quinta-feira, 24 de junho de 2010

Solenidade da Natividade de Sõa João Batista



João, o precursor do Senhor Jesus

“Foi-me dirigida a palavra do Senhor, dizendo: ‘ Antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci; antes de saíres do seio de tua mãe, eu te consagrei e te fiz profeta das nações” (Jr, 1- 4- 10 - 17 – 19)
A leitura do livro do profeta Jeremias, dá o tom da grande solenidade que a Santa Igreja hoje celebra. Dedicamos neste dia louvores, hinos, aclamações de alegria, aquele que foi o precursor do Senhor, o maior homem nascido de mulher, como diria mais tarde o próprio Jesus. A Igreja venera, respeita e quer aprender de João Batista o modo correto que devemos seguir Nosso Senhor.
A palavra de Deus na leitura do profeta Jeremias, nos fala sobre o grande dom do ser profeta do Senhor. Falando a Jeremias, Deus que tudo conhece e que perscruta os corações, revela aquilo que, de certo modo, era desconhecido pelo jovem Jeremias. Diz o Senhor: ‘ Antes de formar-te no ventre materno, eu te conheci; antes de saíres do seio de tua mãe, eu te consagrei e te fiz profeta das nações. ’ Deus já no ventre materno escolhera o profeta para ser o seu mensageiro entre os homens. O povo precisaria de uma voz em quem confiasse e, sendo o enviado do próprio Deus, o profeta tinha como característica primeira a realidade da eleição. O Senhor num ato de total liberdade escolhe quem Ele quer, na hora que quer, do jeito que quer. Deus não escolhe segundo as aparências humanas, como falará ao profeta Samuel, a respeito de Davi, mas o Senhor ‘olha o coração. ’ (I Sm 16- 7) O Senhor olha o coração puro do futuro rei de Israel; o Senhor olha o coração jovem e cheio de vida do futuro profeta Jeremias; o Senhor olha para o nosso pobre coração. Por quê? Talvez porque necessitemos dEle, porque sem Ele nada somos e nada podemos fazer.
Ao ouvir a palavra de Deus, o profeta sofre a tentação de dizer “não”. E as desculpas nessas horas não faltam. ‘Não sei falar... sou muito novo...’ Também em nossas vidas somos tentados a seguir o exemplo do profeta. Diante daquilo que Deus nos pede, somos impelidos pelas tendências da falta de responsabilidade, do não se importar com aquilo que o Senhor deseja para nossas vidas. É cômodo inventar desculpas, dizer que sou muito tímido, de que não tenho jeito para trabalhar na catequese, de que não sou formado em Teologia para poder coordenar um grupo de Circulo Bíblico, de que sou inexperiente para ajudar no grupo de Crisma da minha paróquia... Desculpas, desculpas e mais desculpas. E quando assim procedemos, perdemos a oportunidade de ouvir do Senhor, as palavras que modificam tudo ao nosso redor: “Não digas que és muito novo; a todos a quem eu te enviar irás, e tudo que eu te mandar dizer, dirás. Não tenhas medo deles, pois estou contigo para defender-te diz o Senhor” Diante de tal promessa, todas as desculpas se vão pelos ares, pois o Senhor que chama e envia para a missão, também é o mesmo que capacita e fortalece aqueles a quem ele mesmo chamou para o cumprimento da missão.
Aquilo que atribuímos ao profeta Jeremias, com toda propriedade atribuímos também a João Batista. Desde o ventre materno, o Senhor já o tinha escolhido para ser o precursor do Messias, de modo que dos profetas João seria o ultimo e ao mesmo tempo o primeiro. O primeiro e ultimo, pois como nos diz Santo Agostinho: “João apareceu como ponto de encontro entre os dois testamentos. Ele representa o antigo e anuncia o novo.” Por que representa o antigo? ‘ pois nasce de pais idosos’ e por que anuncia o novo? ‘ porque é declarado profeta ainda estando nas entranhas da mãe. ’ João prepara o caminho do Senhor com a voz que clama no deserto, implorando ao povo que se converta e acolha o Messias esperado. Em nossos dias também, o clamor de João chega aos nossos ouvidos, nós homens e mulheres do tempo presente. João grita pela conversão de nossos corações que tantas vezes procuraram compensações naquilo que a sociedade moderna oferece; o luxo, o prazer desmedido, o consumismo excessivo, as ideologias que nos levam as ruínas e nos deixam nos abismos da ignorância; as facilidades em ter, poder, querer, desvirtuando assim as nossas mentes daquilo que é essencial para o acidental. Numa sociedade que presa o culto pelo corpo, pela vaidade desmedida, pelo sexo libertino, desaparecem os valores que outrora eram sagrados como, por exemplo, o valor sagrado da vida humana. Hoje na mentalidade libertina, o valor da pessoa ficou para segundo plano, o que importa mesmo é obter o prazer sem compromisso com nada; a “onda” é se divertir, curtir a vida sem repressão, de modo que todos consigam ser feliz na sua própria maneira. Uma sociedade que despreza a vida é uma sociedade fadada à morte. Uma sociedade que presa pela libertinagem, é uma sociedade vazia de sentido que busca no ato sexual compensações que supram a carência afetiva que, infelizmente, assola o homem de nosso tempo. Por fim, uma sociedade sem Deus é uma sociedade que perdeu completamente o rumo da direção e se esqueceu de suas origens, e em suas origens encontramos Aquele que tudo criou e formou. João Batista ainda hoje, nos interpela com suas palavras exortativas, sobre a necessidade de prepararmos o nosso coração para recebermos o Senhor. Se em nossas vidas o mundo tem vez, dificilmente encontraremos espaço para que Deus em nós; ou pertencemos a Ele, ou pertencemos ao mundo.
Como modelo de vocação, João nos ajuda a compreender um pouco o sentido de toda vocação cristã. A Igreja nos ensina que pelo batismo recebemos o espírito de sacerdotes, profetas e reis. Como sacerdotes somos convidados a apresentar ao Pai, pelo Filho na força do Espírito Santo, os nossos sacrifícios espirituais. Diante do altar, sobretudo, na Divina Liturgia somos chamados a entregar a Deus tudo àquilo que temos como oferta de suave odor para que, associados ao sacrifício da Cruz, possamos também nós, colher os frutos de nossa ação sacerdotal na Igreja. O espírito profético nos coloca diante da eterna missão de todo cristão: anunciar e denunciar. O evangelho precisa ser anunciado, levado a todos os cantos da terra por todos aqueles que fizeram uma experiência com a Palavra eterna de Deus, que gera vida e renova tudo o que era velho, que passa por nós e sempre nos deixa um sinal de amor infinito e nos vocaciona a sermos fiéis dispensadores desta mesma Palavra. O profeta anuncia o Senhor e denuncia tudo que se opõe ao Senhor. Grita forte contra as injustiças, defende o pobre, ampara a viúva e o órfão, estende a mão a quem precisa, acolhe o marginalizado vendo nele a pessoa do próprio Cristo, recebe de Deus a força necessária para que sua voz seja ouvida em todo o mundo.
Ao celebrarmos João Batista, somos convidados a nunca temermos diante dos desafios da vida, mesmo diante dos “Herodes” que tentam cortar nossas cabeças. Caminhamos na certeza da promessa feita por Deus de que sempre estaria ao nosso lado, sendo o nosso protetor, o nosso guia, o nosso pastor.
“Toma-me, Senhor, por inteiro e faz aquilo que queres em minha vida, mesmo que aquilo que tu queres, seja o contrário de minha vontade. Espero em ti e sei que não me decepcionarás, pois tu nunca falhas, és sempre o mesmo ontem, hoje e sempre! Por isso em tuas mãos entrego minha vida, minha família, meus amigos e tudo o que tenho. Realizas, Senhor, em minha vida a tua obra de salvação e ajuda-me a ser um homem consagrado totalmente a ti.”

Que a Santa Liturgia de hoje, nos ajude nesta caminhada cristã para que possamos ter o mesmo espírito que inspirou João a ser o profeta do ‘prepar-se’ os caminhos para o encontro com o Senhor. Que ele, através de sua intercessão, aplaine os nossos caminhos tortuosos, retire as pedras do nosso peito e torne nosso caminho direito, para que sejamos propícios ao Senhor.
São João Batista, rogai por nós.

Sem. Rafael Viana Lima
II ano de Filosofia do Seminário Arquidiocesano de São José

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A piedade cristã (Cardeal Dom Eugênio de Araújo Sales)



Várias são as maneiras de revelar sentimentos como também de transmitir conceitos. Assim o símbolo é uma espécie de linguagem viva, meio de comunicação entre os homens. Sempre existiu e existirá.

Neste mês de junho, a piedade cristã dedica especial atenção ao Sagrado Coração de Jesus. No plano natural, esse órgão significa um centro, algo de essencial, cuja destruição redunda necessariamente na morte do ser criado. Além disso, ele mostra a índole do indivíduo: ódio ou amor, coragem ou covardia, vingança ou perdão. Essa concepção está subtendida quando falamos da devoção a que nos referimos. Nos domínios da Fé, descobre o extraordinário tesouro da bondade divina que é manifestada na vida do Redentor.

Nas famílias, locais de trabalho, estudo e lazer, nas cidades, cresce de forma angustiante a necessidade de ser valorizada a convivência humana, sua importância em favor do bem-estar coletivo.

Os conceitos de generosidade, dignidade, nobreza são indispensáveis ao relacionamento entre pessoas. Eles brotam de um coração bem formado, simbolizado por este órgão vital. Os maiores crimes podem ter origem em uma inteligência brilhante, jamais um caráter ilibado induz alguém ao mal.

Algum tempo atrás, foi noticiado um fato que revela o grau de insensibilidade moral e o nivelamento aos irracionais, com seus instintos mais aviltantes. Um jovem doente ameaçava jogar-se do alto de um edifício. Logo formou-se uma pequena multidão. Em um grupo, havia desaparecido os sentimentos mais nobres, pois açulava, estimulava o pobre enfermo a praticar o suicídio que, aliás, veio a acontecer. E alguns bateram palmas.

Cada um desses participantes responde, em parte, diante de Deus, por essa morte. Eles manifestaram algo de profundamente negativo. Tal ocorrência, bastante deprimente, nos deve questionar como membros desta comunidade. Faz-nos também refletir sobre esta passagem da Sagrada Escritura: “Tirarei de vosso corpo o coração de pedra e vos darei um outro de carne” (Ez 36,27). Somente assim muitos problemas poderão ser resolvidos.

No plano sobrenatural, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus abre grandes perspectivas ao crescimento religioso. São João, em seu evangelho (19,34) registra um fato que vem revelar a fonte da vida: “Um soldado transpassou o lado com a lança e no mesmo instante saiu sangue e água”.

No Antigo Testamento, Isaías (12,3) explica a origem de sua confiança e tranquilidade: “com alegria tirareis água das fontes da salvação”. Sendo esse líquido indicativo da existência e vitória sobre a morte, Ezequiel (47,9) prevê o tempo em que Deus fará jorrar torrentes capazes de garantir a sobrevivência de todos os seus filhos. Dentro desse contexto bíblico, São João, no texto acima citado, nos quer ensinar que o Redentor é o verdadeiro manancial. Pela sua crucifixão fez surgir a salvação do mundo.

Do mais íntimo do seu ser vem a manifestação do amor de Jesus. A lança abre o símbolo visível dos sentimentos que levaram o Salvador a morrer por nós. Amou-nos até ao sacrifício supremo para que vivêssemos eternamente.

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus não se limita apenas a uma parte de Seu corpo. Ela anuncia no filho da Virgem um homem concreto, vivendo em um período da História. Confessamos sua angústia, seu afeto, sua fidelidade ao plano redentor, proclamamos a raiz da Missão Salvífica. Essa prática espiritual nos introduz na profunda e incomparável intimidade do Verbo com o Pai. Cristo se doou integralmente. A obediência que O levou ao Calvário não enfraqueceu esse laço de união: “substancialmente vive a plenitude de Deus” (Cl 2,9).

Em uma época de tanto egoísmo, é frutuoso perscrutar a personalidade singular do Mestre. Ele é solidário com os homens mesmo que sua dedicação resulta em fracasso. E da íntima comunhão com quem o enviou adquire forças e grandeza para orar pelos que o ultrajam e matam (Lc 23,34).

Essa veneração é extraordinariamente rica para nós, pois o sinal nos fala do nosso perdão, do sangue derramado para nos remir. Recorda ainda o centro do Universo.

A ciência dos homens e a vaidade dos cristãos que se julgam doutos, jamais poderão perceber as belezas de atos religiosos aparentemente plenos de simplicidade.

Deus se revela aos pequenos e entre eles, principalmente, estão os devotos do Sagrado Coração de Jesus. Com Sua entronização nos lares, o Apostolado da Oração, o novenário, as festas piedosas fazem mais pela Igreja que muitos instruídos, pois, no Coração aberto pela lança, veneram e adoram o amor do Pai, que entregou por nós Seu próprio Filho para que pudéssemos viver (cf. Rm 8,31-34). Outorgou com esta doutrina o segredo de ordenar este mundo tão cruel por estar distanciado do Evangelho. Abriu perspectivas eternas a todos os seus filhos. Além disso, com o insistente apelo a aceitar seu jugo, que é suave e seu peso que é leve (Mt 11,28), nos proporcionou os meios para que possamos atingir a fonte da água viva.

Fonte: http://www.arquidiocese.org.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm

“Contribuição do Papa à Liturgia vem de seu ensinamento e magistério”, diz Mons. Guido Marini( Mestre de Cerimônias de Sua Santidade Bento XVI)




Na semana em que se conclui em Roma o Ano Sacerdotal convocado pelo Papa, Gaudium Press traz uma entrevista exclusiva sobre o tema com Dom Guido Marini, Mestre das Celebrações Litúrgicas do Papa, realizada por Anna Artymiak, correspondente da agência no Vaticano.

Nela, o responsável pela liturgia do missal do Santo Padre fala, ainda, sobre seu trabalho junto ao pontífice, sobre as mudanças litúrgicas ocorridas nos últimos anos e sobre o surgimento de sua vocação sacerdotal. Acompanhe.


Gaudium Press - Na Igreja Católica se conclui o Ano Sacerdotal. Qual é o real significado da celebração litúrgica da missa e da Eucaristia na vida de um sacerdote?

Creio que uma celebração litúrgica em geral, e em particular a celebração da missa, seja o centro, o coração da vida de um sacerdote, seja do ponto de vista pessoal, seja do ponto de vista do seu ministério em meio ao povo de Deus. Do ponto de vista pessoal, porque a vida de um sacerdote é como a de um fiel; porém a sua em particular ganha plenitude a partir da celebração litúrgica, da missa. Poderíamos dizer que toma a forma do sacrifício eucarístico porque nisso o sacerdote aprende o que significa ser Jesus entre o seu povo. Por outro lado, na celebração eucarística o sacerdote encontra também o centro e o coração para a sua vida ministerial, seja porque a missa é o ato maior que o sacerdote pode realizar em favor do povo que lhe foi confiado, portanto, em favor da Igreja, e também porque justamente da participação na celebração litúrgica, na missa, na Eucaristia, o sacerdote encontra a caridade do coração do Senhor, e portanto, o estímulo para cumprir sua missão, seu ministério.

GP - O senhor dá assistência ao Santo Padre em todas as celebrações. Como Bento XVI vive a oração e a missa?

Sim, tenho essa graça de poder estar muito perto dele e portanto, de poder vê-lo também muito de perto. Creio, por outro lado, que também todos aqueles que estão presentes na celebração do Papa possam perceber alguns aspectos do seu modo de celebrar. Certamente o Papa vive, no momento da celebração, o momento mais alto, mais importante de seu próprio ministério enquanto Sumo Pontífice. Pessoalmente pode-se vê-lo sempre muito recolhido durante a missa, partícipe em primeira pessoa daquilo que está celebrando, daquilo que está vivendo. Creio que poder estar presente em uma celebração do Papa, para todos, para mim em modo particular visto que estou muito próximo a ele, é uma verdadeira escola do celebrar - como o Papa diria, do "ars celebrandi". Creio que o Papa seja um mestre no "ars celebrandi".
GP - O então Cardeal Ratzinger escreveu um famoso livro sobre a liturgia, "Introdução ao espírito da Liturgia", que ajuda a entender melhor o empenho de Bento XVI no desenrolar da liturgia. Qual é a contribuição de Bento XVI na liturgia no nosso tempo pós-conciliar?

Creio que a contribuição que Bento XVI deu e está dando à liturgia, porque conhece cada primeiro desenvolvimento, é cada vez mais significativamente em linha com o Concílio Vaticano II, ao mesmo tempo a continuidade com toda a grande tradição litúrgica da Igreja, e através de dois níveis. Através de seu ensinamento, o seu magistério neste âmbito litúrgico, e depois através do exemplo de seu celebrar que diz respeito a São Pedro, Roma, mas diz respeito também aos momentos inteiros, também das virtudes das celebrações do Papa nos vários países que visita. Parece-me que os dois grandes atos do magistério sejam de um lado o motu próprio, de grande importância pelos seus conteúdos e pelas avaliações que o Papa apresentou, e de outro a exortação pós-sinodal sobre a Eucarisita, aquela que se seguiu ao Sínodo sobre a Eucaristia, "Sacramentum caritatis". E também, repito, o exemplo de sua celebração, na qual é possível encontrar tantos elementos que realmente são uma ajuda de desenvolvimento orgânico da liturgia na Igreja de hoje.

GP - Há quase três anos o senhor é encarregado como Mestre das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice. O senhor introduziu algumas mudanças, como por exemplo a colocação do crucifixo no centro do altar e a distribuição da Eucaristia de joelhos colocada na boca. Por quê? No início deste ano, em uma fala sua aos sacerdotes, o senhor disse que há uma continuação na liturgia e que é errado separar a liturgia pré-conciliar daquela pós-conciliar. Como é possível entender essas mudanças? Essas mudanças são um retorno ou significam algo mais?

Falar de liturgia pré-conciliar, pós-conciliar é possível. O importante é que esse modo de falar não seja entendido como uma separação e, assim, ver que o que era antes é negativo e o que vem depois é positivo. Porque esta não é a vida da Igreja. A vida da Igreja é como um organismo vivo que não pode ser separado, quebrado, mas deve ser sempre considerado justamente segundo aquele critério que o Papa cita tantas vezes, um desenvolvimento orgânico em continuidade de sua vida. Istoé no que concerne à terminologia. E então, na prática da liturgia, se deve viver a contraposição entre o passado e o presente. Nós temos um patrimônio enorme que está no nosso passado porque ainda vive, que vive também no mundo. O fato que possam existir alguns aspectos que recuperam as coisas do patrimônio precedente não significa um retorno ao passado, significa mais encontrar uma nova síntese, justamente porque coloca lado a lado novamente alguns elementos importantes, verdadeiros do passado, que fazem dar um passo à frente no desenvolvimento da liturgia.

GP - Bento XVI restituiu a missa tridentina. Um dia podemos ver o Papa celebrar a missa tridentina?

Isto eu não sei dizer. Não creio que neste momento haja intenções a esse respeito. Penso que no momento em que o Papa deu esta oportunidade, estendendo-a e de fato a retomando, desenvolvendo o que João Paulo II já havia concedido um pouco, foi de certa forma para criar um movimento de reconciliação dentro da Igreja. De forma que o antigo e o novo não se olhem com suspeita, contraposição, mas se olhem com cordialidade, pensando que ambas as formas podem contribuir para que o povo de Deus viva bem a celebração litúrgica. Por outro lado, creio que o Santo Padre desta maneira tente favorecer o enriquecimento das duas formas. Porque a forma antiga, extraordinária certamente pode ser enriquecida de forma ordinária. E a forma ordinária, enriquecida de forma extraordinária. Esse recíproco enriquecimento no tempo constitui o próprio desenvolvimento orgânico da Igreja.
GP - Como é o cotidiano do Mestre das Celebrações Litúrgicas? Quais são seus compromissos? Poderia nos apresentar um pouco o seu trabalho?

É um dia geralmente ocupado, no sentido que o trabalho deste departamento é um trabalho contínuo de preparar, predispor, cuidar do desenrolar de todas as celebrações do Papa, seja em São Pedro, em Roma, na Itália, seja nas viagens ao exterior. Se passa de uma celebração a outra. Depois, é verdade que há algumas celebrações que entram na dimensão mais simples, mas que precisam também ser preparadas, porém em modo mais tranquilo. Enquanto isso, são celebrações mais elaboradas, porque fora do ordinário, as celebrações das viagens ao exterior. Essas requerem uma preparação mais acurada, também mais longa. O trabalho do departamento é um trabalho cotidiano que diz respeito ao departamento como edifício. Quer dizer também ir aos lugares antecipadamente para uma vistoria, para os ensaios, para a preparação. Então diria que é um trabalho que ocupa total e integralmente o meu tempo e de meus colaboradores.
GP - Como nasceu a sua vocação sacerdotal e o seu interesse na liturgia?

A minha vocação está no coração do Senhor desde sempre. Eu comecei a sentir a vocação quando estava no ensino médio, o liceu clássico. De um lado este sentir a vocação foi um processo interior que vivi naqueles anos e que certamente me ajudou, apoiado pela presença de alguns sacerdotes que foram para mim exemplares e que me ajudaram também a entender o chamado do Senhor. Devo dizer que vivi a vocação sacerdotal como uma passagem de uma vida de fé um pouco em água de rosas à uma vida de fé que é mais empenhada, mas esta passagem coincidiu justamente com o sentir que o Senhor me chamava para o sacerdócio. Logo vivi uma experiência de fé, aquele encontro com o Senhor neste modo mais radical, principalmente através da liturgia. Esse foi um momento privilegiado do meu encontro com o Senhor, da minha compreensão de sua vontade em mérito.

Anna Artymiak, entrevista Mons. Guido Marini, Mestre de Cerimônias do Papa Bento XVI
site http://www.gaudiumpress.org/view/show/16635

Catequese do Papa Bento sobre Santo Tomás de Aquino.




Queridos irmãos e irmãs,

hoje desejo continuar a apresentação de São Tomás de Aquino, um teólogo de tal valor que o estudo de seu pensamento foi explicitamente recomendado pelo Concílio Vaticano II em dois documentos, o decreto Optatam totius, sobre a formação ao sacerdócio, e a declaração Gravissimum educationis, que trata da educação cristã. Além disso, já em 1880 o Papa Leão XII, grande apreciador e promotor dos estudo tomísticos, quis declarar São Tomás Patrono das Escolas e Universidades Católicas.

O motivo principal deste apreço reside não somente no conteúdo de seu ensinamento, mas também no método por ele adotado, sobretudo a sua nova síntese e distinção entre filosofia e teologia. Os Padres da Igreja encontravam-se confrontados por diversas filosofias de tipo platônico, nas quais apresentava-se uma visão abrangente do mundo e da vida, incluindo a questão de Deus e da religião. No confronto com essas filosofias, eles mesmos haviam elaborado uma visão abrangente da realidade, partindo da fé e usando elementos do platonismo, para responder às questões essenciais dos homens. A essa visão, baseada sobre a revelação bíblica e elaborada com um platonismo correto à luz da fé, eles chamavam de "filosofia nostra". A palavra "filosofia" não era então expressão de um sistema puramente racional e, como tal, distinto da fé, mas indicava uma visão complexa da realidade, construída à luz da fé, mas tornada própria e pensada pela razão; uma visão que, certamente, ia além das capacidades próprias da razão, mas que, como tal, era também por ela satisfeita. Para São Tomás, o encontro com a filosofia pré-cristã de Aristóteles (morto cerca de 322 a.C.) abria uma perspectiva nova. A filosofia aristotélica era, obviamente, uma filosofia elaborada sem conhecimento do Antigo e do Novo Testamento, uma explicação do mundo sem a revelação, através da pura razão. E esta racionalidade consequente era convincente. Assim, a antiga forma da "filosofia nostra" dos Padres não funcionava mais. A relação entre filosofia e teologia, entre fé e razão, tinha de ser repensada. Existia uma "filosofia" completa e convincente em si mesma, uma racionalidade precedente à fé, e, também, a "teologia", um pensar com a fé e na fé. A questão premente era esta: o mundo da racionalidade, a filosofia pensada sem Cristo, e o mundo da fé são compatíveis? Ou se excluem um ao outro? Não faltavam elementos que afirmavam a incompatibilidade entre os dois mundos, mas São Tomás esta firmemente convencido da sua compatibilidade - também que a filosofia elaborada sem o conhecimento de Cristo quase que esperava a luz de Jesus para ser completa. Essa foi a grande "surpresa" de São Tomás, que determinou o seu caminho como pensador. Mostrar esta independência entre a filosofia e a teologia e, ao mesmo tempo, a sua recíproca relacionalidade foi a missão histórica do grande mestre. E, assim, entendemos que, no século XIX, quando se declarava fortemente a incompatibilidade entre a razão moderna e a fé, o Papa Leão XIII tenha indicado São Tomás como um guia para o diálogo entre uma e outra. Em seu trabalho teológico, São Tomás supõe e concretiza esta relação. A fé consolida, integra e ilumina o patrimônio da verdade que a razão humana adquire. A confiança que São Tomás dispensa a estes dois instrumentos de conhecimento - a fé e a razão - pode ser atribuída à convicção de que ambos provêm da única fonte de toda a verdade, o Logos divino, que atua seja no âmbito da criação, seja no da redenção.

Juntamente com o acordo entre a razão e a fé, deve-se reconhecer, por outro lado, que elas se utilizam de processos cognitivos diferentes. A razão acolhe uma verdade por força de sua evidência intrínseca, mediata ou imediata; a fé, contudo, aceita uma verdade com base na autoridade da Palavra de Deus que se revela. Escreve São Tomás no início de sua Summa Theologiae: "Há dois gêneros de ciências. Umas partem de princípios conhecidos à luz natural do intelecto, como a aritmética, a geometria e semelhantes. Outras provêm de princípios conhecidos mediante uma ciência superior; como a perspectiva, de princípios explicados na geometria, e a música, de princípios aritméticos. E deste modo é ciência a doutrina sagrada (isto é, a teologia), pois deriva de princípios conhecidos à luz de uma ciência superior, a saber: a de Deus e dos santos"(I, q. 1, a. 2).

Essa distinção assegura a autonomia tanto das ciências humanas, quanto das ciências teológicas. Isso, no entanto, não equivale à separação, mas implica, acima de tudo, uma mútua e benéfica cooperação. A fé, de fato, protege a razão de toda a tentação de desconfiança nas próprias capacidades, a incentiva a se abrir a horizontes sempre mais amplos, mantém viva a busca dos fundamentos e, quando a razão mesma é aplicada na esfera sobrenatural do relacionamento entre Deus e o homem, enriquece o seu trabalho. Segundo São Tomás, por exemplo, a razão humana pode definitivamente iniciar a afirmação da existência de um único Deus, mas somente a fé, que acolhe a Revelação divina, é capaz de alcançar o mistério do Amor de Deus Uno e Trino.

Por outro lado, não é somente a fé que ajuda a razão. Também a razão, com os seus meios, pode fazer algo de importante pela fé, tornando-se um tríplice serviço que São Tomás resume no prefácio de seu comentário ao De Trinitate de Boezio: "Demonstrar os fundamentos da fé; explicar mediante semelhanças a verdade da fé; rejeitar as objeções que se levantam contra a fé" (q. 2, a. 2). Toda a história da teologia é, no fundo, o exercício desse esforço de inteligência, que mostra a inteligibilidade da fé, a sua articulação e harmonia interna, a sua racionalidade e a sua capacidade de promover o bem-estar humano. A exatidão dos raciocínios teológicos e o seu real significado cognitivo são baseados no valor da linguagem teológica, que é, de acordo com São Tomás, principalmente uma linguagem analógica. A distância entre Deus, o Criador, e o ser das suas criaturas é infinita; a dessemelhança é sempre maior que a semelhança (cf. DS 806). No entanto, em toda a diferença entre Criador e criatura, existe uma analogia entre o ser criado e o ser do Criador, que nos permite falar com palavras humanas sobre Deus.

São Tomás estabeleceu a doutrina da analogia, bem como, com base em argumentos puramente filosóficos, também o fato de que com a Revelação Deus mesmo falou a nós e, portanto, nos autorizou a falar d'Ele. Considero importante chamar atenção para esta doutrina. Essa, de fato, nos ajuda a superar algumas objeções do ateísmo contemporâneo, que nega que a linguagem religiosa seja fornecida com um significado objetivo, e sustenta, ao contrário, que tenha apenas um valor subjetivo ou simplesmente emotivo. Essa objeção decorre do fato de que o pensamento positivista está convencido de que o homem não conhece o ser, mas somente as funções experimentáveis da realidade. Com São Tomás e com a grande tradição filosófica, estamos convencidos de que, na realidade, o homem não conhece apenas as funções, objeto das ciências naturais, mas conhece algo do próprio ser - por exemplo, conhece a pessoa, o Tu do outro, e não apenas o aspecto físico e biológico do seu ser.

À luz desse ensinamento de São Tomás, a teologia afirma que, embora limitada, a linguagem religiosa é dotada de sentido - porque tocamos o ser -, como uma flecha que se dirige a uma realidade que significa. Esse acordo fundamental entre razão humana e fé cristã é identificado em outro princípio básico do pensamento de Tomás de Aquino: a Graça divina não anula, mas supõe e aperfeiçoa a natureza humana. Essa última, de fato, também após o pecado, não está completamente corrompida, mas ferida e enfraquecida. A Graça, concedida por Deus e comunicada através do Mistério do Verbo encarnado, é um dom absolutamente gratuito com o qual a natureza é curada, fortalecida e ajudada a perseguir o desejo inato no coração de todo o homem e toda a mulher: a felicidade. Todas as faculdades do ser humano são purificadas, transformadas e elevadas pela Graça divina.

Uma importante aplicação desta relação entre natureza e Graça encontra-se na teologia moral de São Tomás de Aquino, que mostra-se de grande atualidade. No centro de seu ensinamento neste campo, ele coloca a nova lei, que é a lei do Espírito Santo. Com um olhar profundamente evangélico, insiste no fato de que esta lei é a Graça do Espírito Santo, dada a todos aqueles que creem em Cristo. A tal Graça une-se o ensinamento escrito e oral das verdades doutrinais e morais, transmitidas pela Igreja. São Tomás, sublinhando o papel fundamental, na vida moral, da ação do Espírito Santo, da Graça, para cultivar as virtudes teologais e morais, nos faz entender que todo o cristão pode alcançar as altas perspectivas do "Sermão da Montanha" se vive uma relação autêntica de fé em Cristo, se se abre à ação de seu Santo Espírito. Mas - acrescenta o Aquinense - "também se a graça é mais eficaz que a natureza, todavia a natureza é mais essencial para o homem" (Summa Theologiae Ia, q. 29, a. 3), pelo que, na perspectiva moral cristã, há um lugar para a razão, a qual é capaz de discernir a lei moral natural. A razão pode reconhecê-la considerando o que é bom e o que deve-se evitar para alcançar aquela felicidade que é desejada por todos, e que impõe também uma responsabilidade para com os outros, e, portanto, a busca do bem comum. Em outras palavras, as virtudes humanas, teologais e morais, estão enraizadas na natureza humana. A Graça divina acompanha, sustenta e incentiva o compromisso ético, mas, de per si, segundo São Tomás, todos os homens, crentes e não crentes, são chamados a reconhecer as exigências da natureza humana expressas na lei natural e a se inspirar nela para a formulação das leis positivas, isto é, aquelas emanadas pelas autoridades civis e políticas para regular a convivência humana.

Quando a lei natural e as responsabilidades que implica são negadas, abre-se dramaticamente o caminho para o relativismo ético no plano individual e ao totalitarismo do Estado no plano político. A defesa dos direitos universais do homem e a afirmação do valor absoluto da dignidade da pessoa postulam um fundamento. Não é exatamente a lei natural este fundamento, com os valores não negociáveis que indica? O Venerável Papa João Paulo II escreveu na sua Encíclica Evangelium Vitae palavras que permanecem de grande atualidade: "Para bem do futuro da sociedade e do progresso de uma sã democracia, urge, pois, redescobrir a existência de valores humanos e morais essenciais e congênitos, que derivam da própria verdade do ser humano, e exprimem e tutelam a dignidade da pessoa: valores que nenhum indivíduo, nenhuma maioria e nenhum Estado poderão jamais criar, modificar ou destruir, mas apenas os deverão reconhecer, respeitar e promover" (n. 71).

Em conclusão, Tomás nos propõe um conceito da razão humana amplo e confiante: amplo porque não é limitado aos espaços da assim chamada razão empírico-científica, mas aberto a todo o ser e, portanto, também às questões fundamentais e irrenunciáveis do viver humano; e confiante porque a razão humana, especialmente se acolhe as inspirações da fé cristã, é promotora de uma civilização que reconhece a dignidade da pessoa, a intangibilidade de seus direitos e a irrefutabilidade de seus deveres. Não surpreende que a doutrina acerca da dignidade humana, fundamental para o reconhecimento da inviolabilidade dos direitos humanos, tenha sido amadurecida no ambiente de pensamento que recolheu o legado de São Tomás de Aquino, que tinha um conceito altíssimo da criatura humana. A define, com a sua linguagem rigorosamente filosófica, como "o que há de mais perfeito em toda a natureza, isto é, um sujeito subsistente em uma natureza racional" (Summa Theologiae, Ia, q. 29, a. 3).

A profundidade do pensamento de São Tomás de Aquino surge - não o esqueçamos nunca - da sua fé e da sua devoção fervorosa, que expressava em orações inspiradas, como esta em que pede a Deus: "Concede-me, te peço, uma vontade que te busque, uma sabedoria que te encontre, uma vida que te apraza, uma perseverança que espera em ti com confiança e uma confiança que ao final chegue a possuir-te".

sábado, 19 de junho de 2010

"O mistério do Sábado Santo". (Papa Bento XVI)



Queridos amigos!
Para mim, este é um momento muito esperado. Estive diante do Santo Sudário noutras ocasiões, mas desta vez vivo esta peregrinação e esta reflexão com intensidade particular: talvez porque o passar dos anos me torna ainda mais sensível à mensagem deste extraordinário Ícone; talvez, diria sobretudo, porque estou aqui como Sucessor de Pedro e trago no meu coração toda a Igreja, aliás, toda a humanidade. Dou graças a Deus pelo dom desta peregrinação e também pela oportunidade de partilhar convosco uma breve meditação, que me foi sugerida pelo subtítulo desta solene Ostensão: "O mistério do Sábado Santo".
Pode-se dizer que o Sudário é o Ícone deste mistério, o Ícone do Sábado Santo. De facto, é um lençol sepulcral, que envolveu o corpo de um homem crucificado totalmente correspondente a quanto os Evangelhos nos dizem de Jesus, o qual, crucificado por volta do meio-dia, expirou aproximadamente às três da tarde. Ao anoitecer, porque era Parasceve, isto é a vigília do sábado solene de Páscoa, José de Arimateia, um rico e competente membro do Sinédrio, pediu corajosamente a Pôncio Pilatos para poder sepultar Jesus no seu sepulcro novo, que tinha sido escavado na rocha a pouca distância do Gólgota. Ao obter a autorização, comprou um lençol e, deposto o corpo de Jesus da cruz, envolveu-o com o lençol e colocou-o naquele túmulo (cf. Mc 15, 42-46). Assim refere o Evangelho de Marcos, e com ele concordam os outros Evangelistas. A partir daquele momento, Jesus permeneceu no sepulcro até ao alvorecer do dia seguinte que era sábado, e o Sudário de Turim oferece-nos a imagem de como era o seu corpo estendido no túmulo durante aquele tempo, que foi breve cronologicamente (cerca de um dia e meio), mas imenso, infinito no seu valor e significado.
O Sábado Santo é o dia do escondimento de Deus, como se lê numa antiga Homilia: "O que aconteceu? Hoje sobre a terra há um grande silêncio, grande silêncio e solidão. Grande silêncio porque o Rei dorme... Deus morreu na carne e desceu para abalar o reino dos infernos" (Homilia sobre o Sábado Santo, pg 43, 439). No Credo, nós professamos que Jesus Cristo "padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia".
Queridos irmãos, no nosso tempo, especialmente depois de ter atravessado o século passado, a humanidade tornou-se particularmente sensível ao mistério do Sábado Santo. O escondimento de Deus faz parte da espiritualidade do homem contemporâneo, de maneira existencial, quase inconsciente, como um vazio no coração que se foi alargando cada vez mais. No final do século XIX, Nietzsche escreveu: "Deus está morto! E quem o matou fomos nós!". Esta célebre expressão, observando bem, é tomada quase ao pé da letra da tradição cristã, frequentemente a repetimos na Via-Sacra, talvez sem nos darmos conta plenamente do que dizemos. Depois de duas guerras mundiais, os lager e os gulag, Hiroshima e Nagasaki, a nossa época tornou-se um Sábado Santo em medida cada vez maior: a escuridão desse dia interpela todos os que se questionam sobre a vida, de modo particular interpela a nós, crentes. Também nós somos responsáveis por esta escuridão.
E, no entanto, a morte do Filho de Deus, de Jesus de Nazaré tem um aspecto oposto, totalmente positivo, fonte de consolação e de esperança. Isto faz-me pensar no facto de que o Santo Sudário se comporta como um documento "fotográfico", dotado de um "positivo" e de um "negativo". Com efeito, é exactamente assim: o mistério mais obscuro da fé, ao mesmo tempo, é o sinal mais luminoso de uma esperança que não tem confim. O Sábado Santo é a "terra de ninguém" entre a morte e a ressurreição, mas nesta "terra de ninguém" entrou Um, o Único, que a atravessou com os sinais da sua Paixão pelo homem: "Passio Christi. Passio hominis". O Sudário fala-nos precisamente deste momento, está a testemunhar aquele intervalo único e irrepetível na história da humanidade e do universo, no qual Deus, em Jesus Cristo, partilhou não só o nosso morrer, mas inclusive o nosso permanecer na morte. A solidariedade mais radical.
Naquele "tempo-além-do-tempo" Jesus Cristo "desceu à mansão dos mortos". O que significa esta expressão? Quer dizer que Deus, feito homem, chegou até ao ponto de entrar na solidão extrema e absoluta do homem, onde não chega raio de amor algum, onde reina o abandono total sem palavra de conforto alguma: "mansão dos mortos". Jesus Cristo, permanecendo na morte, ultrapassou a porta desta solidão última para nos guiar também a nós a ultrapassá-la com Ele. Todos nós sentimos algumas vezes uma sensação assustadora de abandono, e o que mais nos assusta é precisamente isto, como quando somos crianças, temos medo de estar sozinhos no escuro e só a presença de uma pessoa que nos ama pode dar-nos segurança. Aconteceu exactamente isto no Sábado Santo: no reino da morte ressoou a voz de Deus. Sucedeu o impensável: ou seja, que o Amor penetrou "na mansão dos mortos": também no escuro extremo da solidão humana mais absoluta nós podemos escutar uma voz que nos chama e encontrar alguém que nos pega pela mão e nos conduz para fora. O ser humano vive porque é amado e pode amar; e se até no espaço da morte penetrou o amor, então também lá chegou a vida. Na hora da extrema solidão nunca estaremos sozinhos: "Passio Christi. Passio hominis".
Este é o mistério do Sábado Santo! Exactamente do escuro da morte do Filho de Deus brilhou a luz de uma esperança nova: a luz da Ressurreição. E eis que, parece-me, olhando para este Santo Lençol com os olhos da fé se perceba algo desta luz. Com efeito, o Sudário foi imerso naquela escuridão profunda, mas ao mesmo tempo é luminoso; e eu penso que se milhões e milhões de pessoas vêm venerá-lo – sem contar quantos o contemplam através das imagens – é porque nele não vêem só a escuridão, mas também a luz; não tanto a derrota da vida e do amor, mas ao contrário, a vitória, a vitória da vida sobre a morte, do amor sobre o ódio; vêem a morte de Jesus mas entrevêem a sua Ressurreição; agora a vida pulsa no seio da morte, porque lá inabita o amor. Este é o poder do Sudário: do rosto deste "Homem do sofrimento", que traz em si a paixão do homem de todos os tempos e lugares, também as nossas paixões, os nossos sofrimentos, as nossas dificuldades, os nossos pecados – "Passio Christi. Passio hominis" – promana uma solene majestade, um senhorio paradoxal. Este rosto, estas mãos e estes pés, este lado, todo este corpo fala, ele próprio é uma palavra que podemos escutar no silêncio. De que modo fala o Sudário? Fala com o sangue, e o sangue é a vida! O Sudário é um Ícone escrito com o sangue; sangue de um homem flagelado, coroado de espinhos, crucificado e ferido no lado direito. A imagem impressa no Sudário é a de um morto, mas o sangue fala da sua vida. Cada traço de sangue fala de amor e de vida. Especialmente a mancha abundante próxima do lado, feita de sangue e água derramados abundantemente de uma grande ferida causada por um golpe de lança romana, aquele sangue e aquela água falam de vida. É como uma fonte que murmura no silêncio, e nós podemos ouvi-la, podemos escutá-la, no silêncio do Sábado Santo.
Queridos amigos, louvemos sempre o Senhor pelo seu amor fiel e misericordioso. Partindo deste lugar santo, levemos nos olhos a imagem do Sudário, levemos no coração esta palavra de amor e louvemos a Deus com uma vida plena de fé, de esperança e de caridade. Obrigado.

05 pensamentos do Santo Padre Bento XVI

" O sinal de Deus é a simplicidade. O sinal de Deus é o menino. O sinal de Deus é que Ele faz-se pequeno por nós. Este é o seu modo de reinar. Ele não vem com poder e grandiosidades externas. Ele vem como menino - inerme e necessitado da nossa ajuda. Não nos quer dominar com a força. Tira-nos o medo da sua grandeza. Ele pede o nosso amor: por isto faz-se menino. Nada mais quer de nós senão o nosso amor, mediante o qual aprendemos espontaneamente a entrar nos seus sentimentos, no seu pensamento e na sua vontade - aprendemos a viver com Ele e a praticar com Ele a humildade da renúncia que faz parte da essência do amor. Deus fez-se pequeno a fim de que nós pudéssemos compreendê-Lo, acolhê-Lo, amá-Lo."

" Há outra particularidade na narração da instituição referida no Cânone Romano, que queremos meditar nesta hora. A Igreja orante fixa o olhar nas mãos e nos olhos do Senhor. Quer de certo modo observá-Lo, quer perceber o gesto do seu rezar e do seu agir naquela hora singular, encontrar a figura de Jesus por assim dizer também através dos sentidos. «Ele tomou o pão em suas santas e adoráveis mãos…». Olhamos para aquelas mãos com que Ele curou os homens; mãos com que abençoou as crianças; mãos que impôs sobre as pessoas; mãos que foram cravadas na Cruz e que para sempre conservarão os estigmas como sinais do seu amor pronto a morrer. Agora somos nós encarregados de fazer o que Ele fez: tomar nas mãos o pão para que, através da oração eucarística, seja transformado. Na Ordenação Sacerdotal, as nossas mãos foram ungidas, para que se tornassem mãos de bênção. Nesta hora, rezemos ao Senhor para que as nossas mãos sirvam cada vez mais para levar a salvação, levar a bênção, tornar presente a sua bondade."

" Deus habita nas alturas, mas inclina-Se para baixo… Deus é imensamente grande e está incomparavelmente acima de nós. Esta é a primeira experiência do homem. A distância parece infinita. O Criador do universo, Aquele que tudo guia, está muito longe de nós: assim parece ao início. Mas depois vem a experiência surpreendente: Aquele que não é comparável a ninguém, que «está sentado nas alturas», Ele olha para baixo. Inclina-se para baixo. Ele vê-nos a nós, e vê-me a mim. Este olhar de Deus para baixo é mais do que um olhar lá das alturas. O olhar de Deus é um agir. O facto de Ele me ver, me olhar, transforma-me a mim e o mundo ao meu redor. Por isso logo a seguir diz o Salmo: «Levanta o pobre da miséria…» Com o seu olhar para baixo, Ele levanta-me, toma-me benignamente pela mão e ajuda-me, a mim próprio, a subir de baixo para as alturas. «Deus inclina-Se». Esta é uma palavra profética; e, na noite de Belém, adquiriu um significado completamente novo. O inclinar-Se de Deus assumiu um realismo inaudito, antes inimaginável. Ele inclina-Se: desce, Ele mesmo, como criança na miséria do curral, símbolo de toda a necessidade e estado de abandono dos homens. Deus desce realmente. Torna-Se criança, colocando-Se na condição de dependência total, própria de um ser humano recém-nascido. O Criador que tudo sustenta nas suas mãos, de Quem todos nós dependemos, faz-Se pequeno e necessitado do amor humano. Deus está no curral. No Antigo Testamento, o templo era considerado quase como o estrado dos pés de Deus; a arca santa, como o lugar onde Ele estava misteriosamente presente no meio dos homens. Deste modo sabia-se que sobre o templo, escondida, estava a nuvem da glória de Deus. Agora, está sobre o curral. Deus está na nuvem da miséria de uma criança sem lugar na hospedaria: que nuvem impenetrável e, no entanto, nuvem da glória! De facto, de que modo poderia aparecer maior e mais pura a sua predilecção pelo homem, a sua solicitude por ele? A nuvem do encobrimento, da pobreza da criança totalmente necessitada do amor, é ao mesmo tempo a nuvem da glória. É que nada pode ser mais sublime e maior do que o amor que assim se inclina, desce, se torna dependente. A glória do verdadeiro Deus torna-se visível quando se abrem os nossos olhos do coração diante do curral de Belém.

" O céu não pertence à geografia do espaço, mas à geografia do coração. E o coração de Deus, na Noite santa, inclinou-Se até ao curral: a humildade de Deus é o céu. E se formos ao encontro desta humildade, então tocamos o céu. Então a própria terra se torna nova. Com a humildade dos pastores, ponhamo-nos a caminho, nesta Noite santa, até junto do Menino no curral! Toquemos a humildade de Deus, o coração de Deus! Então a sua alegria tocar-nos-á a nós e tornará mais luminoso o mundo. Amem."

" Uma antiga lenda judaica, tirada do livro apócrifo “A vida de Adão e Eva”, conta que Adão, durante a sua última enfermidade, teria mandado o filho Set juntamente com Eva à na região do Paraíso buscar o óleo da misericórdia, para ser ungido com este e assim ficar curado. Aos dois, depois de muito rezar e chorar à procura da árvore da vida, aparece o Arcanjo Miguel para dizer que não conseguiriam obter o óleo da árvore da misericórdia e que Adão deveria morrer. Mais tarde, os leitores cristãos adicionaram a esta comunicação do arcanjo, uma palavra de consolação. O Arcanjo teria dito que, depois de 5.500 anos, viria o benévolo Rei Cristo, o Filho de Deus, e ungiria com o óleo da sua misericórdia todos aqueles que acreditassem nele. “O óleo da misericórdia para toda a eternidade será dado a quantos deverão renascer da água e do Espírito Santo. Então, o Filho de Deus rico de amor, Cristo, descerá às profundezas da terra e conduzirá o teu pai ao Paraíso, para junto da árvore da misericórdia”. Nesta lenda, faz-se palpável toda a aflição do homem diante do destino de enfermidade, dor e morte que nos foi imposto. Torna-se evidente a resistência que o homem oferece à morte: em algum lugar – repetidamente pensaram os homens – deveria existir a erva medicinal contra a morte. Mais cedo ou mais tarde, deveria ser possível encontrar o remédio não somente contra as diversas doenças, mas contra a verdadeira fatalidade – contra a morte. Deveria, em suma, existir o remédio da imortalidade. Também hoje, os homens andam à procura de tal substância curativa. A ciência médica atual, incapaz de excluir a morte, procura, contudo, eliminar o maior número possível das suas causas, adiando-a sempre mais; procura uma vida sempre melhor e mais longa. Mas, pensemos um pouco: caso se conseguisse quiçá não excluir totalmente a morte mas adiá-la indefinidamente, como seria chegar a uma idade de várias centenas de anos? Isto seria bom? A humanidade envelheceria numa medida extraordinária; não haveria lugar para a juventude. A capacidade de inovação se apagaria e uma vida interminável não seria um paraíso, mas uma condenação. A verdadeira erva medicinal contra a morte deveria ser diversa. Não deveria levar simplesmente a uma prolongação indefinida desta vida atual. Deveria transformar a nossa vida a partir do interior. Deveria criar em nós uma vida nova, verdadeiramente capaz de eternidade: deveria transformar-nos de tal modo que não terminasse com a morte, mas com ela iniciasse em plenitude. A novidade impressionante da mensagem cristã, do Evangelho de Jesus Cristo era, e ainda é, dizer-nos isto: sim, esta erva medicinal contra a morte, este autêntico remédio da imortalidade existe. Foi encontrado. É acessível. No Batismo, este medicamento nos é dado. Uma vida nova começa em nós, uma vida nova que amadurece na fé e não é cancelada pela morte da vida velha, mas só então se tornará plenamente visível."

Pensamentos do Servo de Deus, João Paulo II



"Hoje em dia muito frequentemente o homem não sabe o que traz no interior de si mesmo, no profundo do seu ânimo e do seu coração, muito frequentemente se encontra incerto acerca do sentido da sua vida sobre esta terra. E sucede que é invadido pela dúvida que se transmuta em desespero. Permiti, pois — peço-vos e vo-lo imploro com humildade e com confiança — permiti a Cristo falar ao homem. Somente Ele tem palavras de vida; sim, de vida eterna.''

"Irmãos e Irmãs: não tenhais medo de acolher Cristo e de aceitar o Seu poder! E ajudai o Papa e todos aqueles que querem servir a Cristo e, com o poder de Cristo, servir o homem e a humanidade inteira! Não, não tenhais medo! Antes, procurai abrir, melhor, escancarar as portas a Cristo! Ao Seu poder salvador abri os confins dos Estados, os sistemas económicos assim como os políticos, os vastos campos de cultura, de civilização e de progresso! Não tenhais medo! Cristo sabe bem "o que é que está dentro do homem". Somente Ele o sabe!" (HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II NO INÍCIO DO SEU PONTIFICADO, Domingo, 22 de Outubro de 1978)


" A familia está chamada a ser templo, ou seja, casa de oração: uma oração simples, cheia de esforço e de ternura. Uma oração que se faz vida, para que toda a vida se transforme em oração."

"Em uma família que reza não faltará nunca a consciência da própria vocação fundamental: a de ser um grande caminho de comunhão."

"Todo ser humano, desde sua concepção, tem direito de nascer, quer dizer, a viver sua própria vida. Não só o bem-estar, mas também, de certo modo, a própria existência da sociedade, depende da salvaguardia deste direito primordial. Se a criança por nascer tem negado este direito, será cada vez mais difícil reconhecer sem discriminações o mesmo direito a todos os seres humanos."

"A liberdade, em todos seus aspectos, deve se basear na verdade. Quero repetir aqui as palavras de Jesus: "E a verdade vos libertará" (Jo 8,32). É, pois, meu desejo que vosso senso de liberdade possa estar sempre de mãos dadas com o um profundo senso de verdade e honestidade sobre vós mesmos e das realidades de vossa sociedade"."

" O culto eucarístico brota do amor e serve ao amor, para o qual todos nós somos chamados em Cristo Jesus. E fruto vivo desse mesmo culto é o aperfeiçoamento da imagem de Deus que trazemos em nós, imagem que corresponde àquela que Cristo nos revelou. Tornando-nos assim "adoradores do Pai em espírito e verdade", nós amadurecemos numa cada vez mais plena união com Cristo, estamos mais unidos a Ele".

" A cruz veio ser para nós a Cátedra suprema da verdade de Deus e do homem. Todos devemos ser alunos desta Cátedra em curso ou fora de curso. Então compreenderemos que a cruz é também berço do homem novo".

"Onde surge a Cruz, vê-se o sinal de que chegou a Boa Notícia da salvação do homem mediante o amor. Onde se ergue a cruz, está o sinal de que foi iniciada a evangelização".

"A cruz se transforma também em símbolo de esperança. De instrumento de castigo, passa a ser imagem de vida nova, de um mundo novo".

"A cruz, na qual se morre para viver; para viver em Deus e com Deus, para viver na verdade, na liberdade e no amor, para viver eternamente".


"As palavras da oração de Cristo no Getsemani provam a verdade do sofrimento."

"O Getsemani é o lugar no qual precisamente este sofrimento, expressado em toda a verdade pelo profeta sobre o mal padecido nele mesmo, revelou-se quase espiritualmente perante os olhos de Cristo."

"O sofrimento humano alcançou seu ápice na paixão de Cristo."

"A cruz de Cristo tornou-se uma fonte da qual brotam rios de água viva."

"Na cruz de Cristo não apenas se cumpriu a redenção mediante o sofrimento, como o próprio sofrimento humano foi redimido."

"Peço para vós a graça da luz e da força Espiritual no sofrimento, para que não percais o valor, mas que descubrais individualmente o sentido do sofrimento e possais, com a oração e o sacrifício, aliviar os demais".


"Sabei também vós, queridos amigos, que esta missão não é fácil. E que pode tornar-se até mesmo impossível, se contardes apenas com vós mesmos. Mas «o que é impossível para os homens, é possível para Deus» (Lc 18,27; 1,37)."

"Os verdadeiros discípulos de Cristo têm consciência de sua própria fragilidade. Por isto colocam toda sua confiança na graça de Deus que acolhem com coração indiviso, convencidos de que sem Ele não podem fazer nada (cfr Jo 15,5). O que os caracteriza e distingue do resto dos homens não são os talentos ou as disposições naturais. É sua firme determinação em caminhar sobre as pegadas de Jesus".

sexta-feira, 18 de junho de 2010

"Mulher não chores"



Naquela tarde, Jesus foi interrompido, parado no seu caminho em direção ao vilarejo ao qual se dirigia, ao qual se destinava, porque havia um choro altíssimo de mulher, com um grito de dor que feria o coração de todos os presentes, mas que feriu, feriu sobretudo o coração de Cristo.

"Mulher, não chores!" Uma mulher jamais vista, jamais encontrada antes.

"Mulher, não chores!" Que apoio podia ter aquela mulher que escutava a palavra que Jesus lhe dizia?

"Mulher, não chores!": quando se volta pra casa, quando se vai de metrô, quando se sobe no ônibus, quando se vê a fila de carros pelas ruas, quando se pensa em todo o amontoado de coisas que interessam a vida de milhões e milhões de homens, de centenas de milhões de homens... Como é decisivo o olhar que uma criança ou um adulto "adulto" teriam dirigido àquele homem, o qual vinha à frente de um grupinho de amigos e que jamais tinha visto aquela mulher, mas que parou quando o som, o revérbero daquele choro chegou até Ele! "Mulher, não chores!", como se ninguém a conhecesse, como se ninguém a reconhecesse mais intensamente, mais totalmente, mais definitivamente do que Ele!

"Mulher, não chores!" Quando vemos – como falei antes – toda a movimentação do mundo, em cujo rio, em cujos riachos todos os homens se fazem presentes à vida, tornam a vida presente a si mesmos, a incógnita do fim nada mais é que a incógnita da maneira como chegaram a essa novidade, aquela novidade que faz encontrar um homem, faz encontrar um homem jamais visto, o qual, perante a dor da mulher que vê pela primeira vez, lhe diz: "Mulher, não chores!". "Mulher, não chores!"

"Mulher, não chores!": é esse o coração com o qual somos colocados diante do olhar e diante da tristeza, diante da dor de todas as pessoas com as quais nos relacionamos, pela rua ou na viagem, nas nossas viagens.

"Mulher, não chores!" Que coisa inimaginável é que Deus – "Deus", Aquele que faz o mundo inteiro neste momento —, vendo e ouvindo o homem, possa dizer: "Homem, não chores!", "Você, não chore!". "Não chore, porque não é para a morte mas para a vida que eu o fiz! Eu o coloquei no mundo, e o coloquei numa companhia grande de pessoas!".
Homem, mulher, rapaz, moça, você, vocês, não chorem! Não chorem! Existe um olhar e um coração que os penetra até a medula dos ossos e que os ama até o seu destino, um olhar e um coração que ninguém pode desviar, ninguém pode tornar incapaz de dizer o que pensa e o que sente, ninguém pode tornar impotente!
"Gloria Dei vivens homo". A glória de Deus, a grandeza dAquele que faz as estrelas do céu, que coloca no mar, gota por gota, todo o azul que o define, é o homem que vive.

Não há nada que possa suspender aquele ímpeto imediato de amor, de apego, de estima, de esperança. Porque tornou-se esperança para cada um que O viu, que ouviu: "Mulher, não chores!", que ouviu Jesus dizer assim: "Mulher, não chores!".

Nada pode deter a certeza de um destino misterioso e bom!

Nós estamos juntos dizendo-nos: "Você aí, eu nunca o vi, não sei quem você é: não chore!". Porque o choro é o seu destino, parece ser o seu destino inevitável: "Homem, não chores!".

"Gloria Dei vivens homo": a glória de Deus – aquela por meio da qual sustenta o mundo, o universo – é o homem que vive, todo homem que vive: o homem que vive, a mulher que chora, a mulher que sorri, a criança, a mulher que morre mãe.

"Gloria Dei vivens homo". Nós queremos isto e nada mais que isto, que a glória de Deus se manifeste a todo o mundo e alcance todos os âmbitos da terra: as folhas, todas as folhas das flores e todos os corações dos homens.

Nunca nos vimos, mas é isto o que vemos e sentimos entre nós.

(Mon. Luigi Giussani, fundador do Movimento Comunhão e Libertação - IT)



Grande teólogo, filósofo, moralista e apologista. Nasceu em Tagaste, Tunísia, no ano 354, filho de Patrício e Santa Mônica. Escreveu 232 livros, além de inúmeros tratados, sermões e cartas. Confira aqui um pouco do pensamento de Santo Agostinho:


"Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro e eu fora. Estavas comigo e não eu contigo. Exalaste perfume e respirei. Agora anelo por ti. Provei-te, e tenho fome e sede. Tocaste-me e ardi por tua paz."


"Quer louvar-te o homem, esta parcela de tua criação! Tu próprio o incitas para que sinta prazer em louvar-te. Fizeste-nos para ti e inquieto está nosso coração, enquanto no repousa em Ti."


"Para alcançarmos esta vida feliz, a verdadeira Vida nos ensinou a orar."


"Não é de admirar se a soberba gera a separação, a caridade, a unidade."


"Oh eterna verdade, verdadeira caridade e querida eternidade! És o meu Deus, por ti suspiro dia e noite"


"Que eu te conheça, ó conhecedor meu! Que eu também te conheça como sou conhecido! Tu, ó força de minha alma, entra dentro dela, ajusta-a a ti, para a teres e possuíres sem mancha nem ruga."


"Quereis cantar louvores a Deus? Sede vós mesmos o canto que ides cantar. Vós sereis o seu maior louvor, se viverdes santamente."


"Teu desejo é a tua oração; se o desejo é contínuo, também a oração é contínua. Não foi em vão que o Apóstolo disse: Orai sem cessar (1Ts 5,17). Ainda que faças qualquer coisa, se desejas aquele repouso do Sábado eterno, não cessas de orar. Se não queres cessar de orar, não cesses de desejar."


"A paixão do Senhor mostra-nos as dificuldades da vida presente, em que é preciso trabalhar, sofrer e por fim morrer. A ressurreição e glorificação do Senhor nos revelam a vida que um dia nos será dada."


"Não temos então medo de fraquejar? Por quê? Porque invocaremos o nome do Senhor. Como venceriam os mártires, se neles não vencesse aquele que disse: Alegrai-vos porque eu venci o mundo? (João 16,33)"


"Tens o que oferecer. Não examines o rebanho, não apresentes navios e não atravesses as mais longínquas regiões em busca de perfumes. Procura em teu coração aquilo que Deus gosta."


"Grandes coisas o Senhor nos promete no futuro! Por que a fraqueza humana ainda hesita em acreditar que um dia os homens viverão em Deus? Muito mais incrível é o que já aconteceu: Deus morreu pelos homens."


"Amando o próximo e cuidando dele, vais percorrendo o teu caminho. Ajuda, portanto, aquele que tens ao lado enquanto caminhas neste mundo, e chegarás junto daquele com quem desejas permanecer para sempre."


"Eu peço: amai comigo, correi crendo comigo, desejemos a pátria celeste, suspiremos pela pátria do alto, sintamo-nos como peregrinos aqui."


"Que deseja a alma com mais veemência do que a verdade?"


"Por maior que seja o temor da morte, deve vencê-lo a força do amor com que se ama aquele que, sendo nossa vida, quis sofrer até a morte por nós."


"Disse muito bem quem definiu o amigo como metade da própria alma. Eu tinha de fato a sensação de que nossas duas almas fossem uma em dois corpos."

Texto retirado do portal Canção Nova de autoria do Professor Felipe Aquino

Homilia do Santo Padre na Vigilia Pascal de 2010.





Amados irmãos e irmãs
Uma antiga lenda judaica, tirada do livro apócrifo “A vida de Adão e Eva”, conta que Adão, durante a sua última enfermidade, teria mandado o filho Set juntamente com Eva à na região do Paraíso buscar o óleo da misericórdia, para ser ungido com este e assim ficar curado. Aos dois, depois de muito rezar e chorar à procura da árvore da vida, aparece o Arcanjo Miguel para dizer que não conseguiriam obter o óleo da árvore da misericórdia e que Adão deveria morrer. Mais tarde, os leitores cristãos adicionaram a esta comunicação do arcanjo, uma palavra de consolação. O Arcanjo teria dito que, depois de 5.500 anos, viria o benévolo Rei Cristo, o Filho de Deus, e ungiria com o óleo da sua misericórdia todos aqueles que acreditassem nele. “O óleo da misericórdia para toda a eternidade será dado a quantos deverão renascer da água e do Espírito Santo. Então, o Filho de Deus rico de amor, Cristo, descerá às profundezas da terra e conduzirá o teu pai ao Paraíso, para junto da árvore da misericórdia”. Nesta lenda, faz-se palpável toda a aflição do homem diante do destino de enfermidade, dor e morte que nos foi imposto. Torna-se evidente a resistência que o homem oferece à morte: em algum lugar – repetidamente pensaram os homens – deveria existir a erva medicinal contra a morte. Mais cedo ou mais tarde, deveria ser possível encontrar o remédio não somente contra as diversas doenças, mas contra a verdadeira fatalidade – contra a morte. Deveria, em suma, existir o remédio da imortalidade. Também hoje, os homens andam à procura de tal substância curativa. A ciência médica atual, incapaz de excluir a morte, procura, contudo, eliminar o maior número possível das suas causas, adiando-a sempre mais; procura uma vida sempre melhor e mais longa. Mas, pensemos um pouco: caso se conseguisse quiçá não excluir totalmente a morte mas adiá-la indefinidamente, como seria chegar a uma idade de várias centenas de anos? Isto seria bom? A humanidade envelheceria numa medida extraordinária; não haveria lugar para a juventude. A capacidade de inovação se apagaria e uma vida interminável não seria um paraíso, mas uma condenação. A verdadeira erva medicinal contra a morte deveria ser diversa. Não deveria levar simplesmente a uma prolongação indefinida desta vida atual. Deveria transformar a nossa vida a partir do interior. Deveria criar em nós uma vida nova, verdadeiramente capaz de eternidade: deveria transformar-nos de tal modo que não terminasse com a morte, mas com ela iniciasse em plenitude. A novidade impressionante da mensagem cristã, do Evangelho de Jesus Cristo era, e ainda é, dizer-nos isto: sim, esta erva medicinal contra a morte, este autêntico remédio da imortalidade existe. Foi encontrado. É acessível. No Batismo, este medicamento nos é dado. Uma vida nova começa em nós, uma vida nova que amadurece na fé e não é cancelada pela morte da vida velha, mas só então se tornará plenamente visível.
Ouvindo isto alguns, quiçá muitos, responderão: a mensagem sim, eu escuto, mas falta-me a fé. E, mesmo quem quer acreditar perguntará: mas, é verdadeiramente assim? Como devemos imaginá-la? Como se realiza esta transformação da vida velha, de tal modo que nela se forme a vida nova que não conhece a morte? Mais uma vez, um antigo escrito judaico pode nos ajudar a ter uma idéia daquele processo misterioso que tem início em nós no Batismo. Neste escrito se conta que o patriarca Henoc foi arrebatado até ao trono de Deus. Mas, ele se atemorizou à vista das gloriosas potestades angélicas e, na sua fraqueza humana, não pôde contemplar a Face de Deus. “Então Deus disse a Miguel – assim continua o livro de Henoc – 'Toma Henoc e tira-lhe as vestes terrenas. Unge-o com o óleo suave e reviste-o com vestes de glória! ' E, Miguel tirou as minhas vestes, ungiu-me com óleo suave; este óleo possuía algo mais que uma luz radiosa... O seu esplendor era semelhante aos raios do sol. Quando me vi, eis que eu era como um dos seres gloriosos” (Ph. Rech, Inbild des Kosmos, II 524).
Isto mesmo – ser revestidos com a nova veste de Deus – verivica-se Batismo; assim nos ensina a fé cristã. É verdade que esta mudança das vestes é um percurso que dura toda a vida. Aquilo que acontece no Batismo é o início de um processo que abarca toda a nossa vida –torna-nos capazes de eternidade, de tal modo que, na veste de luz de Jesus Cristo, podemos aparecer diante de Deus e viver com Ele para sempre.
No rito do Batismo, há dois elementos nos quais este evento se expressa e torna visível, também como exigência para o resto da nossa vida. Em primeiro lugar, temos o rito das renúncias e das promessas. Na Igreja Antiga, o batizando virava-se para ocidente, símbolo das trevas, do pôr do sol, da morte e, portanto, do domínio do pecado. O batizando virava-se para aquela direção e pronunciava um tríplice “não”: ao diabo, às suas pompas e ao pecado. Com a estranha palavra “pompas”, ou seja, o fausto do diabo, indicava-se o esplendor do antigo culto dos deuses e do antigo teatro, onde a diversão era ver pessoas vivas sendo dilaceradas pelas feras. Portanto, este “não” era o repúdio de um tipo de cultura que acorrentava o homem à adoração do poder, ao mundo da cobiça, à mentira, à crueldade. Era um ato de libertação da imposição de uma forma de vida que se apresentava como prazer e, contudo, levava à destruição daquilo que no homem são as suas qualidades melhores. Esta renúncia – com um comportamento menos dramático – constitui ainda hoje uma parte essencial do Batismo. Assim removemos as “vestes velhas”, com as quais não se pode estar diante de Deus. Melhor dito: começamos a depô-las. Com efeito, esta renúncia é uma promessa na qual damos a mão a Cristo, para que Ele nos guie e revista. Quais sejam as “vestes” que depomos e qual seja a promessa que pronunciamos fica claro quando lemos, no quinto capítulo da Carta aos Gálatas, aquilo que Paulo denomina “obras da carne” – termo que significa precisamente as vestes velhas que devem ser depostas. Paulo as designa assim: “fornicação, libertinagem, devassidão, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, ciúmes, iras, intrigas, discórdias, facções, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a essas” (Gal 5, 19ss). São estas as vestes que depomos; são vestes da morte.
Em seguida, o batizando na Igreja Antiga se virava para oriente – símbolo da luz, símbolo do novo sol da história, novo sol que se levanta, símbolo de Cristo. O batizando determina a nova direção da sua vida: a fé em Deus trino, a quem ele se oferece. Assim, o próprio Deus nos veste com o traje de luz, com a veste da vida. Paulo chama a estas novas “vestes” “fruto do Espírito” e as descreve com as seguintes palavras: “caridade, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, lealdade, mansidão, continência” (Gal 5, 22).
Na Igreja Antiga, depois o batizando era verdadeiramente despojado das suas vestes. Descia à fonte batismal e era imerso por três vezes – um símbolo da morte que significa toda a radicalidade deste despojamento e desta mudança de veste. Esta vida, que em todo o caso já está voltada à morte, o batizando a entrega à morte, junto com Cristo, e por Ele se deixa arrastar e elevar para a vida nova, que o transforma para a eternidade. Depois subindo das águas batismais, os neófitos eram revestidos com a veste branca, a veste luminosa de Deus, e recebiam a vela acesa como sinal da vida nova na luz que Deus mesmo acendera neles. Eles sabiam que tinham obtido o remédio da imortalidade, que agora, no momento de receber a sagrada Comunhão, tomava a sua forma plena. Na Comunhão, recebemos o Corpo do Senhor ressuscitado e nós mesmos somos atraídos para este Corpo, de tal modo que ficamos já guardados por Aquele que venceu a morte e nos conduz através da morte.
No decorrer dos séculos, os símbolos tornaram-se mais escassos, mas o acontecimento essencial do Batismo continue sendo o mesmo. Este não é apenas um lavacro, e menos ainda uma recepção um pouco complicada numa nova associação. O Batismo é morte e ressurreição, renascimento para a nova vida.
Sim, a erva medicinal contra a morte existe. Cristo é a árvore da vida, que se fez novamente acessível. Se aderimos a ele, então estamos na vida. Por isso, nesta noite da ressurreição, cantaremos com todo o coração o aleluia, o canto da alegria que não tem necessidade de palavras. Por isso Paulo pode dizer aos Filipenses: “alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos!” (Fl 4, 4). Não se pode comandar a alegria. Somente pode ser dada. O Senhor ressuscitado nos dá a alegria: a verdadeira vida. Já estamos protegidos para sempre guardados no amor daquele a quem foi dado todo o poder no céu e na terra (cf. Mt 28,18). Assim, seguros de ser escutados, peçamos como diz a oração sobre as oferendas que a Igreja eleva nesta noite: Acolhei, ó Deus, com estas oferendas as preces do vosso povo, para que a nova vida, que brota do mistério pascal, seja por vossa graça penhor da eternidade. Amém.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Reflexões sobre o Ofício Divino


"Clarão da glória do Pai, ó Luz que a luz origina, sois Luz de luz fonte viva, sois Luz que o dia ilumina" (Hino de Laudes, Seg. I semana do saltério)
Queremos inciar, á partir de hoje, as reflexões sobre a Litirgia das Horas, oração oficial da Igreja, instrumento altamente necessário para a nossa santificação e das horas do dia.
O hino de Laudes, da Segunda feira, I semana do saltério, nos faz pensar na grandeza e na luminosidade esplendorosa de Cristo.
Ele é sem dúvidas, o clarão da glória do Pai, que pela sua misteriosa Encarnação, revelou ao mundo a glória do Pai. Desde o momento da Conceição até o seu regreso ao Pai, Ele mostrou para o mundo inteiro com a sua própria vida os sinais e quem de fato era Ele.
Como Luz da luz, restabelecia aos cegos a visão que um dia haviam perdido.Como fonte da Luz viva, acendia nos corações envoltos em trevas, o esplendor de sua Luz-Caridade que não tem fim. Como Luz que origina a luz, trazia em si mesmo a certeza de que o homem de todos os tempos, nunca caminharia só nas estradas da vida, o Deus-Caminheiro e, ao mesmo tempo, Ele o próprio caminho, seguia como Deus, amigo e luz.
Tão grande dádiva nos impressiona, de certo modo nos paralisa. Porque? Por um motivo muito simples: a Máxima Luz se fez ascesível a mim. Ele me ilumina, me conduz, me tira a cegueira e me faz andar na certeza do brilho de sua Luz. Isto é verdade e muda tudo ao meu redor. Deus se iclinou até mim, olhou para a minha miséria e me deu a graça de sua luz bendita. Tal dádiva é real, próxima e está disponível a todos que desejarem.
Jesus, Luz do mundo, ensina-nos a sermos luz para todos. Dissipa-nos a cegueira e faz-nos andar em Vossa luz admirável!

Ass: Sem. Rafael Viana Lima]
II ano de Filosofia do Seminário Arquidiocesano de São José, RJ

Homilia do Santo Padre Bento XVI no Encerramento do Ano Sacerdotal


Queridos irmãos no ministério sacerdotal,
Queridos irmãos e irmãs,

o Ano Sacerdotal que celebramos, 150 anos depois da morte do santo Cura d'Ars, modelo do ministério sacerdotal em nossos dias, chega ao seu fim. Nos deixamos guiar pelo Cura d'Ars para compreender de novo a grandeza e a beleza do ministério sacerdotal. O sacerdote não é simplesmente alguém que detém um ofício, como aqueles de que toda a sociedade necessita, para que possam se cumprir nela certas funções. Ao contrário, o sacerdote faz o que nenhum ser humano pode fazer por si mesmo: pronunciar em nome de Cristo a palavra de absolvição de nossos pecados, transformando assim, a partir de Deus, a situação de nossa vida. Pronuncia sobre as oferendas do pão e do vinho as palavras de ação de graças de Cristo, que são palavras de transubstanciação, palavras que tornam presente a Ele mesmo, o Ressuscitado, seu Corpo e seu sangue, transformando assim os elementos do mundo; são palavras que abrem o mundo a Deus e o unem a Ele. Portanto, o sacerdócio não é um simples "ofício", mas sim um sacramento: Deus se vale de um homem com suas limitações para estar, através dele, presente entre os homens e atuar em seu favor. Esta audácia de Deus, que se abandona nas mãos dos seres humanos; que, embora conhecendo nossas debilidades, considera aos homens capazes de atuar e apresentar-se em seu lugar, esta audácia de Deus é realmente a maior grandeza que se oculta na palavra "sacerdócio". Que Deus nos considere capazes disso; que, por isso, chame a seu serviço a homens e, assim, una-se a eles a partir de dentro, isso é o que quisemos novamente considerar e compreender durante esse Ano. Queríamos despertar a alegria de que Deus esteja tão próximo a nós, e a gratuidade pelo fato de que Ele se confie a nossa debilidade; que Ele nos guie e nos ajude dia após dia. Queríamos também, assim, ensinar de novo aos jovens que esta vocação, esta comunhão de serviço por Deus e com Deus, existe; mais ainda, que Deus está esperando nosso "sim". Junto com a Igreja, quisemos destacar novamente que temos que pedir a Deus esta vocação. Peçamos trabalhadores para a messe de Deus, e esta oração a Deus é, ao mesmo tempo, um chamamento de Deus ao coração dos jovens que se consideram capazes disso mesmo para o que Deus os considera capazes. Era de se esperar que ao "inimigo" não fosse prazeroso perceber que o sacerdócio brilhara novamente; ele teria preferido vê-lo desaparecer, para que, ao final, Deus fosse retirado do mundo. E assim ocorreu que, precisamente neste ano de alegria pelo sacramento do sacerdócio, vieram à luz os pecados dos sacerdotes, sobretudo o abuso de crianças, no qual o sacerdócio, que leva a cabo a solicitude de Deus pelo bem do homem, converte-se no contrário. Também nós pedimos perdão insistentemente a Deus e às pessoas afetadas, enquanto prometemos que desejamos fazer todo o possível para que semelhante abuso não volte a acontecer jamais; que na admissão ao ministério sacerdotal e na formação que prepara ao mesmo faremos todo o possível para examinar a autenticidade da vocação; e que queremos acompanhar ainda mais aos sacerdotes em seu caminho, para que o Senhor os proteja e os guarde nas situações dolorosas e nos perigos da vida. Se o Ano Sacerdotal tivesse sido uma glorificação de nossas conquistas humanas pessoais, teria sido destruído por esses acontecimentos. Mas, para nós, tratava-se precisamente do contrário, de sentir-nos agradecidos pelo dom de Deus, um dom que se leva em "vasos de barro", e que vez por outra, através de toda a debilidade humana, torna visível seu amor no mundo. Assim, consideramos o acontecido como uma tarefa de purificação, uma missão que nos acompanha em direção ao futuro e que nos faz reconhecer e amar mais ainda o grande dom de Deus. Deste modo, o dom converte-se no compromisso de responder ao valor e a humildade de Deus com nosso valor e nossa humildade. A palavra de Cristo, que entoamos como canto de entrada na liturgia de hoje, pode dizer-nos neste momento o que significa fazer-se e ser sacerdote: "Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração" (Mt 11, 29).

Celebramos a festa do Sagrado Coração de Jesus e com a liturgia lançamos um olhar, por assim dizer, dentro do coração de Jesus, que ao morrer foi transpassado pela lança do soldado romano. Sim, seu coração está aberto por nós e diante de nós; e, com isso, nos abriu o coração do próprio Deus. A liturgia interpreta para nós a linguagem do coração de Jesus, que fala, sobretudo, de Deus como pastor dos homens, e assim nos manifesta o sacerdócio de Jesus, que está arraigado no íntimo de seu coração; deste modo, nos indica o perene fundamento, assim como o critério válido de todo o ministério sacerdotal, que deve estar sempre no coração de Jesus e ser vivido a partir d'Ele. Gostaria de meditar hoje, sobretudo, os textos com os que a Igreja orante responde à Palavra de Deus proclamada nas leituras. Nesses cantos, palavra e resposta se compenetram. Por um lado, estão cheios da Palavra de Deus, mas por outro, são já ao mesmo tempo a resposta do homem a tal Palavra, resposta na qual a Palavra mesma comunica-se e entra em nossa vida. O mais importante desses textos na liturgia de hoje é o Salmo 23 (22) - "O Senhor é meu pastor" -, no qual o Israel orante acolhe a autorrevelação de Deus como pastor, fazendo disso a orientação para sua própria vida. "O Senhor é meu pastor, nada me falta". Nesse primeiro versículo expressam-se alegria e gratuidade porque Deus está presente e cuida do homem. A leitura tomada do Livro de Ezequiel começa com o mesmo tema: "Vou tomar eu próprio o cuidado com minhas ovelhas, velarei sobre elas" (Ez 34, 11). Deus cuida pessoalmente de mim, de nós, da humanidade. Não me deixou sozinho, extraviado no universo e em uma sociedade ante a qual sente-se cada vez mais desorientado. Ele cuida de mim. Não é um Deus distante, para quem minha vida não conta quase nada. As religiões do mundo, pelo que podemos perceber, souberam sempre que, em última análise, somente há um Deus. Mas este Deus era distante. Abandonava aparentemente o mundo a outras potências e forças, a outras divindades. Teria que chegar a um acordo com esses elementos. O Deus único era bom, mas distante. Não constituía um perigo, mas tampouco oferecia ajuda. Portanto, não era necessário ocupar-se d'Ele. Ele não dominava. Estranhamente, essa ideia ressurgiu na Ilustração. Aceitava-se, não obstante, que o mundo pressupõe um Criador. Esse Deus, no entanto, teria construído o mundo, para depois retirar-se dele. Agora o mundo tem um conjunto de leis próprias segundo as quais se desenvolve, e nas quais Deus não intervém, não pode intervir. Deus é somente uma origem remota. Muitos, quem sabe, tampouco desejassem que Deus se preocupasse com eles. Não desejariam que Deus lhes incomodasse. Mas ali onde a proximidade do amor de Deus percebe-se como incômodo, o ser humano sente-se mal. É belo e consolador saber que há uma pessoa que me quer e cuida de mim. Mas é muito mais decisivo que exista esse Deus que me conhece, me quer e se preocupa comigo. "Eu conheço minhas ovelhas e elas conhecem a mim" (Jo 10, 14), diz a Igreja antes do Evangelho com uma palavra do Senhor. Deus me conhece, preocupa-se comigo. Esse pensamento deveria proporcionar-nos realmente alegria. Deixemos que penetre intensamente em nosso interior. Nesse momento compreendemos também o que significa: Deus quer que nós, como sacerdotes, em um pequeno ponto da história, compartilhemos suas preocupações pelos homens. Como sacerdotes, queremos ser pessoas que, em comunhão com seu amor pelos homens, cuidemos deles, lhes façamos experimentar em concreto esta atenção de Deus. E, pelo que se refere ao âmbito do que se lhe confia, o sacerdote, juntamente com o Senhor, deveria poder dizer: "Eu conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem". "Conhecer", no sentido da Sagrada Escritura, nunca é somente um saber exterior, como quando se conhece o número telefônico de uma pessoa. "Conhecer" significa estar interiormente próximo do outro. Querer-lhe. Nós deveríamos tratar de "conhecer" aos homens da parte de Deus e com vistas a Deus; deveríamos tratar de caminhar com eles na via da amizade com Deus.

Voltemos ao Salmo. Ali se diz: "Pelos caminhos retos ele me leva, por amor do seu nome. Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estais comigo. Vosso bordão e vosso báculo são o meu amparo" (Sl 23 [22], 3s). O pastor mostra o caminho correto àqueles que lhe estão confiados. Os precede e guia. Digamos-lo de outro modo: o Senhor nos mostra como realiza-se de modo correto nosso ser homens. Ensina-nos a arte de ser pessoa. Que devo fazer para não arruinar-me, para não desperdiçar minha vida com a falta de sentido? Com efeito, esta é a pergunta que todo o homem deseja fazer a si mesmo e que serve para qualquer período da vida. Quantas trevas há no entorno dessa pergunta em nosso tempo! Sempre retorna à nossa mente a palavra de Jesus, que tinha compaixão pelo homens, porque estavam como ovelhas sem pastor. Senhor, tende piedade também de nós. Mostra-nos o caminho. Sabemos pelo Evangelho que Ele é o caminho. Viver com Cristo, segui-lo, isso significa encontrar o caminho correto, para que nossa vida tenha sentido e para que um dia possamos dizer: "Sim, viver foi algo bom". O povo de Israel estava e está agradecido a Deus, porque mostrou nos mandamentos o caminho da vida. O grande salmo 119 (118) é uma expressão de alegria por este fato: nós não andamos tateando na obscuridade. Deus nos mostrou qual é o caminho, como podemos caminhar de maneira correta. A vida de Jesus é uma síntese e um modelo vivo do que afirmam os mandamentos. Assim, compreendemos que essas normas de Deus não são cadeias, mas o caminho que Ele nos indica. Podemos estar alegres por elas e porque em Cristo estão ante nós como uma realidade vivida. Ele mesmo nos faz felizes. Caminhando junto a Cristo temos a experiência da alegria da Revelação, e como sacerdotes devemos comunicar às pessoas a alegria de que nos tenha mostrado o caminho correto.

Depois vem uma palavra referida ao "vale escuro", através do qual o Senhor guia o homem. O caminho de cada um de nós nos levará um dia ao vale escuro da morte, ao qual ninguém pode nos acompanhar. E Ele estará ali. Cristo mesmo descendeu à noite escura da morte. Tampouco ali nos abandona. Também ali nos guia. "Se descer à região dos mortos, lá vos encontrareis também", diz o Salmo 139 (138). Sim, tu estás presente também na última fadiga, e assim o salmo responsorial pode dizer: também ali, no vale escuro, nada temo. No entanto, falando do vale escuro, podemos pensar também nos vales escuros das tentações, do desalento, da provação, que toda pessoa humana deve atravessar. Também nestes vales tenebrosos da vida Ele está ali. Senhor, nas trevas da tentação, nas horas das trevas, em que todas as luzes parecem apagar-se, mostra-me que tu estás ali. Ajuda-nos a nós, sacerdotes, para que possamos estar junto às pessoas que, nessas noite escuras, nos foram confiadas, para que possamos mostrar-lhes tua luz.

"Vosso bordão e vosso báculo são o meu amparo": o pastor necessita do bordão contra os animais selvagens que querem atacar o rebanho; contra os salteadores que buscam sua vítima. Junto ao bordão está o báculo, que sustenta e ajuda a atravessar os lugares difíceis. Esses dois elementos entram dentro do mistério da Igreja, do mistério do sacerdote. Também a Igreja deve usar o bordão do pastor, o bordão com o qual protege a fé dos farsantes, contra as orientações que são, na realidade, desorientações. Com efeito, o uso do bordão pode ser um serviço de amor. Hoje vemos que não se trata de amor, quando se toleram comportamento indignos da vida sacerdotal. Como tampouco trata-se de amor se deixa-se proliferar a heresia, a tergiversação e a destruição da fé, como se nós inventássemos a fé autonomamente. Como se já não fosse um dom de Deus, a pérola preciosa que não deixamos que nos arranquem. Ao mesmo tempo, no entanto, o bordão continuamente deve transformar-se em báculo do pastor, báculo que ajude aos homens a poder caminhar por caminhos difíceis e seguir a Cristo.

Ao final do salmo, fala-se da mesa preparada, do perfume com que se unge a cabeça, da taça que transborda, do habitar na casa do Senhor. No salmo, isso mostra sobretudo a perspectiva da alegria pela festa de estar com Deus no templo, de ser hospedado e servido pelo mesmo, de poder habitar em sua casa. Para nós, que rezamos este salmo com Cristo e com seu Corpo que é a Igreja, esta perspectiva de esperança adquiriu uma amplitude e profundidade, todavia ainda maior. Vemos nessas palavras, por assim dizer, uma antecipação profética do mistério da Eucaristia, na qual Deus mesmo nos convida e se nos oferece como alimento, como aquele pão e aquele vinho maravilhoso que são a única resposta última à fome e à sede interior do homem. Como não alegrarmo-nos de estarmos convidados cada dia à mesa de Deus e a habitar em sua casa? Como não estarmos alegres por termos recebido d'Ele este mandado: "Fazei isto em memória de mim"? Alegres porque Ele nos permitiu preparar a mesa de Deus para os homens, oferecer-lhes seu Corpo e seu Sangue, oferecer-lhes o dom precioso de sua própria presença. Sim, podemos rezar juntos com todo o coração as palavras do salmo: "A vossa bondade e misericórdia hão de seguir-me por todos os dias de minha vida" (23 [22], 6).

Por último, vejamos brevemente os dois cantos de comunhão sugeridos hoje pela Igreja em sua liturgia. Antes de tudo, está a palavra com a qual São João conclui o relato da crucificação de Jesus: "um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança e, imediatamente, saiu sangue e água" (Jo 19, 34). O coração de Jesus é transpassado pela lança. Abre-se, e converte-se em uma fonte: a água e o sangue que manam aludem aos dois sacramentos fundamentais dos que vive a Igreja: o Batismo e a Eucaristia. Do lado transpassado do Senhor, de seu coração aberto, brota a fonte viva que mana ao longo dos séculos e edifica a Igreja. O coração aberto é fonte de um novo rio de vida; neste contexto, João certamente pensou também na profecia de Ezequiel, que vê manar do novo templo um rio que proporciona fecundidade e vida (Ez 47): Jesus mesmo é o novo templo, e seu coração aberto é a fonte da qual brota um rio de vida nova, que se nos comunica no Batismo e na Eucaristia.

A liturgia da solenidade do Sagrado Coração de Jesus, no entanto, prevê como canto de comunhão outra palavra, semelhante a essa, extraída do evangelho de João: "Se alguém tiver sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura: Do seu interior manarão rios de água viva" (cf. Jo 7 ,37s). Na fé bebemos, por assim dizer, da água viva da Palavra de Deus. Assim, o crente converte-se ele mesmo em uma fonte, que dá água viva à terra ressequida da história. O vemos nos santos. O vemos em Maria que, como grande mulher de fé e de amor, converteu-se ao longo dos séculos em fonte de fé, amor e vida. Cada cristão e cada sacerdote deveriam transformar-se, a partir de Cristo, em fonte que comunica vida aos demais. Deveríamos dar a água da vida a um mundo sedento. Senhor, vos damos graças porque nos abriu vosso coração; porque em vossa morte e ressurreição vos converteste em fonte de vida. Faz que sejamos pessoas vivas, vivas por tua fonte, e dá-nos ser também nós fonte, de maneira que possamos dar água viva a nosso tempo. Te agradecemos a graça do ministério sacerdotal. Senhor, abençoai-nos e abençoai a todos os homens deste tempo que estão sedentos e buscando. Amém!

Quem recorre a ela, nunca se frustra!


Nunca se ouviu dizer, que todo aquele que pediu com fé a graça almejada, tenha sido desamparado pela Santissima Virgem. Ela não falta , a todo aquele que a invoca.
Para o desesperado, torna-se Nossa Senhora da Esperança. Para o agonizante é a Senhora do Bom Remédio. Ao triste é certeza da verdadeira alegria. Ao derrotado,aparece-lhe como Nossa Senhora da Vitória. Para o viajante, é aquela que guia e conduz. Ao prisioneiro é Mãe da liberdade. Ao carente é Mãe que acolhe no aconchego do colo maternal. É Senhora do Mont Serrat; é Senhora do Carmo, da Conceição, de Nazaré, de Fátima, de Lourdes, de Aparecida... É simplesmente Maria, a Mãe de Deus, Senhora minha.
Ela nunca se esquecerá de seus filhos amados. Nunca desistirá de nós, pois quem ama vai até o fim com o seu amor. Não será lenta em socorrer os seus, porque quem ama corre, se apressa, não vê distâncias. O lugar, o tempo, o espaço nunca será obstáculo para o seu encontro: quem ama de verdade não vê limites.
Enfim, Maria nos auxilia nesta caminhada de eternidade, nos leva até seu Filho Jesus e nos faz repetir seu lema de vida: " Senhor, faça-se em mim segundo a Tua palavra."

Ass: Sem. Rafael Viana Lima
II ano de Filosofia do Seminário São José, RJ