quarta-feira, 22 de setembro de 2010

As Encíclicas e o Espírito Santo (Cardeal Sales)



Ao retomarmos nossas reflexões sobre os documentos da Igreja, recordo hoje uma breve Carta Encíclica, cujo tema era o Espírito Santo, publicada a 18 de maio de 1986, pelo Papa João Paulo II. Em 1980, havia publicado uma outra, “Dives in Misericordia” (“Rico em Misericórdia”); no ano anterior, a “Redemptor Hominis” (“Redentor do Homem”), sobre Jesus Cristo. Conforme ele mesmo disse, as três formam uma trilogia dedicada à Santíssima Trindade. Abordaremos cada uma delas.

Os ensinamentos pontifícios são ministrados aos fiéis de modo variado e em diferentes níveis, quanto à importância do conteúdo. Um deles leva o nome de encíclica e goza de particular relevância. A primeira data de 1740, a “Ubi Primum”, de Bento XIV. Umas são doutrinárias; outras, mais exortativas. A 280ª pode ser incluída nessas duas categorias e o resumo dela traduz-se bem pelo título: Carta Encíclica “Dominum et Vivificantem”, sobre o “Espírito Santo”, que dá vida à Igreja e ao mundo.

Perpassa-lhe as páginas a extraordinária influência do Paráclito na vida da Igreja, nesses mais de dois mil anos de atividade redentora em favor da Humanidade. De par com os aspectos positivos, leva-nos a examinar nossas infidelidades nesse largo período de tempo, desde Sua vinda no Cenáculo até nossa época.

Convida-nos a “meditar no mistério de Deus uno e trino que, em si mesmo, é absolutamente transcendente em relação ao mundo, de modo especial em relação ao mundo visível; é, na realidade, Espírito absoluto: ‘Deus é Espírito’ (Jo 4,24). Mas, simultaneamente e de modo admirável, não só está próximo deste mundo, mas está aí presente e, em certo sentido, imanente, compenetra-o e vivifica-o por dentro. Isto é válido, em especial, quanto ao homem: Deus está no íntimo do seu ser (...). Só o Espírito pode ser a tal ponto imanente ao homem e ao mundo, permanecendo inviolável e imutável a sua transcendência absoluta” (“Dominum et Vivificantem”, nº 54).

Na introdução, o documento lembra as palavras do Papa Paulo VI, em junho de 1973, sobre o incremento do culto ao Espírito Santo “como complemento indispensável do ensino conciliar” (idem, nº2). “A Igreja responde também a certos apelos profundos, que julga ler nos corações dos homens de hoje: uma nova descoberta de Deus na sua transcendente realidade de Espírito infinito” (idem). Assim, podemos entender a importância desta Encíclica. Ela sublinha o valor religioso do esforço humano. Os que não têm Fé avaliam o procedimento dos cristãos pela sua participação no desenvolvimento material, no combate à fome, às injustiças sociais, em prol dos direitos da pessoa. Contudo, alcance muito maior se constata em tudo que é realizado em favor do aspecto espiritual. Aliás, tal atitude não menospreza a solução dos problemas imediatos que nos afligem. O Papa João Paulo II, com a “Dominum et Vivificantem”, atinge também a causa desses males. Contribui, assim, de maneira mais eficaz na correção dos flagelos da Humanidade do que se abordasse apenas os efeitos do pecado.

A primeira parte da Encíclica se intitula: “O Espírito do Pai e do Filho dado à Igreja”. Por isso, a Igreja pode conservar sempre intacta a verdade que os Apóstolos aprenderam de seu Mestre (nº 4). Somente assim “introduz-se o homem oportunamente na realidade do mistério revelado” (nº 6).

Neste capítulo, acompanhamos o desabrochar da Revelação divina sobre a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, da Criação aos ensinamentos de Jesus e à manifestação do Paráclito, após a Ascensão. Com a vinda deste, tem início a história da Igreja. E Ele é a garantia de sua perenidade (nº 26).

A segunda parte traz por título: “O Espírito que convence o mundo quanto ao pecado”.

Chamado à existência, o ser humano é mera criatura e, como tal, depende do Criador. Transgredir os limites estabelecidos por Ele constitui desobediência ao Senhor e uma agressão ao indivíduo, isto numa perspectiva transcendental. Tudo ocorreu em nossas origens e se repete na vida de cada um. “Deus permanece a primeira e soberana fonte para decidir sobre o bem e o mal (...) e o Espírito é para o homem a luz da consciência e a fonte da ordem moral” (nº 36). “E o faz reconhecer o mal cometido, orientando-o (...) ao mesmo tempo para o bem que se completa pela conversão” (nº 42). E acrescenta a Encíclica: “A consciência, portanto, não é uma fonte autônoma e exclusiva para decidir o que é bom e o que é mau; pelo contrário, nela está inscrito profundamente um princípio de obediência relacionado com a norma objetiva” (nº 43). O Espírito da verdade, ao permitir a dor do remorso, torna-a salvífica, quando, por um ato de contrição perfeita, opera a conversão perfeita.

O terceiro capítulo aborda o tema: “O Espírito que dá a vida”. Nesse sentido, a contribuição divino-humana da Igreja, vivificada pelo Espírito, assim como sua missão, também se fundamenta n’Ele. E, mediante a Eucaristia, a unidade tão desejada recebe o indispensável alimento.

Vejo este documento como fator muito eficaz na luta que travam os cristãos. Inseridos em um mundo atribulado, no qual impera nítida inversão de valores, as considerações sobre o Espírito Santo desfrutam de particular importância. Levam-nos ao aperfeiçoamento de nossa prática religiosa e fortalecem os fiéis nos embates frente a uma mentalidade pagã reinante na sociedade.

Peçamos ao Espírito Santo que nos ilumine a professar a doutrina do Senhor, mesmo à custa de sacrifícios e incompreensões.

Romaria dos Bispos ( Dom Orani João Tempesta)


A visita “ad limina Apostolorum”, que significa no limiar, na soleira, na entrada, nos limites (das basílicas) dos apóstolos (Pedro e Paulo), é uma visita dos bispos diocesanos aos túmulos dos Apóstolos, na Diocese de Roma, a primeira de todas as Dioceses do mundo e onde está a Sé de Pedro, com quem se encontram na pessoa do Santo Padre.

Visita esta carregada de importância e feita com periodicidade quinquenal, ou seja, obrigatória a cada cinco anos. Evidentemente que isso depende muito da época e dos compromissos do Papa e do número de Bispos Católicos. Ela é prevista no Código de Direito Canônico nos seus cânones 399-400 (“o Bispo deve ir a Roma para venerar os sepulcros dos Apóstolos Pedro e Paulo e apresentar-se ao Romano Pontífice”).

Essa tradição salutar é uma graça de Deus que nos dá oportunidade de estar junto à Sé de Pedro como um voltar às fontes e às inspirações originais em tudo aquilo que significa esses locais. Também as congregações, institutos, comunidades e grupos diversos hoje fazem o mesmo, enviando as pessoas que estão ligadas a certo trabalho ou carisma a irem atualizar-se nos locais onde a vida e o carisma iniciaram. Isso faz parte de toda instituição que busca retornar sempre ao carisma inicial. Recordemos o esforço do Concílio Ecumênico Vaticano II sobre o tema da “volta às fontes”. A presença nos locais históricos ajuda-nos a estar ainda mais unidos ao espírito inicial.

Por isso, no seu cerne, é uma demonstração de afeto e de obediência ao sucessor de Pedro, num reconhecimento visível de sua universal jurisdição sobre todo o orbe católico, dentro de uma peregrinação dos bispos a Roma e com um encontro pessoal com o Santo Padre.

Por sua vez, o Santo Padre demonstra afeto e solicitude para com todas as dioceses do mundo, dando-lhes conselhos e orientações e, claro, diretrizes. Nos pronunciamentos do Papa, encontramos algo próprio para cada regional que faz a visita e também uma orientação para toda a Igreja que está no Brasil, de forma que, colecionando e publicando os textos dos discursos do Santo Padre, temos um tratado de reflexões sobre a caminhada da Igreja em nosso País.

Desde remotos idos, era costume que os bispos fizessem esta visita periódica ao Papa, em Roma. As primeiras manifestações dessas visitas, nós as encontramos na prática entre os bispos italianos, cuja jurisdição se mostrava mais próximas da Sé Apostólica. Sob o Primado do Papa Zacarias (743), encontramos decretos pedindo aos bispos da Sicília que fizessem uma visita a Roma uma vez pelo menos a cada três anos, o que depois foi alongado para cinco anos. O caráter obrigatório das visitas foi expresso sob o Pontificado de Pascoal II e principalmente em decretos de Inocêncio III.

O ritmo atual das visitas está nas decretais do Papa São Pio X. Em dezembro de 1909 o Sumo Pontífice já pedia que os Bispos enviassem junto com a visita um relatório completo sobre o estado de suas dioceses. Essa obrigatoriedade é contemplada hoje no Código de Direito Canônico: “o Bispo Diocesano tem obrigação de apresentar ao Sumo Pontífice, a cada cinco anos, um relatório sobre a situação da diocese que lhe está confiada” (can 399).

Nesse relatório, os bispos prestam contas de suas administrações ao Papa e à Santa Sé. Podemos resumir este relatório da seguinte forma: nome, idade e pátria, sua ordem religiosa, se a ela o bispo pertenceu quando foi sagrado bispo. Depois uma declaração geral do estado da sua diocese e o crescimento ou decréscimo do número de fiéis, e a sua relação com o último quinquênio apresentado. Informa-se também a origem da diocese, seu grau hierárquico: diocese ou arquidiocese, e, nesta última, o número de sedes sufragâneas. A extensão territorial da diocese, a sua língua e endereços de correspondências para eventuais consultas posteriores e complementares. Se há católicos de outros ritos presentes em seu território, o número possível de não católicos e a presença de outras igrejas ou denominações religiosas de expressão. Informa-se também, é claro, o número de sacerdotes e de ordenações acontecidas e a questão vocacional e a presença de seminaristas em sua casa de formação. Menciona-se o número de paróquias e outros lugares de culto e também a presença e o número de casas religiosas e colégios católicos. Enfim, é um relatório minucioso sobre a situação geral e o estado específico da diocese. Esse relatório deve ser entregue em até seis meses antes da visita e não menos de três meses do início desta.

A periodicidade começou em 1911. Existia, no passado, certa organização, quando, nos primeiros cinco anos, caberia aos bispos da Itália e aos bispos das ilhas da Córsega, Sardenha e Sicilia e Malta; no segundo período, aos bispos da Espanha, Portugal, França, Bélgica, Países Baixos, Inglaterra, Escócia e Irlanda; no terceiro período caberia aos Bispos do Império austro-húngaro e Alemão, e o resto da Europa, no quarto período aos bispos da América e quinto período aos bispos Africanos, Ásia, Austrália e ilhas adjacentes. Evidentemente que hoje depende muito das circunstâncias e das novas realidades. Hoje os documentos que regulam a visita são o Decreto “Ad Romanan Ecclesiam” de 29 de junho de 1975 e os artigos 28 a 32 da Constituição “Pastor Bonus” de João Paulo II, de 28 de Junho de 1988.

Durante o ano santo de 2000, o Papa João Paulo II suspendeu as visitas ad limina devido às comemorações do Ano Santo. Com a sua doença e retorno ao Pai e a eleição do Papa Bento XVI, as datas foram postergadas. Podemos notar também que o número de bispos cresceu significativamente nos últimos anos. De acordo com o anuário pontifício, no final de 1983 tínhamos 2.285 bispos diocesanos no mundo e outros 651 bispos auxiliares. Até o final de 2006 havia 2.705 bispos e cerca de 610 bispos auxiliares. Em essência, isso significa que o Papa teria que atender, em média, 457 bispos diocesanos a cada ano, a fim de vê-los todos, novamente, em cinco anos. Hoje essa média subiu para 541.

Embora a obrigação da visita seja dos bispos titulares, estes, em geral, se fazem acompanhar pelos auxiliares. Assim como o Papa assume uma visita de cerca de 10-20 minutos por grupo, se multiplicarmos isso em horas chegaremos a números significativos para a agenda papal.

Essa visita é, evidentemente, uma visita de trabalho, de reuniões e de contatos que os bispos fazem junto à Santa Sé e a seus diversos organismos e dicastérios e comissões pontifícias. O nosso Regional Leste 1, além das celebrações nas Basílicas Romanas e da audiência e encontro com o Santo Padre, já agendou em média três visitas aos vários departamentos da Cúria Romana, durante os dias da visita “ad limina”, que irá acontecer de 23 a 30 deste mês de setembro.

Peçamos ao Senhor que esta visita seja uma fonte de graças para a nossa Arquidiocese, e que lá, junto ao túmulo de Pedro e junto ao seu sucessor, o Santo Padre Bento XVI, possamos buscar forças para a nossa caminhada, e que as suas diretivas nos ajudem, como sinalizou em sua recente visita pastoral ao Reino Unido, já “que a proclamação cristã e o testemunho são cada vez mais importantes em um mundo marcado não somente pelo individualismo, mas também "indiferente ou inclusive hostil à mensagem cristã". Por isso, estar com o Papa Bento XVI é ter a certeza de “que a fidelidade exige obediência para poder alcançar uma compreensão mais profunda da vontade do Senhor".

Irei levando todos os queridos arquidiocesanos no coração e nas orações em todas as atividades que teremos durante esta semana, anseios, alegrias, dificuldades, buscas, sonhos. Assim, junto com os bispos do Regional Leste 1, que compreende o Estado do Rio de Janeiro e alguns irmãos bispos que se associaram a nós, fazemos essa romaria para renovar a bonita e corajosa obediência que deve estar "livre de conformismo intelectual ou acomodação fácil às modas do momento". Por isso, unidos ao Papa Bento XVI, temos a convicção de que as suas palavras são sempre palavras que nos guiam neste momento histórico: "de fidelidade ao seu ministério de Bispo de Roma e Sucessor de São Pedro, encarregado de cuidar especialmente da unidade do rebanho de Cristo."

É isso que esperamos desta visita e esta é a nossa meta de Arcebispo do Rio de Janeiro: superar as diferenças e disputas para vivermos a unidade "UT OMNES UNUM SINT".

MENSAGEM DO CARDEAL TARCISIO BERTONE, EM NOME DO SANTO PADRE, AO XXXI MEETING PARA A AMIZADE ENTRE OS POVOS




Excelência Reverendíssima!

É com alegria que tenho o prazer de transmitir a cordial saudação do Santo Padre a Vossa Excelência, aos organizadores e a todos os participantes no Meeting para a Amizade entre os povos, que se realiza em Rímini.

Este ano o título da vossa importante manifestação – "Aquela natureza que nos estimula a desejar coisas grandes é o coração" – recorda-nos que no fundo da natureza de cada homem se encontra uma insuprimível inquietude que o estimula à busca de algo que satisfaça este seu anseio. Cada homem intui que precisamente na realização dos desejos mais profundos do seu coração pode encontrar a possibilidade de se realizar, de se completar, de se tornar deveras ele mesmo.

O homem sabe que não pode responder sozinho às próprias necessidades. Por mais que se iluda de ser auto-suficiente, ele experimenta que não se pode bastar a si mesmo. Precisa de se abrir ao outro, a algo ou a alguém, que lhe possa doar o que lhe falta. Por assim dizer, deve sair de si mesmo rumo ao que é capaz de preencher a amplidão do seu desejo.

Como ressalta o título do Meeting, não é qualquer coisa a meta última do coração do homem, mas só as "coisas grandes". O homem com frequência é tentado a deter-se nas coisas pequenas, nas que dão facilmente uma satisfação e um prazer, nas que satisfazem por um momento, coisas muito fáceis de obter, mas ilusórias. Na narração evangélica das tentações de Jesus (cf. Mt 4, 1-4) o diabo insinua que é "o pão", isto é, a satisfação material que pode contentar o homem. Esta é uma mentira perigosa, porque contém só uma parte da verdade. De facto, o homem vive também de pão, mas não só dele. A resposta de Jesus revela a falsidade última desta posição: "Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus" (Mt 4, 4). Só Deus basta. Só ele sacia a fome profunda do homem. Quem encontrou Deus, encontrou tudo. As coisas finitas podem dar vislumbres de satisfação ou de alegria, mas só o Infinito pode encher o coração do homem: "inquietum est cor nostrum, donec requiescat in te – o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti" (Santo Agostinho, Confissões, I, 1). O homem, no fundo, precisa de uma só coisa que contém tudo, mas primeiro tem que aprender a reconhecer, também através dos seus desejos e dos seus anseios superficiais, aquilo de que necessita deveras, o que verdadeiramente quer, ou seja, que é capaz de satisfazer a capacidade do próprio coração.

Deus veio ao mundo para despertar em nós a sede das "coisas grandes". Isto sobressai bem na página evangélica, de inexaurível riqueza, que narra o encontro de Jesus com a mulher samaritana (cf. Jo 4, 5-42), da qual Santo Agostinho nos deixou um comentário luminoso. A samaritana vivia a insatisfação existencial de quem ainda não encontrou o que procura: tivera "cinco maridos" e naquele momento convivia com outro homem. Aquela mulher, como fazia habitualmente, tinha ido buscar água ao poço de Jacob e ali encontrou Jesus, sentado, "cansado da viagem", no aperto do calor do meio-dia. Depois de lhe ter pedido de beber, é o próprio Jesus que lhe oferece água, não uma qualquer, mas "uma água viva", capaz de matar a sede. E assim ele abria "pouco a pouco espaço [...] no coração dela" (S. Agostinho, Comentário ao Evangelho de João, XV, 12), fazendo emergir o desejo de algo mais profundo do que a simples necessidade de satisfazer a sede material. Santo Agostinho comenta: "Aquele que pedia de beber, tinha sede da fé daquela mulher" (Ibid., XV, 11). Deus tem sede da nossa sede d'Ele. O Espírito Santo, simbolizado pela "água viva" da qual falava Jesus, é precisamente aquele poder vital que aplaca a sede mais profunda do homem e lhe dá a vida total, aquela vida que ele procura e aguarda sem a conhecer. Então a samaritana deixou no chão o jarro "que já não lhe servia, que, aliás, se tinha tornado um peso: agora o seu desejo era beber unicamente daquela água" (Ibid., XV, 30).

Também os discípulos de Emaús vivem perante Jesus a mesma experiência. É ainda o Senhor que faz "arder o coração" aos dois enquanto caminhavam "com o rosto triste (cf. Lc 24, 13-35). Mesmo não reconhecendo Jesus ressuscitado, durante o percurso realizado juntamente com Ele, eles sentiam o coração "a arder no peito", retomar vida, a ponto que, tendo chegado a casa, "insistiram" para que ele permanecesse com eles. "Ficai connosco, Senhor": é a expressão do desejo que palpita no coração de cada ser humano. Este desejo de "coisas grandes", deve transformar-se em oração. Os Padres afirmavam que rezar mais não é do que transformar-se num desejo ardente do Senhor. Num lindíssimo texto Santo Agostinho define a oração como expressão do desejo e afirma que Deus responde alargando para Ele o nosso coração: "Deus [...]ao suscitar em nós o desejo, alarga o nosso coração; e alargando o nosso coração, torna-o capaz de o acolher" (Comentário à Primeira Carta de João, IV, 6). Por nosso lado devemos purificar os nossos desejos e as nossas esperanças para poder acolher a doçura de Deus. "Esta – prossegue Santo Agostinho – é a nossa vida: exercitar-nos no desejo" (Ibid.). Rezar diante de Deus é um caminho, uma escada: é um processo de purificação dos nossos pensamentos, dos nossos desejos. A Deus podemos pedir tudo. Tudo o que é bom. A bondade e o poder de Deus não conhecem um limite entre as coisas grandes e as pequenas, entre as materiais e as espirituais, entre as terrenas e as celestes. No diálogo com Ele, tendo toda a nossa vida diante dos seus olhos, aprendemos a desejar as coisas boas, a desejar, no fundo, o próprio Deus. Narra-se que, num dos seus momentos de oração, São Tomás de Aquino ouviu o Senhor Crucificado dizer-lhe: "Escreveste bem acerca de mim, Tomás; o que desejas?". "Nada mais do que a Ti", foi a resposta do Santo doutor. "Nada mais do que a Ti". Aprender a rezar é aprender a desejar e, assim, aprender a viver.

À distância de cinco anos da morte do sacerdote Luigi Giussani, o Sumo Pontífice une-se espiritualmente aos membros do Movimento Comunhão e libertação. Como teve a ocasião de recordar durante a Audiência na Praça de São Pedro a 24 de Março de 2007, "Pe. Giussani comprometeu-se [...] a despertar nos jovens o amor a Cristo, "Caminho, Verdade e vida", repetindo que só Ele é o caminho rumo à realização dos desejos mais profundos do coração do homem".

Ao confiar aos participantes no Meeting estas reflexões, desejando que sirvam de ajuda para conhecer, encontrar e amar cada vez mais o Senhor e testemunhar no nosso tempo que as "grandes coisas" por que o coração humano anseia se encontram em Deus, Sua Santidade Bento XVI garante a sua oração e de bom grado envia a Vossa Excelência, aos responsáveis e organizadores e a todos os presentes a Bênção Apostólica.

Uno cordialmente também os meus votos e aproveito a circunstância para me confirmar com sentimentos de distinto obséquio

de Vossa Excelência Reverendíssima
devotíssimo no Senhor
Tarcisio Card. Bertone
Secretário de Estado


Do Vaticano, 10 de Agosto de 2010

Homilia do Santo Padre na Santa Missa em Bellahouston Park - Glasgow



Prezados irmãos e irmãs em Cristo!

«O Reino de Deus está próximo de vós» (Lc 10, 9). Com estas palavras do Evangelho, que há pouco ouvimos, saúdo todos vós com grande afecto no Senhor. Verdadeiramente, o Reino de Deus já está no meio de nós! Nesta Celebração eucarística, em que a Igreja que está presente na Escócia se congrega ao redor do altar, em união com o Sucessor de Pedro, voltamos a confirmar a nossa fé na palavra de Cristo e a nossa esperança — uma esperança que jamais desilude — nas suas promessas! Saúdo cordialmente o Cardeal O’Brien e os Bispos escoceses; agradeço de maneira particular ao Arcebispo D. Conti as amáveis palavras de boas-vindas, que me dirigiu em vosso nome; e manifesto a minha profunda gratidão pelo trabalho que os Governos britânico e escocês, bem como a municipalidade de Glasgow, levaram a cabo para tornar possível esta circunstância.

O Evangelho hodierno recorda-nos que Cristo continua a enviar os seus discípulos pelo mundo, para anunciar a vinda do seu Reino e levar a sua paz ao mundo, passando de casa em casa, de família em família, de cidade em cidade. Eu vim ao meio de vós, filhos espirituais de Santo André, como arauto desta mesma paz, e para vos confirmar na fé de Pedro (cf. Lc 22, 32). É com uma certa emoção que me dirijo a vós, não distante do lugar onde o meu amado predecessor, Papa João Paulo II, há cerca de trinta anos, celebrou convosco a Missa, acolhido pela maior multidão que jamais se tenha reunido na história escocesa.

Muitas coisas aconteceram desde aquela visita histórica, tanto na Escócia como na Igreja presente neste país. É com grande satisfação que observo como a exortação que vos foi dirigida pelo Papa João Paulo II, a caminhar de mãos dadas com os vossos irmãos cristãos, levou a uma confiança e amizade mais intensas com os membros da Igreja na Escócia, da Igreja episcopal escocesa e das demais Comunidades cristãs. Permiti-me encorajar-vos a continuar a rezar e a trabalhar com eles, em prol da construção de um futuro mais luminoso para a Escócia, fundado na nossa comum herança cristã. Na primeira leitura, hoje proclamada, ouvimos o convite dirigido por São Paulo aos Romanos a reconhecer que, como membros do corpo de Cristo, pertencemo-nos uns aos outros (cf. Rm 12, 5), e a viver com respeito e amor recíprocos. É com este espírito que saúdo os representantes das outras Confissões cristãs, que nos honram com a sua presença. No corrente ano celebra-se o 450º aniversário do «Reformation Parliament», mas também o centenário da Conferência Missionária Mundial de Edimburgo, que é geralmente considerada como o nascimento do movimento ecuménico moderno. Demos graças ao Senhor pela promessa que representa o entendimento e a cooperação ecuménica, em vista de um testemunho concorde da verdade salvífica da palavra de Deus na sociedade contemporânea, em rápida transformação.

Entre os diversos dons que São Paulo enumera para a edificação da Igreja, encontra-se o do ensinamento (cf. Rm 12, 7). A pregação do Evangelho sempre foi acompanhada de uma preocupação pela palavra: a palavra inspirada de Deus e a cultura em que esta palavra lança raízes e na qual se desenvolve. Aqui na Escócia, penso nas três Universidades medievais fundadas pelos Sumos Pontífices, compreendida a de Santo André, que está prestes a celebrar o sexto centenário da própria fundação. Nos últimos trinta anos, com a ajuda das autoridades civis, as escolas católicas escocesas têm enfrentado o desafio de assegurar uma educação integral a um maior número de estudantes, e isto serviu de ajuda aos jovens não apenas para o caminho de um desenvolvimento humano e espiritual, mas também para a inserção nas profissões e na vida pública. Trata-se de um sinal de grande esperança para a Igreja e desejo encorajar os profissionais, os políticos e os educadores católicos escoceses a nunca perderem de vista a sua chamada a utilizar os seus talentos e e a sua experiência ao serviço da fé, confrontando-se com a cultura escocesa contemporânea a todos os níveis.

A evangelização da cultura é ainda mais importante na nossa época, em que uma «ditadura do relativismo» ameaça ofuscar a verdade imutável a respeito da natureza do homem, do seu destino e do seu bem derradeiro. Hoje existem indivíduos que procuram excluir o credo religioso da esfera pública, de torná-lo uma realidade particular ou até de apresentá-lo como uma ameaça para a igualdade e a liberdade. Pelo contrário, na verdade a religião constitui uma garantia de liberdade e respeito autênticos, que nos leva a considerar cada pessoa como um irmão ou uma irmã. Por este motivo, dirijo um apelo particularmente a vós fiéis leigos, a fim de que, em conformidade com a vossa vocação e a missão baptismal, não apenas possais ser um exemplo público de fé, mas saibais tornar-vos defensores na esfera pública da promoção da sabedoria e da visão do mundo que derivam da fé. A sociedade contemporânea tem necessidade de vozes claras, que proponham o nosso direito a viver não numa selva de liberdades autodestruidoras e arbitrárias, mas sim numa sociedade que trabalha em prol do verdadeiro bem-estar dos seus cidadãos, oferecendo-lhes orientação e salvaguarda diante das suas debilidades e fragilidades. Não tenhais medo de vos dedicar a este serviço em favor dos vossos irmãos e irmãs, e do futuro da vossa amada nação.

São Ninian, cuja festa celebramos no dia de hoje, não teve medo de ser uma voz solitária. Seguindo os passos dos discípulos que nosso Senhor tinha enviado à sua frente, Ninian foi um dos primeiros missionários católicos a anunciar aos seus concidadãos a boa nova de Jesus Cristo. A sua missão em Galloway tornou-se um centro para a primeira evangelização deste país. Sucessivamente, aquela obra foi promovida por São Mungo, padroeiro de Glasgow, assim como por outros Santos, entre os maiores dos quais há que recordar São Columba e Santa Margarida. Inspirados por eles, numerosos homens e mulheres trabalharam durante muitos séculos, para fazer com que a fé chegasse até vós. Procurai ser dignos desta grandiosa tradição! Seja vossa inspiração constante a exortação de São Paulo, contida na primeira leitura: «Não sejais indolentes na realização do bem, mas sede fervorosos no espírito; servi o Senhor. Sede jubilosos na esperança, constantes na tribulação e perseverantes na oração» (cf. Rm 12, 11-12).

Agora, desejo dirigir uma palavra especial aos Bispos da Escócia. Dilectos irmãos, permiti-me encorajar-vos na vossa responsabilidade pastoral em relação aos católicos da Escócia. Como sabeis, uma das primeiras tarefas pastorais visa os vossos sacerdotes (cf. Presbyterorum ordinis, 7) e a sua santificação. Dado que eles são alter Christus para a Comunidade católica, assim também vós o sois para eles. Vivei plenamente a caridade que deriva de Cristo, no vosso ministério fraterno em prol dos vossos sacerdotes, colaborando com todos eles e de maneira particular com quantos mantêm contactos escassos com os próprios irmãos. Rezai com eles pelas vocações, a fim de que o Senhor da messe mande trabalhadores para a sua messe (cf. Lc 10, 2). Assim como é a Eucaristia que faz a Igreja, o sacerdócio é central para a vida da Igreja. Comprometei-vos pessoalmente na formação dos vossos presbíteros como uma fraternidade que inspira os outros a dedicarem-se completamente a si mesmos ao serviço de Deus Todo-Poderoso. Tende cuidado também dos vossos diáconos, cujo ministério de serviço está unido de forma particular ao serviço da ordem dos Bispos. Sede para eles pais e guias ao longo do caminho da santidade, animando-os a crescer no conhecimento e na sabedoria, cumprindo a missão de anunciadores para a qual eles foram chamados.

Estimados sacerdotes da Escócia, sois chamados à santidade e ao serviço do povo de Deus, modelando as vossas vidas segundo o mistério da cruz do Senhor. Anunciai o Evangelho com um coração puro e uma consciência recta. Dedicai-vos vós mesmos unicamente a Deus, e haveis de tornar-vos para os jovens exemplos luminosos de uma vida santa, simples e jubilosa: eles, por sua vez, indubitavelmente hão-de desejar unir-se a vós no vosso serviço assíduo ao povo de Deus. Que o exemplo de dedicação, de generosidade e de coragem de São João Ogilvie vos inspire a todos. De modo semelhante, permiti-me animar-vos também a vós, monges, religiosas e religiosos da Escócia, a serdes como uma luz colocada no ponto mais elevado da colina, levando uma autêntica vida cristã de oração e de acção que dê testemunho da força do Evangelho de maneira resplandecente.

Finalmente, desejo dirigir-vos uma palavra a vós, meus queridos jovens católicos da Escócia. Exorto-vos a levar uma vida digna de nosso Senhor (cf. Ef 4, 1) e de vós mesmos. Existem numerosas tentações que deveis enfrentar todos os dias – a droga, o dinheiro, o sexo, a pornografia e o álcool – que segundo o mundo vos darão a felicidade, mas na verdade trata-se de realidades destruidoras, que criam divisão. Só existe uma coisa que permanece: o amor pessoal de Jesus Cristo por cada um de vós. Procurai-o, conhecei-o e amai-o, e Ele tornar-vos-á livres da escravidão da existência sedutora mas superficial, frequentemente proposta pela sociedade contemporânea. Deixai de lado aquilo que não é digno de valor e tomai consciência da vossa dignidade de filhos de Deus. No Evangelho de hoje, Jesus pede-nos que rezemos pelas vocações: oro a fim de que muitos de vós conheçam e amem Jesus Cristo e, através de tal encontro, cheguem a dedicar-se completamente a Deus, de maneira particular quantos de vós são chamados ao sacerdócio e à vida religiosa. Este é o desafio que o Senhor vos dirige hoje: agora, a Igreja pertence a vós!

Caros amigos, exprimo mais uma vez a minha alegria de celebrar esta Missa convosco. Apraz-me assegurar-vos as minhas orações na antiga língua do vosso país: a paz e a bênção de Deus estejam com todos vós; Deus vos proteja; e Deus abençoe o povo da Escócia!

Mensagem de Sua Santidade Bento XVI, para a Jornada Mundial da Juventude 2011



"Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?" (Mc 10, 17)

Queridos amigos,

este ano marca o vigésimo quinto aniversário de instituição da Jornada Mundial da Juventude, desejada pelo Venerável João Paulo II como encontro anual de jovens crentes do mundo inteiro. Foi uma iniciativa profética que rendeu frutos abundantes, permitindo às novas gerações cristãs encontrarem-se, entrarem em atitude de escuta da Palavra de Deus, de descobrir a beleza da Igreja e de viver experiências fortes de fé que levaram muitos à decisão de entregar-se totalmente a Cristo.

A presente XXV Jornada representa um passo rumo ao próximo Encontro Mundial dos jovens, que será realizado em agosto de 2011 em Madrid, onde espero que sejam muitos a viver este momento de graça.

Para preparar-nos a essa celebração, desejo propor-vos algumas reflexões sobre o tema deste ano: "Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?" (Mc 10, 17), tirado do episódio evangélico do encontro de Jesus com o jovem rico; um tema já abordado, em 1985, pelo Papa João Paulo II em uma belíssima carta, dirigida pela primeira vez aos jovens.


1. Jesus encontra um jovem

"Tendo [Jesus] saído para se pôr a caminho, - conta o Evangelho de São Marcos - veio alguém correndo e, dobrando os joelhos diante dele, suplicou-lhe: 'Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?'. Jesus disse-lhe: 'Por que me chamas bom? Só Deus é bom. Conheces os mandamentos: não mates; não cometas adultério; não furtes; não digas falso testemunho; não cometas fraudes; honra pai e mãe'. Ele respondeu-lhe: 'Mestre, tudo isto tenho observado desde a minha mocidade'. Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe: 'Uma só coisa te falta; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me'. O jovem entristeceu-se com estas palavras e foi-se todo abatido, porque possuía muitos bens" (Mc 10, 17-22).

Esta história expressa de modo eficaz a grande atenção de Jesus pelos jovens, por vós, por vossas expectativas, vossas esperanças, e mostra o quão grande é o seu desejo de encontrar-vos pessoalmente e dialogar com cada um de vós. Cristo, de fato, interrompe seu caminho para responder à pergunta de seu interlocutor, manifestando plena disponibilidade para aquele jovem, que é movido por um ardente desejo de falar com o "Bom Mestre", para aprender d'Ele a percorrer a estrada da vida. Com esse trecho evangélico, o meu Predecessor desejava exortar cada um de vós a "desenvolver o próprio colóquio com Cristo, um colóquio que é de importância fundamental e essencial para um jovem" (Carta Apostólica aos jovens Dilecti Amici, n. 2).


2. Jesus o olhou e o amou

No relato evangélico, São Marcos salienta como "Jesus fixou nele o olhar e o amou" (cf. Mc 10, 21). No olhar do Senhor está o coração deste especialíssimo encontro e de toda a experiência cristã. De fato, o cristianismo não é primariamente uma moral, mas experiência de Jesus Cristo, que nos ama pessoalmente, jovem ou velho, pobre ou rico; nos ama mesmo quando lhe viramos as costas.

Comentando a cena, o Papa João Paulo II acrescentava, dirigindo-se a vós, jovens: "Desejo que experimenteis um olhar assim. Desejo que experimenteis a verdade de que Cristo os olha com amor" (Carta Apostólica aos jovens Dilecti Amici, n. 7). Um amor, manifestado a nós sobre a Cruz de maneira plena e total, que faz São Paulo escrever com espanto: "Me amou e se entregou por mim" (Gal 2,20). "A consciência de que o Pai sempre nos amou em seu Filho, de que Cristo ama a cada um e sempre - escreve agora o Papa João Paulo II -, se converte em un sólido ponto de apoio para toda nossa existência humana" (Ibid, n. 7), e nos permite superar todos as provas: a descoberta de nossos pecados, o sofrimento, o desânimo.

Neste amor se encontra a fonte de toda a vida cristã e a razão fundamental da evangelização: se temos verdadeiramente encontrado Jesus, não podemos deixar de testemunhá-lo àqueles que ainda não encontraram o seu olhar!


3. A descoberta do projeto de vida

No jovem do Evangelho, podemos perceber uma condição muito similar àquela de cada um de vós. Também vós sois ricos de qualidade, de energias, de sonhos, de esperanças: recursos que vós possuís em abundância! A vossa própria idade se constitui uma grande riqueza, não somente para vós, mas também para os outros, para a Igreja e para o mundo.

O jovem rico pergunta a Jesus: "O que devo fazer?". A estação da vida em que estais imersos é tempo de descoberta: dos dons que Deus vos deu e das vossas responsabilidades. É, também, tempo de escolhas fundamentais para construir o vosso projeto de vida. É o momento, pois, de interrogar-vos sobre o autêntico sentido da existência e de perguntar-vos: "Estou satisfeito com minha vida? Está faltando alguma coisa?".

Como o jovem do Evangelho, talvez vós viveis situações de instabilidade, de turvamento ou de sofrimento, que vos levais a aspirar a uma vida que não seja medíocre e a perguntar-vos: em que consiste uma vida bem sucedida? O que devo fazer? Qual poderia ser o meu projeto de vida? "O que devo fazer para que minha vida tenha pleno valor e pleno sentido?" (Ibid., n. 3).

Não tenhais medo de afrontar essas questões! Longe de oprimir-vos, elas expressam as grandes aspirações que estão presentes no vosso coração. Portanto, devem ser ouvidas. Elas aguardam respostas que não sejam superficiais, mas capazes de atender às vossas autênticas expectativas de vida e de felicidade.

Para descobrir o projeto de vida que pode fazer-vos plenamente feliz, colocai-vos em escuta a Deus, que tem o seu plano de amor por cada um de vós. Com confiança, perguntai-lhe: "Senhor, qual é o teu plano de Criador e Pai sobre minha vida? Qual é a tua vontade? Eu desejo realizá-la". Tenhais certeza de que Ele vos responderá. Não tenhais medo de sua resposta! "Deus é maior que nosso coração e conhece todas as coisas" (1 Jo 3, 20)!


4. Vem e segue-me!

Jesus convida o jovem rico a ir muito além da satisfação de suas aspirações e de seus projetos pessoais, ele diz: "Vem e segue-me!". A vocação cristã surge de uma proposta de amor do Senhor e somente pode se realizar graças a uma resposta de amor: "Jesus convida os seus discípulos ao dom total da sua vida, sem cálculos nem vantagens humanas, com uma confiança em Deus sem hesitações. Os santos acolhem este convite exigente, e põem-se com docilidade humilde no seguimento de Cristo crucificado e ressuscitado. A sua perfeição, na lógica da fé por vezes humanamente incompreensível, consiste em não colocar a si mesmos no centro, mas em escolher ir contra a corrente vivendo segundo o Evangelho" (Homilia durante Canonização de cinco beatos, 11 de outubro de 2009).

Seguindo o exemplo de muitos discípulos de Cristo, também vós, queridos amigos, acolheis com alegria o convite para o discipulado, para viver intensamente e de modo frutífero neste mundo. Com o Batismo, de fato, ele chama cada um a segui-Lo com ações concretas, a amá-Lo acima de todas as coisas e a servi-Lo nos irmãos. O jovem rico, infelizmente, não aceitou o convite de Jesus e foi embora triste. Não tinha encontrado a coragem de romper com os bens materiais para encontrar o bem maior proposto por Jesus.

A tristeza do jovem rico do Evangelho é aquela que nasce no coração de cada um quando não se tem a coragem de seguir a Cristo, de fazer a escolha certa. Mas nunca é tarde demais para responder-Lhe!

Jesus não se cansa de dirigir o seu olhar de amor e chamar para ser seus discípulos, mas Ele propõe a alguns uma escolha mais radical. Neste Ano Sacerdotal, desejo exortar os jovens e os rapazes a estarem atentos se o Senhor convida para um dom maior, na via do Sacerdócio ministerial, e a permanecer disponíveis para acolher com generosidade e entusiasmo este sinal de especial predileção, traçando, com a ajuda de um sacerdote, do diretor espiritual, o necessário caminho de discernimento. Não tenhais medo, então, queridos jovens e queridas jovens, se o Senhor vos chama à vida religiosa, monástica, missionária ou de especial consagração: Ele sabe doar profunda alegria àqueles que respondem com coragem!

Convido, também, aqueles que sentem a vocação para o matrimônio a acolhê-la com fé, empenhando-se em colocar uma base sólida para viver um amor grande, fiel e aberto ao dom da vida, que é riqueza e graça para a sociedade e para a Igreja.


5. Orientai-vos rumo à vida eterna

"Que devo fazer para alcançar a vida eterna?". Essa questão do jovem do Evangelho parece distante das preocupações de muitos jovens contemporâneos, porque, como observava o meu Predecessor, "não somos nós a geração a que o mundo e o progresso temporal enchem completamente o horizonte da existência?" (Carta Apostólica aos jovens Dilecti Amici, n. 5). Mas a pergunta sobre a "vida eterna" surge em particulares momentos dolorosos da existência, quando vivenciamos a perda de alguém próximo ou quando vivemos a experiência do fracasso.

Mas o que é "vida eterna", a que se refere o jovem rico? Jesus a ilustra quando, voltando-se a seus discípulos, afirma: "Hei de ver-vos outra vez, e o vosso coração se alegrará e ninguém vos tirará a vossa alegria" (Jo 16, 22). São palavras que indicam uma proposta exaltante de felicidade sem fim, da alegria de ser preenchido pelo amor divino para sempre.

Interrogar-se sobre o futuro definitivo que aguarda a cada um de nós dá sentido pleno à existência, porque orienta o projeto de vida rumo a horizontes não limitados e passageiros, mas amplos e profundos, que levam a amar o mundo, tão amado por Deus mesmo, a dedicar-nos ao seu desenvolvimento, mas sempre com a liberdade e a alegria que nasce da fé e da esperança. São horizontes que ajudam a não absolutizar a realidade terrena, sentindo que Deus nos prepara um perspectiva mais ampla, e a repetir com Santo Agostinho: "Desejamos a pátria celeste, suspiramos pela pátria celeste, nos sentimos peregrinos aqui na terra" (Comentário ao Evangelho de São João, Homilia 35, 9). Mantendo os olhos fixos na vida eterna, o Beato Pier Giorgio Frassati, que morreu em 1925, com 24 anos, disse: "Desejo viver e não subsistir!", e sobre a foto de uma escada, enviada a um amigo, escreveu: "Para o alto", aludindo à perfeição cristã, mas também à vida eterna.

Queridos jovens, exorto-vos a não esquecer essa perspectiva em vosso projeto de vida: somos chamados à eternidade. Deus nos criou para estar com Ele, para sempre. Isso vos ajudará a dar sentido pleno às vossas escolhas e a agregar qualidade à vossa existência.


6. Os mandamentos, via do amor autêntico

Jesus recorda ao jovem rico os dez mandamentos como condições necessárias para "alcançar a vida eterna". Eles são pontos de referência essenciais para viver no amor, para distinguir claramente o bem do mal e construir um projeto de vida sólido e duradouro. Também a vós, Jesus pergunta se conheceis os mandamentos, se vos preocupais em formar a vossa consciência segundo a lei divina e se a colocais em prática.

Naturalmente, trata-se de perguntas contra a corrente em relação à mentalidade atual, que propõe uma liberdade desvinculada de valores, de regras, de normas objetivas e convida a rejeitar todos os limites em nome dos desejos do momento. Mas este tipo de proposta, ao invés de conduzir à verdadeira liberdade, leva o homem a se tornar um escravo de si mesmo, de seus desejos imediatos, dos ídolos como o poder, o dinheiro, o prazer desenfreado e as seduções do mundo, tornando-o incapaz de seguir a sua vocação original ao amor.

Deus nos dá os mandamentos porque deseja educar-nos à verdadeira liberdade, porque quer construir conosco um Reino de amor, de justiça e de paz. Escutá-los e colocá-los em prática não significa se alienar, mas encontrar o caminho da liberdade e do amor autêntico, porque os mandamentos não limitam a felicidade, mas indicam como encontrá-la. Jesus, no início do diálogo com o jovem rico, recorda que a lei dada por Deus é boa, porque "Deus é bom".


7. Temos necessidade de Vós

Quem vive hoje na condição de jovem se encontra afrontado por muitos problemas decorrentes do desemprego, da falta de referências ideais corretas e de perspectivas concretas para o futuro. Às vezes, pode-se ter a impressão de que se é impotente diante das crises e desvios atuais. Apesar das dificuldades, não percais a coragem e não renuncieis a vossos sonhos! Ao contrário, cultiveis no coração o grande desejo de fraternidade, justiça e paz. O futuro está nas mãos de quem sabe procurar e encontrar razões fortes de vida e de esperança. Se quiserdes, o futuro está em vossas mãos, porque os dons e as riquezas que o Senhor incutiu no coração de cada um de vós, plasmados no encontro com Cristo, podem trazer autêntica esperança ao mundo! É a fé no seu amor que, tornando-vos fortes e generosos, vos dará a coragem de afrontar com serenidade o caminho da vida e assumir responsabilidade familiar e profissional. Empenhai-vos a construir o vosso futuro através de um sério percurso de formação pessoal e de estudo, para servir de modo competente e generoso ao bem comum.

Na minha recente Carta Encíclica sobre o desenvolvimento humano integral, Caritas in veritate, elenquei alguns grandes desafios atuais, que são urgentes e essenciais para a vida deste mundo: o uso dos recursos da terra e o respeito da ecologia, a justa divisão dos bens e o controle dos mecanismos financeiros, a solidariedade com os Países pobres no âmbito da família humana, a luta contra a fome no mundo, a promoção da dignidade do trabalho humano, o serviço à cultura da vida, a construção da paz entre os povos, o diálogo inter-religioso, o bom uso dos meios de comunicação social.

São desafios aos quais sois chamados a responder para construir um mundo mais justo e fraterno. São desafios que requerem um projeto de vida exigente e apaixonante, no qual colocar toda a vossa riqueza segundo o plano que Deus tem para cada um de vós. Não se trata de fazer gestos heroicos ou extraordinários, mas agir explorando os próprios talentos e as próprias possibilidades, empenhando-se em progredir constantemente na fé e no amor.

Neste Ano Sacerdotal, convido-vos a conhecer a vida dos santos, em particular a dos sacerdotes santos. Vejais que Deus lhes guiou e que encontraram a própria estrada dia após dia, exatamente na fé, esperança e no amor. Cristo chama cada um de vós a empenhar-se com Ele e a assumir a própria responsabilidade para construir a civilização do amor. Se seguirdes a sua palavra, também a vossa estrada se iluminará e vos conduzirá a metas elevadas, que dão alegria e sentido pleno à vida.

Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja, vos acompanhe com sua proteção. Vos asseguro a minha lembrança na oração e, com grande afeição, vos abençoo.


Dado no Vaticano, aos 22 de fevereiro de 2010

Do coração, o trabalho. Do trabalho, a obra. ( Mons. Luigi Giussani)



O visível nasce do invisível: a obra nasce de algo que pode parecer sentimental ou abstrato e que, no entanto, não o é.
No Evangelho, Jesus, dá a seguinte definição de Deus: “Meu Pai é o eterno trabalhador” (cf Jo 5, 17). Com essa afirmação ele revela que o trabalho é expressão do ser.
O Mistério que faz todas as coisas tem uma dinâmica expressiva que penetra na realidade trinitária, mas que se reflete fora de si mesma, criando. E é por meio dessa criação, à qual nós pertencemos, que compreendemos as palavras de Jesus: “Meu Pai é o eterno trabalhador". A palavra trabalho, atribuída ao Mistério que faz todas as coisas, indica, então, que o ser se exprime. De fato, tudo se move como numa irresistível imitação.

1) Também para nós o trabalho é expressão do nosso ser. Essa consciência dá verdadeiramente fôlego tanto ao operário, que se esforça oito horas por dia na sua bancada, quanto ao empresário, voltado a desenvolver sua empresa.
Mas o nosso ser - aquilo que a Bíblia chama "coração": coragem, tenacidade, habilidade, esforço - é sede de verdade e de felicidade.
Não existe obra, desde a humilde da dona-de-casa até a do arquiteto genial, que possa subtrair-se a essa referência, à busca de uma satisfação plena, de uma realização humana: sede de verdade, que parte da curiosidade para entrar no enigma misterioso da busca; sede de felicidade que parte da instintividade e se dilata naquela concretude cheia de dignidade que, única, salva o instinto de corromper-se num falso e efêmero respiro. É esse coração que mobiliza quem quer que seja e qualquer seja a iniciativa que realize. Toda a vida é como que forçada por essa lógica: não existe outra fonte de energia que obrigue e habilite mais do que esta a cuidar, até nos pormenores, do trabalho no qual alguém se empenha.
Chamamos “senso religioso" o coração do homem: a sede de verdade e de felicidade dirige-se ao bem último, ao significado total que excede nossa possibilidade de imaginação e de definição. Ela é também a razão de todo o agir: o senso religioso é o vértice da razão, porque a razão é consciência da realidade segundo a totalidade dos seus fatores.
Ora, a sociedade não esgota a totalidade dos nossos fatores: não somos apenas engrenagens de um mecanismo ou tijolos do edifício social. O escopo social não esgota o que nós somos.
O trabalho também deve servir a verdade e a felicidade a que o homem pessoalmente aspira e estar em função delas. Neste sentido, a encíclica Laborem exercens afirma que a finalidade do trabalho não é o próprio trabalho, mas o homem (LE, n. 6).
E é correta a afirmação de que uma obra, no fundo, é uma oração aberta ao senso religioso de quem tem fé e de quem não a tem, porque o senso religioso, assim descrito, está presente em toda pessoa.



2) Como é possível ao homem sustentar esse coração perante o cosmo e, sobretudo, perante a sociedade? Como é possível ao homem sustentar-se numa positividade e num otimismo último (porque sem otimismo não se pode agir)? A resposta é. Não sozinho, mas envolvendo outras pessoas consigo. Estabelecendo uma amizade operativa (convivência ou companhia ou Movimento), isto é, uma associação de energias mais vasta, baseada em um reconhecimento recíproco. Essa companhia será tanto mais consistente quanto mais o motivo pelo qual ela nasceu for permanente e estável. Uma amizade que nasce de um interesse econômico comum tem a duração do juízo a respeito de sua utilidade. Por sua vez, uma companhia, um Movimento, que surge da intuição de que o objetivo de uma iniciativa excede os termos da própria iniciativa, e é uma tentativa de responder a algo muito maior, enfim, um Movimento que nasce da percepção daquele coração que temos em comum e que nos define como homens, estabelece um pertencer.
Cristo estabeleceu na história um pertencer a uma realidade na qual a preocupação suprema é o destino, que permite o surgimento da iniciativa humana a partir da sua verdadeira origem, do seu verdadeiro coração: a Igreja.
No discurso que pronunciou no Meeting de Rímini (29 de agosto de 1982), João Paulo II declarou que o objetivo da Igreja é construir "uma civilização da verdade e do amor" (1982, p. 987). Um objetivo inclusive terreno. Pois é a partir da documentação de uma humanidade melhor no tempo, na história, que se torna possível reconhecer a presença de um fator que a supera.
É o conceito evangélico de "milagre”. Milagre é uma humanidade que nunca teria sido capaz de realizar-se como resultado de um projeto ou de uma ação. Não uma realização definitiva (que acontecerá somente no final), mas um penhor dela desde já.
O cristianismo reconhece neste mundo o penhor do Paraíso; penhor que consiste justamente numa humanidade que se torna melhor quando a hipótese cristã é aceita e praticada.
Em amplos setores da Igreja tudo isso é esquecido (quando não até mesmo teoricamente negado). Isso evidencia, ainda mais, o valor de Movimentos, isto é, de lugares que tendem a dilatar-se e nos quais o valor humano e histórico de Cristo e de sua Igreja é levado a sério ("Quem me segue terá a vida eterna e o cêntuplo já neste mundo"; Mt 10, 29-30; cf 19, 28-29, Mc 10, 28-30).
A Companhia das Obras é a expressão de um desses espaços.
A exigência original do homem tende, portanto, a um reconhecimento social. Não por acaso a Mater et magistm de João XXIII aponta entre os direitos fundamentais do homem o direito à liberdade de associação (cf MM, nn. 56-64). Por isso, seja no âmbito do Estado seja no da Igreja, toda tentativa de limitar a liberdade associativa é uma tirania. E vice-versa, o pertencer à Igreja por meio da associação aumenta a liberdade de expressão e de ação.
Na associação, a liberdade encontra mais espaço e segurança: a liberdade é pertencer a uma atividade livre.
O cristianismo vivido gera um fermento operativo sem limites: tende a envolver todo o horizonte da espera humana. Lê-se num texto recente do Samizdat: "O único problema verdadeiramente importante para os que crêem, a salvação de Cristo, não nos impede de ter acesso à riqueza e à complexidade da vida, mas a ilumina com uma luz nova. Só uma resposta universal [a todos os problemas da existência] pode ser autenticamente cristã. O pensamento cristão deve ser a voz da plena verdade daquilo que se vive cotidianamente".

Na fé, homem e povo ( Dom Giussani)


Depois da reunião em Rímini, foram realizadas duas "Equipes" (encontro de responsáveis dos universitários de CL; nde),uma em Florença, em fevereiro de 1976, e outra mais uma vez em Rímini, em maio do mesmo ano. Certamente, a proposta da "comunhão de base" havia impressionado os universitários e se tornaria um dos temas de ambos os encontros; mas era difícil entender o que significava, para cada pessoa e para a comunidade, apesar da reflexão que se fazia sobre as dimensões da experiência cristã e sobre toda uma série de palavras ligadas a ela (educação, gratuidade, responsabilidade). Além disso, percebia-se o quanto era urgente rever a "presença" na universidade e a fisionomia da comunidade, de modo a conter uma espécie de "fuga da universidade" na direção de ambientes externos, que já se estava tornando um fenômeno bastante comum. No entanto, a atenção acabava quase sempre voltada às conseqüências culturais e de organização, para não falar das "políticas" (em janeiro daquele ano, haviam ocorrido as eleições dos representantes dos alunos nos órgãos acadêmicos). Era um pouco difícil mudar a maneira habitual de conceber e viver a vida na universidade. Dom Giussani não participou da Equipe de Florença. Mas esteve na de Rímini, sentado discretamente no fundo do salão, de onde acompanhou uma tarde inteira de debates dedicados ao trabalho cultural e político na universidade. Depois de uma pausa, antes das conclusões, pediu a palavra, para manifestar suas reações ao que tinha ouvido.

Seria interessante que cada um de vocês respondesse a esta pergunta, da qual, na minha opinião, depende todo e qualquer problema: "O que é a fé?"

A meu ver, falta a clareza da resposta: mas, se falta a clareza da resposta, como é que o método, ou seja, o caminho, a vida que se vive, pode se tornar criativo? Efetivamente, só um sujeito maduro e autoconsciente é criativo.

Ora, qual é hoje o papel de CL dentro da vida da Igreja e da sociedade italiana, senão ser chamado de atenção à fé? Ninguém mais chama a atenção para os conteúdos da fé; por isso, todos fazem mil coisas, mas não conseguem encontrar o seu sujeito, o seu rosto, a sua identidade. Mas, se falta a clareza, então aquilo que é função e instrumento de uma autoconsciência tende a ocupar o lugar de uma coisa que não existe.

Afinal, o que é a fé? A pessoa entende o que é a fé quando imagina como seria se estivesse no lugar dos primeiros, no lugar de André e João, que seguiram a Jesus e perguntaram a ele: "Mestre, onde moras?" (cf. Jo 1,38). Diante daquele homem, o que era a fé? Era reconhecer a presença divina. Eles nem ousavam pensar nisso, não tinham clareza sobre isso, mas reconheciam naquele homem a presença que libertava, que salvava.

A fé que define a nossa identidade e nos torna sujeitos ativos, e portanto criativos, é perceber essa presença entre nós, essa presença que é a nossa unidade, que é o nosso sermos povo. A minha identidade adequada é a nossa unidade como povo; a consciência disso eliminaria imediatamente cem por cento das dificuldades gravíssimas que existem entre a consideração do próprio sujeito entendido de forma individual e a vida da comunidade, dificuldades que a meu ver levam ao desperdício de uma infinidade de energias. A verdadeira relação com o adulto, ou seja, com a pessoa que tem autoridade no CLU (universitários de CL; nde), é a relação com a história da maneira como ela é guiada: realmente, qualquer outra relação estaria arriscada a decair numa relação pessoal e tendencialmente intimista (que só poderia ser salva por uma excepcional clareza e objetividade da pessoa madura; mas isso, como eu já disse, só acontece em casos excepcionais).

Uma coisa é objetiva quando nos salva, uma coisa é objetiva quando faz com que nos tornemos adultos. A fé é reconhecer a presença da libertação da vida, a presença da salvação de tudo; é isso que gera uma certeza cheia de energia e alegria que nós não temos. É isso que vence o mundo, e que nós não temos: a fé. É a fé de cada um de vocês, a fé que reconhece essa presença que os redime e liberta e, ao mesmo tempo, redime e liberta o mundo. Há dois mil anos, essa presença tinha o rosto daquele Homem, e hoje tem o rosto da nossa unidade, do povo que é Corpo dele: a nossa identidade verdadeira e adequada é esse Corpo, está na unidade com esse Corpo.

É como se nós ainda não tivéssemos cruzado o limiar do Acontecimento do qual tomamos o nome. É como se não fosse uma realidade, mas apenas um nome ideológico, um ponto de partida ideológico que implica uma certa característica cultural e uma certa característica moral em diferentes estágios que se justapõem.

Pelo contrário, a característica de um homem que se lança na história, ele cria com letícia e alegria.

A segunda coisa a levar em conta é que não existe um indivíduo suspenso no ar; o que existe é uma identidade encarnada: e uma identidade só pode existir na situação em que se está. O problema não é a unidade com o CLE (educadores de CL; nde), com o CLU, com os diversos níveis do Movimento; o problema é essa autoconsciência da novidade que nós somos e que vive na situação em que estamos. Assim, poderíamos até não estar à altura do que nos é pedido na universidade (nos cursos, nos conselhos de faculdade), mas ser igualmente ardentes, graças à novidade que carregamos conosco.

Quando acaba o tempo da universidade, é esse frêmito de identidade que deve ser levado pela vida afora, na vida da Igreja, no esforço civil, social e político.

Quando isso acontece, o engajamento político também é articulado como trabalho cultural, pois a pessoa tem consciência do que significa trabalhar para responder às necessidades culturais. Trata-se da consciência de um povo que aprofunda cada vez mais, em contato com os acontecimentos, a clareza de que carrega em si a resposta à crise.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Nota da CNBB sobre as eleições




Constantes interpelações têm chegado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB a respeito de seu posicionamento em relação às eleições do próximo dia 3 de outubro. Falam em nome da CNBB somente a Assembleia Geral, o Conselho Permanente e a Presidência. O único pronunciamento oficial da CNBB sobre as eleições/2010 é a Declaração sobre o Momento Político Nacional, aprovada pela 48ª Assembleia Geral da CNBB, deste ano, cujo conteúdo permanece como orientação neste momento de expressão do exercício da cidadania em nosso País.

Nessa Declaração, a CNBB, em consonância com sua missão histórica, mantém a tradição de apresentar princípios éticos, morais e cristãos fundamentais para ajudar os eleitores no discernimento do seu voto visando à consolidação da democracia entre nós.

Reafirmamos, portanto, o que diz a Declaração: “A campanha eleitoral é oportunidade para empenho de todos na reflexão sobre o que precisa ser levado adiante com responsabilidade e o que deve ser modificado, em vista de um Projeto Nacional com participação popular. Por isso, incentivamos a que todos participem e expressem, através do voto ético, esclarecido e consciente, a sua cidadania nas próximas eleições, superando possíveis desencantos com a política, procurando eleger pessoas comprometidas com o respeito incondicional à vida, à família, à liberdade religiosa e à dignidade humana. Em particular, encorajamos os leigos e as leigas da nossa Igreja a que assumam ativamente seu papel de cidadãos colaborando na construção de um País melhor para todos. Confiando na intercessão de Nossa Senhora Aparecida, invocamos as bênçãos de Deus para todo o Povo Brasileiro" .

Brasília, 16 de setembro de 2010

Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana – MG
Presidente da CNBB

Dom Luiz Soares Vieira
Arcebispo de Manaus
Vice-Presidente da CNBB

Dom Dimas Lara Barbosa
Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro
Secretário Geral da CNBB

Homilia do Papa Bento Beatificação do Cardeal Newmam



Queridos irmãos e irmãs em Cristo,

o dia que nos reuniu aqui em Birmingham é muito auspicioso. Em primeiro lugar, é o dia do Senhor, domingo, o dia em que nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitou dos mortos e mudou para sempre o curso da história humana, dando vida e esperança novas para aqueles que viviam nas trevas e na sombra da morte. É por isso que os cristãos ao redor do mundo reúnem-se neste dia para louvar e agradecer a Deus pelas grandes maravilhas que Ele realizou por nós. Este domingo em particular, além disso, marca um momento significativo na vida da nação britânica, pois é o dia escolhido para comemorar os 70 anos da Battle of Britain (Batalha da Grã-Bretanha). Para mim, que vivi e sofri durante os tenebrosos dias do regime nazista na Alemanha, é profundamente comovente estar aqui convosco em tal ocasião, e recordar todos dos vossos compatriotas que sacrificaram a própria vida, resistindo corajosamente às forças daquela ideologia maligna. Meu pensamento dirige-se particularmente à vizinha Coventry, que sofreu tão pesado bombardeio e uma grande perda de vidas humanas em novembro de 1940. Setenta anos depois, recordamos com vergonha e horror a espantosa quantidade de morte e destruição que a guerra traz consigo quando inicia, e renovamos nosso propósito de agir pela paz e reconciliação em qualquer lugar em que surja a ameaça dos conflitos. Mas há outra e mais alegre razão pela qual este é um dia de alegria para a Grã-Bretanha, Midlands e Birmingham. É o dia que vê o Cardeal John Henry Newman formalmente elevado aos altares e declarado Beato.

Agradeço ao Arcebispo Bernard Longley pelas amáveis boas-vindas que me dirigiu, no início da Santa Missa. Agradeço a todos aqueles que trabalharam intensamente por muitos anos para promover a causa do Cardeal Newman, incluindo os Padres do Oratório de Birmingham e os membros da família espiritual Das Werk. E saúdo todos os presentes que vieram de toda a Grã-Bretanha, Irlanda e outros países; agradeço-vos pela vossa presença nesta celebração, durante a qual glorificamos e louvamos a Deus pelas virtudes heróicas deste homem santo inglês.

A Inglaterra tem uma grande tradição de Santos Mártires, cujo corajoso testemunho sustentou e inspirou a comunidade católica local por séculos. E, no entanto, é justo e conveniente que reconheçamos hoje a santidade de um confessor, um filho desta nação que, embora não sendo chamado a derramar o próprio sangue pelo Senhor, deu-lhe testemunho eloquente no curso de uma vida longa dedicada ao ministério sacerdotal, especialmente na pregação, ensino e escritos. É digno de ocupar o seu lugar em meio a uma longa lista de santos e mestres destas ilhas, São Beda, Santa Hilda, São Aelredo, o beato Duns Scotus, somente para citar alguns. No beato John Henry a gentil tradição de ensino, de profunda sabedoria humana e intenso amor pelo Senhor produziu ricos frutos como um sinal da presença contínua do Espírito Santo no profundo do coração do Povo de Deus, trazendo abundantes dons de santidade.

O lema do Cardeal Newman, Cor ad cor loquitur, "o coração fala ao coração", permite-nos penetrar na sua compreensão da vida cristã como chamado à santidade, experimentada como intenso desejo do coração humano de entrar em íntima comunhão com o Coração de Deus. Ele nos recorda que a fidelidade à oração nos transforma gradualmente na imagem de Deus. Como escreveu em um de seus bem acabados sermões: "o hábito da oração, que é a prática de voltar-se para Deus e ao mundo invisível em qualquer época, em qualquer lugar, em qualquer emergência, a oração, digo, tem o que se pode chamar de um efeito natural no espiritualizar e elevar a alma. Um homem não é mais o que era antes; gradualmente [...] interiorizou um novo sistema de ideia e tornou-se imbuído de novos princípios "(Parochial and plain sermons, IV, 230-231). O Evangelho de hoje nos diz que ninguém pode servir a dois senhores (cf. Lc 16, 13), e o ensino do Beato John Henry sobre a oração explica como o fiel cristão está colocado de maneira permanentemente a serviço do único verdadeiro Mestre, o único que tem o direito de receber nossa devoção incondicional (cf. Mt 23, 10). Newman ajuda-nos a entender o que isso significa em nossa vida diária: diz-nos que o nosso Mestre divino reservou uma missão específica para cada um de nós, um 'serviço bem definido', confiado unicamente a cada um em particular: "Eu tenho a minha missão - escreveu – sou o elo de uma cadeia, uma ligação entre as pessoas. Ele não me criou para nada. Farei o bem, farei o seu trabalho; serei um anjo da paz, um pregador da verdade no meu papel [...] se obedecer aos seus mandamentos e o servir na minha vocação" (Meditations and devotions, 301-2).

O serviço específico para o qual o Beato John Henry Newman foi chamado comportou a aplicação de seu sutil intelecto e prolífica pena a muitos dos mais urgentes "problemas atuais". As suas intuições sobre a relação entre fé e razão, sobre o espaço vital da religião na sociedade civilizada, e sobre a necessidade de uma abordagem da educação com amplas bases e longo alcance não foram somente de profunda importância para a Inglaterra vitoriana, mas continuam ainda hoje a inspirar e iluminar a muitos ao redor do mundo. Quero prestar homenagem à sua visão da educação, que tanto fez para moldar o "ethos" que é a força subjacente às escolas e universidades católicas de hoje. Firmemente contrário a toda a abordagem reducionista ou utilitarista, buscou chegar a um ambiente educativo em que a formação intelectual, a disciplina moral e o compromisso religioso agissem em conjunto. O projeto de fundar uma universidade católica na Irlanda deu-lhe a oportunidade de desenvolver suas idéias sobre o assunto e recolher discursos por ele publicados como The Idea of a University, que contém um ideal acerca do qual podem aprender todos os envolvidos na formação acadêmica. E, de fato, qual outra meta melhor poderia se propor aos professores de religião se não aquele famoso apelo do Beato John Henry por um laicato inteligente e bem instruído: "Desejo um laicato não arrogante, não precipitado nos discurso, nem polêmico, mas homens que conheçam a própria religião, que entrem em seu interior, que saibam bem em que estão sustentados, que saibam no que creem e não creem, que conheçam o próprio credo tão bem a ponto de poder explicá-lo, que conheçam tão bem a história para poder defendê-la" (The Present Position of Catholics in England, IX, 390). Hoje, quando o autor dessas palavras é elevado aos altares, rezo para que, através de sua intercessão e exemplo, aqueles que se dedicam à tarefa de ensino e catequese sejam inspirados a um maior esforço maior pela sua visão, que tão claramente coloca diante de nós.

Enquanto o testamento intelectual de John Henry Newman foi aquele que, compreensivelmente, recebeu a maior em meio às vastas publicações sobre sua vida e trabalho, prefiro, nesta ocasião, concluir com uma breve reflexão sobre sua vida como sacerdote e pastor de almas. O calor e humanidade que estão subjacentes à sua apreciação do ministério pastoral são belamente expressas por outro de seus famosos discursos: "Se os anjos fossem vossos sacerdotes, queridos irmãos, não poderiam participar dos vossos sofrimentos, nem perdoar-vos, nem ter compaixão por vós, nem mostrar ternura em meio a vossos confrontos ou encontrar motivos para justificar-vos, como podemos nós; não poderiam ser modelos e guias para vós, e tampouco conduzir-vos do homem velho a uma vida nova, como podemos todos que viemos da vossa própria realidade" (“Men, not Angels: the Priests of the Gospel”, Discourses to mixed congregations, 3). Ele viveu a visão profundamente humana do ministério sacerdotal na atenção dedicada ao povo de Birmingham durante os anos em que passou no Oratório por ele fundado, visitando os doentes e os pobres, confortando os necessitados, cuidando daqueles que estavam na prisão. Não é de se admirar que, depois de sua morte, milhares de pessoas colocaram-se em fila pelas ruas do lugar, enquanto seu corpo era levado à sepultura a meia milha daqui. Cento e vinte anos depois, uma multidão está novamente aqui reunida para alegrar-se no reconhecimento solene da Igreja da excepcional santidade desse amadíssimo pai das almas. Que melhor maneira de expressar a alegria por este momento se não voltar-se ao nosso Pai celeste agradecimentos sinceros, rezando com as palavras colocadas pelo Beato John Henry Newman na boca do coro dos anjos no céu:

Louvai Aquele que é Santíssimo no alto dos céus
E louvai também na profundidade;
Belíssimo em todas as suas palavras,
mas bem mais em todos os seus caminhos!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

É possível viver assim? (Exercícios da Fraternidade de Comunhão e Libertação 10 de Março de 2010) Mons. Carrón


Começamos hoje o ponto “Perfeitos como o vosso pai”, mas, para nos ajudar a trabalhar
este trecho, paremos um momento para tentar ligá-lo com o anterior a fim de que não possamos
deixar para trás o que já dissemos, a fim de que, como por pressão osmótica possamos entrar no
mistério de Cristo. Queria especialmente sublinhar estas coisas que Dom Giussani diz quase en
passant, sem que quase nos demos conta, porque são estas passagens onde se vê a alma de Dom
Giussani pelas quais passa seu testemunho a nós, porque somente uma humanidade assim pode se
deixar tocar como ele; tudo está na Bíblia, parece absolutamente banal, mas por que não nos damos
conta? Por isso identificarmo-nos com aquela modalidade pela qual ele se deixa tocar é como ser
gerado, como deixar-se comover: “Por que Deus se dedica a mim? [...] Por que, além disso, se faz
homem e se entrega a mim para tornar-me novamente inocente [...]? [...] Por que este dom de si até
o extremo concebível, para além do extremo concebível?” Nós passamos por cima dessas frases,
mas é nelas que Dom Giussani expressa o contragolpe, porque é assim que ele se deixa tocar pela
frase de Jeremias que nos convida a memorizar: “Amei-te com um amor eterno e por isso te atraí a
mim tendo piedade do teu nada”; podemos repetir esta frase sem nos deixarmos atingir, assim como
muitas vezes olhamos para os outros sem nos deixar tocar, mas o amor que o Mistério nos
testemunha é este sentimento que tem dentro uma razão, que é a expressão de uma razão: “Eu me
comovo pelo teu valor, eu me comovo pelo teu nada, mas este teu nada é muito precioso para
Mim”. Prossegue Dom Giussani na página 275: “Esta piedade [...] é belo descobri-la no Evangelho.
Por exemplo, quando – disse duas vezes – uma noite (Jesus) da colina, vê sua cidade e chora por ela
[...] Aquela cidade o matará algumas semanas depois, mas para Ele isto não importa”. E depois diz
como soluçou diante daquela mulher que vai sepultar o próprio filho: ‘Mulher, não chores’, que era
uma coisa inconcebível; à parte o fato de que é ridículo e absurdo: como dizer a uma mulher que
segue o féretro do filho: ‘Não chores?’ Era o transbordamento de uma piedade, de uma compaixão”.
Sem experimentar este transbordamento de compaixão nós não sabemos o verdadeiro significado do
que o Evangelho exprime. Nós pensamos que entendemos porque somos muito presunçosos, muito
racionalistas... Não, não entendemos. Quando se percebe que entendemos? Quando reacontece; por
isso, como é diferente “fazer Escola de Comunidade e relê-la pensando tê-la compreendido” de
“fazer Escola de Comunidade vendo se reacontece” (e aí alguém não pode passar por cima, como
tantas vezes fazemos, porque isto quer dizer que nós permanecemos na superfície daquelas palavras
e depois se vê que não muda nada). De Zaqueu, a quem Jesus diz: “Desce, estou indo a tua casa”,
Dom Giussani comenta (basta uma frase para mostrar toda a sua comoção): “Não existe
possibilidade de ternura como essa entre nós”; que distância disso! Ou então, Lázaro: o pranto pelo
amigo que morre; apenas quando nos identificamos com isso podemos compreender que a caridade
de Deus pelo homem é esta emoção, esta comoção: “Eis então o ponto: Deus se comoveu pelo
nosso nada”; repete-o para nos ajudar a compreender, lhe vem do coração: “O que é o homem para
que Te lembres dele?” O máximo é quando diz que não apenas se comove do nosso nada, mas até
da nossa mesquinhez: “Tive piedade do teu ódio por Mim. Comovo-me porque Me odeias, o teu
ódio não pode evitar a comoção, toda a tua aversão por Mim não é suficiente para derrotar, para
vencer toda a comoção que sinto ao olhar-te, ao olhar o teu destino”. Esta comoção não é um
sentimento mas um juízo: um sentimento que carrega a razão dele: “Pela estima que tenho pelo teu
nada Me comovo”. E como Dom Giussani explica isso? Afirmando que “o palpitar do coração é a
piedade do teu nada”!
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Percebam que esta não é a premissa lógica (como muitas vezes a usamos: “Já sei e aplico”): isto é o
imergir numa vida a fim de que se torne nossa. Porque, se não me comovo, quer dizer que não
conheço; e se não me comovo, não se comunica a mim e toda a dificuldade que vem depois nasce
daqui. O que Dom Giussani nos diz se tornou realidade em Cristo, por isso não há outro olhar sobre
nós, seja o que for que tenhamos feito; porque Ele chora de comoção até pelo nosso ódio é que não
há outro olhar verdadeiro com o qual possamos nos olhar que não seja este. Se me olho de outro
modo, é um olhar velho, é um olhar que não existe mais porque, desde que entrou este olhar no real,
não existe mais realidade que não o tenha dentro; devemos atualizar o file (arquivo), como sempre
digo; não existe, este modo é velho, é como um mapa sem a América depois do descobrimento da
América, está errado! É exatamente isto que devemos nos ajudar a compreender: “A palavra
caridade indica a natureza própria de Deus”, isto é, que Ele doa a Si mesmo com esta comoção por
nós. Como isso se torna nosso? Somente Deus quebra esta estranheza. Alguém me escreve: “Em É
possível viver assim? Dom Giussani diz: ‘Porque Cristo existe, não existe nenhum homem que não
me interesse’. Gostaria que me explicasse melhor esta passagem: De Cristo aos homens. Tenho
dificuldade para entender como o ato de misericórdia comigo me impulsiona a me interessar por
cada homem”. Esta é a passagem e a deixo aberta porque é o que devemos testemunhar: como
acontece esta passagem?
Colocação: Aquilo que diz, aconteceu comigo outro dia. À p. 283 diz: “Um detalhe, entre
parênteses: não existe apego a si se não for cheio de comoção. A comoção une, deixando
separado”. Quando li este trecho, disse: “Sim, o mesmo discurso, alongado de um passo...”
interpretei-o de modo enviesado, de forma literal, como quem diz: “Sim, estou há séculos no
Movimento, já sei” Depois, foi como se o bom Deus me dissesse: “Não, volta atrás” e o reli e Ele
me fez vir à mente esta cotidianidade que está me acontecendo no relacionamento com meu filho
mais velho que está com 16 anos, e estou me dando conta de que ele está se revelando como
pessoa, enquanto há bem pouco tempo era um menininho. Para mim, é muito comovente que ele
tenha as mesmas perguntas que eu, o meu mesmo desejo de ser amado, de amar, de bem, de beleza,
de verdade e isto o torna para mim absolutamente próximo, interessante.
Carrón: Convém que cresça.
Colocação: Mesmo porque, para mim, é fascinante, interessante, e de fato, quando Dom Giussani
fala da comoção, pensei: “Caramba, é a experiência que estou fazendo com ele”, mas depois disse:
“A comoção une deixando separado”, e aqui ...

Carrón: É a mãe aqui ...

Colocação: Pela primeira vez na minha vida não entendi esta separação, está realmente
empregada numa acepção que não encontro em minha experiência porque, se penso na experiência
que estou fazendo com ele, aí é que me emociono, me interesso, vou ver as coisas que faz, perguntolhe
coisas, algo que não havia feito nunca – é claro que o atendia, nunca lhe faltou nada –, mas
agora se você me diz “distância”, “ficar longe”, é realmente a última coisa que imagino ter neste
momento com ele; e assim, pelas coisas que me apaixonam, porque é a mesma coisa que me
acontece pelas coisas que me apaixonam.

Carrón: Parta da experiência que faz e depois pensaremos no termo “distância”. O fato de que
comece a ver como ele é diferente de você, que é um tu, que é outro, implica um distanciamento
(isto é, que o deixe crescer)?
Colocação: Sim.

Carrón: Sim. Este é o significado do termo, basta observar o que acontece. Você se maravilhou
com algo que estava acontecendo e que começou a ver como positivo: este aflorar da alteridade do
filho, porque esta alteridade não é uma diminuição para você, mas um aumento, tinha um
interlocutor, começava a vê-lo aflorar, mas para isso ocorria deixar-lhe um espaço, não sufocá-lo,
não continuar a pensar que ele tem dez anos, não continuar a asfixiá-lo. Isto se chama
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distanciamento. Pode usar outra palavra que lhe agrade mais, mas é isto. Trata-se de uma
experiência sua, tanto é verdade que a tocou e a percebeu como um bem; isto é amar o destino do
filho. Como diz Dom Giussani, no dia em que nasceu, começou a afastar-se; agora começa a
adquirir verdadeiramente uma alteridade, não apenas fisiológica (que já tinha), mas como “eu”.

Colocação: Sou enfermeira e, nesta semana, encontrei uma senhora de 50 anos, internada na
minha ala, que tem uma distrofia muscular que a paralisa e não lhe permite respirar; já no
primeiro dia em que chegou, havia me pego pelo braço e me dissera: “Faça-me morrer!”; na outra
noite, chamou-me pela campainha porque não conseguia ficar deitada, não parava quieta, sempre
tentando retirar o oxigênio porque queria morrer. Como ela não queria dormir fiquei um pouco
com ela e me contou sua vida: “Tive três maridos, mas ainda não achei o certo” e depois
continuou a dizer: “Quero morrer, quero morrer; por que não me deixam morrer?” Perguntei-lhe:
“Por que quer morrer?”, e ela: “Porque estou aprisionada num corpo, quero conhecer, quero
tagarelar com as pessoas, mas estou aprisionada num corpo que não me permite fazer aquilo que
desejo”. Fiquei tocada pelo seu desejo, me comovi por ela (que não é uma coisa que me aconteça
sempre diante de meus pacientes), pelo seu desejo de conhecer. O que aconteceu depois foi que lhe
disse: “Você ainda tem o que descobrir na vida” e ela, olhando-me, desafiando-me dizia: “Mas
quem sou eu para você? Não sou sua mãe, não sou sua parenta, tem que me dizer quem sou eu
para você”. Naquele momento me dei conta de que ela era alguém para mim porque, além do fato
de que me comovi pelo destino daquela mulher, dei-me conta de que ainda uma vez era a Sua
iniciativa para comigo.

Carrón: Ficou comovida pelo destino daquela mulher; isto é o que corresponde, esta é a nossa
experiência da natureza de Deus como comoção; todo o nosso mal, toda a nossa fragilidade não
pode evitar, em certos momentos, de comover-se pelo destino de outra pessoa, nestas condições.

Colocação: Tenho uma empresa de construção civil junto com outros três amigos. Faz algum
tempo, oferecemos oportunidade de trabalho a algumas pessoas; eles fazem o trabalho e nós
pagamos ao responsável deles. Passado algum tempo, alguns operários submetidos a um senhor
me chamaram e me disseram que devia lhes pagar. Eu disse: “Já pagamos ao responsável”; eles
não acreditaram, continuaram por alguns dias, e então lhes disse: “Venham ao meu escritório,
vejam com meu sócio e explicaremos o problema”. Em resumo, estes operários foram enganados
por seu chefe (e se tivessem feito denúncia, o efeito seria de bumerang e eles é que deveriam pagar
multas). Preparavam-se para sair quando meu sócio disse: “Esperem. Não os deixaremos sozinhos.
Não é justo que paguemos duas vezes pelo trabalho, mas existe a possibilidade de dar-lhes
trabalho, trabalhando para mim”. Então, chorando, disseram: “Não existe gente como vocês, que
faça assim”. E eu lhes disse: “Não é verdade que não existam, poderia fazer uma grande lista
porque, se temos esta forma de trabalhar, este modo de estar no mundo, é porque aprendemos com
quem nos tratou e nos trata assim”. Quando eles foram embora, eu disse ao meu amigo: “Você se
dá conta do que fez?” O que me tocava é que ao fim da página 284 que nos tinha dito que lêssemos
para esta noite, Dom Giussani cita Madre Teresa: “Pode existir!” (não é uma pergunta, tem um
ponto de exclamação). “Pode existir!”: basta que alguém olhe como ele mesmo foi olhado e, como
conseqüência, reaja dessa forma por essa caridade que antes de tudo aconteceu a ele.

Carrón: Esta noite devemos compreender a passagem que Dom Giussani faz para responder a esta
pergunta: como posso ser perfeito como o nosso Pai é perfeito? Algum tempo atrás, dissemos em
uma Escola de Comunidade: “Não projetos de perfeição, mas olhar Cristo no rosto”, agora
mudamos o registro e dizemos “Devemos ser perfeitos como o Pai é perfeito” e voltamos para casa
todos como se mudássemos a palavra de ordem (e depois de um tempo “enlouquecemos’ porque
não compreendemos o nexo). Deste ponto de vista, Dom Giussani diz: “Sede perfeitos como é
perfeito o vosso Pai”. Perfeito como o nosso Pai; mas quem é capaz? Como recomendação não é
considerável; como recomendação produz o contrário: o medo”. Então, como podemos nos tornar
como o Pai? Que passo faz Dom Giussani para nos ajudar a compreender?
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Colocação: Vou contar o que me aconteceu na última Escola de Comunidade e que me acontece em
todos os âmbitos, mas que com dificuldade consigo comunicar. Quando foi lida a palavra do Papa
e disse “Permanecei no meu amor”, fiquei satisfeita e livre enquanto o dizia, não depois e não
porque aquelas palavras me davam uma indicação de como fazer, isto é, que bastava permanecer,
mas porque as estava ouvindo, porque as escutava, nem porque aquela era uma instrução de algo a
fazer por mim; o motivo pelo qual estava feliz não era porque devo permanecer, que basta
permanecer no Seu amor, mas aquelas palavras (permanecer) eram as palavras de Jesus que eu
ouvia dizer naquele momento, que saíam da boca de uma pessoa que existe e que, portanto, eu e
qualquer outro, em qualquer momento, podemos encontrar. Nós não geramos o acontecimento, a
humanidade nova não é algo que nós devemos fazer; a única coisa que devemos fazer é ser simples
e viver a nossa necessidade humana até o fim. Mas, então, o que tenho que fazer? O que depende
de mim? Porque a minha experiência é a de que, aquilo que sou, não depende de mim, mesmo o
viver até o fundo a minha necessidade humana, quando me acontece, é uma coisa que eu não me
dou. Isto é, nem mesmo o meu empenho é algo que eu gero, mas me é dado sempre como um dom,
verdadeiramente, e isto não o vejo só para mim, mas vejo em outras pessoas também. Por exemplo,
diante de uma pessoa que é totalmente fechada à vida, que manifesta um ódio a quem a ama ou que
não cede nem por um instante diante da beleza daquilo que acontece, não basta dizer:
“Permanecei”, ou: “Só deveis permanecer”, ou: “Basta que viva até o fundo a tua humanidade”,
dizendo-o como uma instrução, como alguma coisa a fazer, porque ela não tem intenção nenhuma
de permanecer nem de mudar, não consegue, precisa que aconteça o Senhor, a fim de que consiga
precisa que aconteça o milagre, que Jesus a toque, que a tome e eu não posso olhá-la, graças a
Deus não vejo mais, com a idéia de que ela deva fazer uma coisa que não sabe fazer, da mesma
forma que não sei fazê-la, como dizer a um doente: “Cure-se”. Mas é Jesus que deve tocá-lo e
curá-lo. Portanto, o meu relacionamento com o Mistério é apenas invocação: que venha, como de
verdade vem (porque depois, quando vem, é a única coisa que me dá paz e felicidade). Quando
digo: “Sou tu que me fazes”, digo isto literalmente. Tem piedade do meu nada: nada é nada, não é
alguma coisa.

Carrón: Espere um pouco, devemos retomar certas coisas porque o que disse é absolutamente
verdadeiro: o que estamos afirmando é esta precedência da Sua ação sobre qualquer outra. O que
contou da última Escola de Comunidade é o acontecimento disto, não são instruções para o uso que
depois aplico, acontece contemporaneamente e, por isso, é verdade que nós não geramos o
Acontecimento, mas somos tão arrastados por ele que não nos damos conta. Aquilo que é preciso
entender da colocação que você fez hoje, e que você não pode evitar que isso aconteça, mas é
preciso que o acolha, é esta simplicidade. Posso lhe dar um presente, o presente é todo seu, é tudo
graça, mas não posso acolhê-lo por você; é um exemplo banal (porque o presente fica fora de você,
enquanto o Acontecimento ocorre em você) mas está sempre em jogo a liberdade, mesmo se somos
facilitados pelo fato de que é exatamente o sinal que acontece que me facilita a liberdade, tanto é
verdade que o responder por si é graça, é provocado por este fato de que é tudo gratuito. Por isso, a
Escola de Comunidade diz que a gratuidade é “como o reflexo da gratuidade da minha graça”:
reflexo, mas devemos acolhê-lo; isto é o que o Evangelho chama de “simplicidade” ou “pobreza de
espírito”, chamem-no como quiserem, é aquilo que Jesus constantemente pede para poder participar
disto – Ele é tão consciente, como você disse, que tudo é graça – o que devemos fazer é acolhê-Lo,
ter a simplicidade de acolhê-Lo.

Colocação: É que esta simplicidade, sinceramente... Por tanto tempo recusei o fato de que tenha
necessidade de mim.

Carrón: Tem necessidade de você!
Colocação: Mas com o tempo, se devo dizer, nem uma vírgula vem fora de mim, como dos outros...

Carrón: É verdade, também a resposta livre nasce desta graça, mas é minha a resposta, e por isso
não podemos deixar fora este aspecto, porque de outra forma é mecânico, de outra forma é como
deixar de fora a sua colaboração, mesmo que pequena, mesmo que gratuita, porque nasce da
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comoção, da Sua graça, mas é sua; sem isto, não se torna nosso e isto é importantíssimo não deixálo
de fora; porque também a simplicidade é dada, mas no sentido de que move o seu eu para
reconhecê-la. A potência da Sua graça demonstra exatamente porque Cristo a dá através de você,
através do seu “sim” e isto é o máximo, compreende? Envolve você mesma naquela graça para ser
salva! Por isso a minha invocação é pedir esta simplicidade; de outra forma para que tem
necessidade da invocação?

Colocação: Preciso da invocação para que aconteça.

Carrón: Para que aconteça e para que você reconheça.

Carrón: Hoje temos a alegria de ter aqui padre Aldo; não tenho como não convidá-lo a contar a
experiência que faz, como este olhar, esta caridade do Mistério para conosco se tornou também sua.

Padre Aldo: Antes de tudo, obrigado. Estou comovido porque o milagre cada dia maior da minha
vida coincide com a graça que vocês têm de levar seriamente, palavra por palavra, o que diz

Carrón. Cleuza e Marcos diziam, recentemente, a alguns amigos que lhe perguntavam
por que iam
ao Paraguai: “No Paraguai não há nada de bonito, é tudo feio, não há nada de pior no mundo:
moribundos, doentes de AIDS, prostitutas, travestis, crianças violentadas, mendigos de rua”.
“Então, por que vão?”. “Vamos para aprender um olhar”, que é o olhar de Cristo para a
Madalena, de Cristo para Zaqueu, de Cristo para a samaritana. Este olhar, para mim, contém um
ponto seguro sobre o qual não tenho dúvidas há muitos anos: “Tenho a certeza de ser querido,
instante por instante, assim como sou”. A coisa mais trágica da vida é a incerteza afetiva, porque é
a certeza afetiva que sustenta a vida e a certeza afetiva, para mim, é que “eu sou Tu que me fazes”,
que os cabelos de minha cabeça estão contados, palavras que, na America Latina, vão do Panamá
até a Terra do Fogo. Olhar-me com os olhos do Tu, olhar a minha humanidade com a mesma
modalidade com a qual me olha o Ser; e o Ser me olha assim, mesmo quando estou zangado,
quando estou mal, isto se torna um motivo a mais, porque não existiria a cólera, o mal-estar sem a
minha humanidade, ou seja, o mal-estar, a doença, o câncer, a depressão se tornam motivo para
afirmar: “Eu sou Tu que me fazes”, porque estes fatores pertencem à minha humanidade. E isto faz
com que me comova porque, mesmo diante de minha doença ou dos meus doentes, pensem o que
quer dizer: “O Senhor me chamou desde o seio materno, pronunciou o meu nome, antes de
conceber-me no ventre de minha mãe; com um amor eterno me amou, teve piedade do meu nada”.
Palavras que Carrón nos repete continuamente e que são como o motor de todos os minutos de
minha vida e da vida dos meus amigos; entendam que não há um aspecto da vida que seja negativo,
por isso os meus doentes morrem sorridentes, porque o ponto da questão é este olhar pleno de
ternura; isto é para mim o início da caridade. O segundo passo é que este eu comovido pelo
Mistério eu encontrei visível em Cristo; como posso ser perfeito como o Pai? Tenho um critério:
olhar para Jesus, como Jesus vivia, como Giussani me abraçou, como Carrón me olha, é um
critério muito concreto, preciso, pelo qual o “Eu sou Tu que me fazes” se torna Tu, o Cristo. Por
isso, com Cleuza e Marcos retomamos há meses a homilia de Carrón no funeral de Pontiggia,
quando dizia: “Quem és Tu, ó Cristo?” Esta pergunta crucial está ressoando, instante por instante,
mas não com uma resposta imediata, porque a resposta não terminará nem mesmo no Paraíso, se
não nos cansarmos; podemos sempre perguntar: “Quem és Tu, ó Cristo?” E, depois, tem a ternura
de Deus; estes são os dois pontos sobre os quais estamos trabalhando muito porque no dizer: “Tu,
ó Cristo” nasceu tudo, nasceu a certeza que me faz ajoelhar diante de cada doente e beijá-lo, não
porque os vermes não me provoquem nojo, não porque não me provoque vômito aquela carne que
cai aos pedaços, não porque eu seja melhor que vocês, mas porque naquela carne putrefata é
Cristo que sofre, é Cristo que palpita, é Cristo que vive e, quando se vê Cristo, não se pode não
abraçá-lo, não se pode não beijá-lo; e assim também a capacidade de beijar ou de tirar os vermes
se torna cheia de alegria, porque se torna um gesto de gratuidade; tirar os vermes de Cristo. E um
Deus comovido pela minha humanidade se torna um eu comovido diante de cada homem, em
particular esses homens desprezados, porque devo fazer-lhes companhia como Cristo faz para
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mim, porque Cristo não me abandona um instante, entende? Cristo tem um encontro contínuo
comigo, continuamente ao meu lado e não me diz: “Vem amanhã”, não, está aqui presente agora, e
o mais belo sinal deste dom comovido de mim é a alegria (isto é, tudo se torna amigo). Então, o
maravilhamento substitui os lamentos; a minha impotência, a distância é preenchida pelo Mistério;
no fundo, não sou patrão de nada; se o Mistério quer isto, quer dizer que é o melhor e tudo começa
pelo eu, pelo meu eu como certeza de ser querido. Cleuza diz: “Pergunto-me como alguém
consegue duvidar”. Como fazem para ter dúvidas diante da crise, diante do câncer, como fazem
para não sentir que até aquela é maneira com a qual Deus me ama; mesmo não dormir é um modo
pelo qual Deus me diz: “Estou aqui junto de ti e vigio contigo”? Por isso minha humanidade é
seduzida, como fala Jeremias: “Deus me seduziu e eu me deixei seduzir”. Que espetáculo! Em cada
aspecto de minha vida, fui escolhido, sou Tu que me fazes, os cabelos de minha cabeça estão
contados: “Quem és Tu, ó Cristo?”, nos dizia Carrón; e desde novembro continuamos a repetir:
“Quem és Tu, ó Cristo?” a cada vez que nos vemos: “Quem és Tu, ó Cristo?”, em cada coisa,
diante de cada detalhe. Esta é a caridade que vivo.

Carrón: Compreendem agora porque Dom Giussani pode dizer: “O primeiro objeto da caridade do
homem se chama Jesus Cristo”? Esta é a passagem do Velho para o Novo Testamento: Deus, para
nos fazer seus, para nos tornar como Ele, não apenas dá as instruções para o uso, que são os
mandamentos, mas se torna Homem para atrair toda a nossa afeição para Ele. “Quem és Tu, ó
Cristo?” Por isso, o primeiro objeto da caridade é estar magnetizado por esta Sua caridade, de
Cristo; é somente o permanecer do qual falávamos antes, é o permanecer nisto, é o permanecer
agarrados a este Tu. E alguém que O encontrou não pode evitar ser atraído, seduzido. É daí que
tudo vem, todo o resto é desenvolvimento disto, mas nós não passamos da caridade de Deus a amar
assim, se não for através de Cristo; não se trata de ler as instruções para o uso ou ler o que é a
caridade e... Não! Dom Giussani faz esta passagem, que é o que fez Cristo, a primeira coisa que
aconteceu aos discípulos não era serem caridosos com os outros; a primeira coisa que lhes
aconteceu foi ficarem fascinados por Cristo, o primeiro objeto de seu amor, da sua caridade, foi
Cristo e então nasceu todo o resto. Por isso, não podemos terminar sem fazer esta passagem
conscientemente: “Amar Cristo e n’Ele [porque somos atraídos, seduzidos por Ele], isto é, de
acordo com o seu modo, os irmãos”. Péguy fala em “encontrar nele como uma certa gratuidade que
seja como que o reflexo da gratuidade da minha graça”. E Dom Giussani acaba perguntando: de
onde brota esta comoção? “A fonte desta comoção, em Cristo, como em mim mesmo, é o Espírito
de Cristo”. O Espírito Santo é Aquele que devemos invocar, pedir. Por isso, quando Dom Giussani
nos faz dizer: “Veni Sancte Spiritus, veni per Mariam”, nos convida a pedir isto. Porque, como
dizíamos numa outra vez ao ler o Papa, “Amai-vos como vos amei” [...]. Não é um novo
mandamento; o mandamento de amar o próximo como a si mesmo existe já no Antigo Testamento.
Alguns afirmam: “Tal amor é ainda mais radicalizado; este amar o outro deve imitar Cristo, que se
deu por nós; deve ser um amar heróico, até o dom de si mesmo”. Neste caso, porém, o Cristianismo
seria um moralismo heróico; assim, com as mesmas palavras do Evangelho podemos mudar a
natureza do Cristianismo, com as mesmas palavras, com os mesmos ingredientes, cozinhar uma
sopa diferente. “É verdade que devemos chegar até aquela radicalidade do amor que Cristo nos
mostrou e doou [é verdade, este é o objetivo; fazer-nos participar da própria natureza de Deus], mas
também aqui a verdadeira novidade não é o quanto nós fazemos, a verdadeira novidade é o quanto
Ele fez [...] a novidade é o dom, o grande dom, e a partir do dom [...] o novo agir. São Tomás de
Aquino o disse de modo preciso quando escreveu: “A nova lei [não é um mandamento radicalizado,
mais complicado de cumprir] é a graça do Espírito Santo. A nova lei não é um mandamento mais
difícil que os outros; a nova lei é um dom, a nova lei é a presença do Espírito Santo”. O Espírito é a
modalidade com a qual Cristo entra até o miolo em nossa vida, fazendo com que nos tornemos verdadeiramente dEle.