo, o conhecimento do verdadeiro Deus, o enfraquecimento das forças que dominam a terra, é um processo de dor. Na história de Israel vemos como esse libertar-se do politeísmo, esse reconhecimento – "somente Ele é Deus" – realiza-se em meio a tantas dores, começando pelo caminho de Abraão, o exílio, os Macabeus, até Cristo, E na história continua esse processo de enfraquecimento, do qual fala o Apocalipse no capítulo 12; fala da queda dos anjos, que não são anjos, não são divindades sobre a terra. E realiza-se realmente, exatamente no tempo da Igreja nascente, onde vemos como, com o sangue dos mártires, são enfraquecidas as divindades, começando pelo imperador divino, todas estas divindades. É o sangue dos mártires, a dor, o grito da Mãe Igreja que lhes faz cair e transforma assim o mundo.

Essa queda não é somente o conhecimento de que esses não são Deus; é o processo de transformação do mundo, que custa o sangue, custa o sofrimento das testemunhas de Cristo. E, se vemos vem, percebemos que esse processo não acabou. Realiza-se nos diversos períodos da história de formas sempre novas; também hoje, neste momento, com a dor, o martírio das testemunhas. Pensamos nos grandes poderes da história de hoje, pensamos nos capitais anônimos que escravizam o homem, que não são mais algo do homem, mas são um poder anônimo ao qual os homens servem, pelos quais os homens são atormentados e até mesmo massacrados. São um poder destrutivo, que ameaçam o mundo. E, em seguida, o poder das ideologias terroristas. Aparentemente em nome de Deus é feita violência, mas não é Deus: são falsas divindades, que devem ser desmascaradas, que não são Deus. E, em seguida, a droga, esse poder que, como uma besta voraz, estende as suas mãos sobre todas as partes da terra e destrói: é uma divindade, mas uma divindade falsa, que deve cair. Ou também o modo de viver propagado pela opinião pública: hoje se faz assim, o matrimônio não conta mais, a castidade não é mais uma virtude, e assim por diante.

Essas ideologias que dominam, que se impõem com força, são divindade. E na dor dos santos, na dor dos fiéis, da Mãe Igreja, da qual nós somos parte, devem cair essas divindades, deve realizar-se o que diz a Carta aos Colossenses e aos Efésios: as dominações, os poderes caem e tornam-se súditos do único Senhor Jesus Cristo. Desta luta na qual nós estamos, deste enfraquecimento de deus, dessa queda dos falsos deuses, que caem porque não são divindade, mas poderes que destroem o mundo, fala o Apocalipse no capítulo 12, também com uma imagem misteriosa, da qual, parece-me, podem ser feitas diversas belas interpretações. É dito que o dragão coloca um grande rio de água contra a mulher em fuga para oprimi-la. E parece inevitável que a mulher seja afogada neste rio. Mas a boa terra absorve esse rio e ele não pode produzir danos. Eu penso que o rio seja facilmente interpretável: são essas correntes que dominam a todos e que desejam fazer desaparecer a fé da Igreja, a qual não parece mais ter lugar diante da força dessas correntes que se impõem como a única racionalidade, como único modo de viver. E a terra que absorve essas correntes é a fé dos simples, que não se deixa abater por esses rios e salva a Mãe e salva o Filho. Por isso o Salmo diz – o primeiro salmo da Hora Média – a fé dos simples é a verdadeira salvação (cf. Sal 118,130). Essa salvação verdadeira da fé simples, que não se deixa devorar pelas águas, é a força da Igreja. E então retornamos ao mistério mariano.

E há também uma última palavra no Salmo 81, "movebuntur omnia fundamenta terrae" (Sal 81,5), vacilam os fundamentos da terra. Percebemos isso hoje, com os problemas climáticos, como são ameaçados os fundamentos da terra, mas são ameaçados pelo nosso comportamento. Vacilam os fundamentos exteriores porque vacilam os fundamentos interiores, os fundamentos morais e religiosos, a fé da qual vem o reto modo de viver. E sabemos que a fé é o fundamento, e, definitivamente, os fundamentos da terra não podem vacilar se permanecem firmes a fé, a verdadeira salvação.

E, em seguida, o Salmo diz: "Levai-vos, Senhor, e julgai a terra" (Sal 81,8). Assim dizemos também nós ao Senhor: "Levantai-vos neste momento, tomai a terra entre as vossas mãos, protegei a vossa Igreja, protegei a humanidade, protegei a terra". E confiamo-nos de novo à Mãe de Deus, a Maria, e rezamos: "Vós, a grande fiel, vós que abristes a terra ao céu, ajudai-nos, abri também hoje as portas, para que seja vencedora a verdade, a vontade de Deus, que é o verdadeiro bem, a verdadeira salvação do mundo". Amém!

Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé
(tradução de Leonardo Meira - equipe CN Notícias)